A menina e o silêncio

Ela odiava a voz das pessoas: podendo fazer silêncio, insistiam em falar pelos cotovelos. Se não eram conversas fúteis sobre os signos, davam gargalhadas forçadas (que ela sabia serem máscaras de proteção conta os monstros Carêncio e Solhudão).

Se havia instrumentos musicais, por que esses humanos insistiam em contar lorotas, fofocas e vantagens? Que som poderia ser mais poderoso e relaxante que uma tempestade tropical?

Não sentia necessidade de falar com as pessoas todos os dias e às vezes custava-lhe a paz estar entre amigos (frequentemente questionava-se sobre amizades que lhe despertavam sensações desconfortáveis nos primeiros 5 minutos de conversa).

Sentia que o universo do som era degredado a cada espirro, a cada ronco e a cada peido. Além disso machucava-lhe o âmago aquilo que aos outros parecia banal, mas era mais grave que o som de um trovão: o insulto.

Gritos de raiva e até de alegria faziam seus tímpanos arderem em chamas. Conversas sobre trabalho e brigas de família que subscreviam diálogos de insatisfação matrimonial lhe causavam náuseas e por pouco não avançou agressivamente como um bicho selvagem num humano que opinava sobre qualquer tema relevante munido do mantra “isso não é coisa de mulher direita”.

Falando em direita, a menina adorava placas de trânsito por serem uma linguagem muda e cheia de conteúdo. “Vire à esquerda”, “atenção”, “crianças no perímetro” e outras informações tão importantes para a locomoção de uma comunidade compartilhadas sem qualquer palavra falada, que alívio!

Recentemente conheceu um menino que assim como a maioria dos humanos falava duas línguas: Verdaderês e Mentirês. A segunda ele aprendera muito bem, mas por ela nunca ter se sentido à vontade com esse idioma era difícil ouvi-lo em Mentirês e traduzir mentalmente pro Verdaderês. Ele precisava de alguém para conversar e praticar o Verdaderês, visto que fora cruelmente repreendido pela professora por ter falado nesta língua com pessoas que não estavam capacitadas para ouvi-la. Além disso estava num recesso público em que precisava interagir com o máximo de humanos possíveis para despistar o monstro Carêncio, que lhe perseguia como punição por ter usado a língua errada com a pessoa errada. É desrespeitoso na sociedade deles falar uma língua que não seria entendida ou bem recebida por um dos interlocutores da conversa – gera até rompimento de laços humanos! Dele ela não tinha raiva, sentia dó. Via nele um potencial enorme para silenciar e produzir grandes obras primas(ele era aprendiz de escultor).

Diversas vezes a menina fugiu de casa e se escondeu num monastério abandonado aonde se ouvia pássaros, folhas e vento. Não tinha certeza se Deus existia, mas se existisse ele com certeza morava ali, no silêncio que o passado deixou.

A menina não tinha medo do silêncio dos humanos, nem se incomodava quando ele acontecia. Quando era quebrado por ela ou por alguém, sentia como se tivesse acabado de acordar de um sono renovador. Ela deitava os pensamentos na ausência da voz e deixava que tudo ao seu redor lhe abraçasse e lhe acariciasse a alma: fosse imagem, fosse som, fosse pensamento.

O sino da igreja era um pouco desconfortável de se ouvir, não pelo som ou volume, mas porque mergulhava a menina em lembranças que ela não guardara por querer. Mas mesmo assim permitia que o som vibrasse dentro dela; viajava em pensamento para tão longe que nenhum humano a alcançaria. Certas lembranças são Torres sem porta, você nunca sabe como foi parar lá e tampouco consegue sair.

Quando observava árvores imaginava o que se perguntavam enquanto o vento esfregava suas folhas umas nas outras: seriam questões de gênero ou de cor? Estariam elas discutindo minorias?

Depois de várias crises de otite ela começou a se isolar com mais frequência, recomendação médica: “Diagnóstico: a menina tem intolerância acústica. Prognóstico: a menina deve habitar espaços com pouco barulho. Em paralelo fazer terapia.”

Ao contrário do que o médico entendia por barulho, ela classificava toda sorte de som como apenas som, até o da britadeira. Barulho é o que os humanos faziam, desorganizando tudo com suas falas egoístas, totalitárias, fúteis e cheias de desfarces (eufemismos e convenções sociais). Terapia ela já fazia, mas o médico não ouviu quando ela falou, talvez sua voz estivesse muito baixa naquele dia.

Quando pensava em futuro ela ouvia os passos do monstro Medo no corredor de casa. Quando pensava em cobras, aranhas e sapos também. O futuro de uma menina como ela parecia muito infeliz, era como se no futuro da humanidade não houvesse espaço para a vida que ela queria para si. Pessoa não bem-vinda, que não se encaixa. Como não sentir medo de ser uma mulher que adoraria ter filhos mas que não conseguiria ouvi-los chorar e chamar pela mamãe? Como participar de reuniões, ir ao banco e ao médico, como atender ligações dos familiares distantes e dizer que estava tudo bem? Era morrer ou transmutar a realidade para o que ela entendia como tolerável e admirável.

Ouviu falar de uma ponte e do rio que corria ali. Quem passasse por ela 7 vezes e em seguida mergulhasse as pernas até os joelhos nas águas do Tâmisa podia fazer um pedido: prontamente algum Deus mestiço atenderia. Fez as malas com tudo o que considerava importante e arrumou o pensamento também – precisava das palavras e do volume de voz certo para ter seu pedido atendido.

Andou muito. Tomou cafés e vinhos, banhos de rio e de mar. Comeu doces, peixes e pães. Viu gente, bicho e planta. Chorou e cantou, sorriu sem perceber. A menina viveu tanto que esqueceu do que procurava, mas nunca se conformou com a fala dos homens. Num verão qualquer chegou a uma cidadezinha e viu a ponte com o tal rio. Lembrou do que quis com todas as forças. Parou o que estava fazendo e como quem conversa com Deus, perguntou a todas as meninas que já tinha sido “se estavam prontas pra atravessar a ponte com ela, se ainda queriam o silêncio dos homens e se estavam dispostas a deixar o conforto da conformação para alcançar o sonhado paraíso sônico.

Elas deram as mãos (não disseram nada) e sem que a menina pudesse reagir, dispuseram-se todas em fileira, de frente pra um dos lados da ponte. Não ouvia nem entendia nada. Pavor. O que querem elas? Atordoada por descobrir justamente agora que não tinha controle algum sobre seu passado e que ele lhe impulsionava pra o futuro, fechou os olhos e inspirou todo o ar que foi capaz de recolher.

Dias e noites passaram. Foi primavera e sem que os humanos percebessem foi verão. Teve guerra, diversão e paz.

Um dia veio um anjo e tirou de todos os homens o dom da voz. Foi feito um silêncio inesperado e aterrorizante.  Perdidos, eles ensaiavam sinais nunca usados, pareciam mais desesperados que vivos.

 

De algum lugar a menina podia enfim escutar a água batendo na pedra, a madeira da cadeira rangendo com o peso da velhota exausta, a nuvem de pássaros que voava em arabescos como se seguissem um mapa ancestral rumo ao paraíso dela. Assim como eles, ela já sabia aonde ficava esse lugar: na imaginação.

Abriu os olhos, pediu a conta e deixando alguns euros na borda da mesa sorriu em agradecimento à jovem senhora que lhe atendera com indiscutível gentileza. Tinha um concerto para assistir, precisava correr para não se atrasar. Ao menos ali todos ficariam calados e somente com palmas falariam a verdades: “parabéns”, “obrigado” e “continuem, vocês são brilhantes”.

Foi embora ansiosa para ouvir música e silêncio.