Eu te desejo

Alguém 

que te avise que, por estares distraído, teu cigarro já acabou e chegaste no filtro;
que te mande mensagens durante a noite desejando bom dia para que leias ao acordar;
que te lembre que o tempo que passa não volta, que às vezes te faça esquecer do tempo e que te incentive a ter paciência e espere o tempo que precisas esperar;
que te fale palavras duras e verdadeiras, doces e comoventes, que te escute falar;
que te garanta que estará ali pro que der e vier;
que goste de conversar contigo sobre teu dia, que te pergunte o que jantaste;
que lave a louça e busque um copo d'água pra te agradar;
que perca a paciência contigo de vez em quando e te ensine a ser tolerante também;
que chore, sinta medo e cansaço ao teu lado e te mostre o que há de mais humano em alguém, que te seja mestre e aluno sem que vocês estabeleçam esses papéis;
que te diga que sente tua falta ou saudade de estar contigo;
que queira ficar um bom tempo sem fazer nada contigo;
que te mostre as flores que gostas (estejam elas aonde estiverem, estejas tu aonde estiveres).
Amigos

que te peçam pra dormir mais tarde para jantar contigo depois do trabalho;
que te mostrem vídeos divertidos, jogos emocionantes, filmes que com certeza vais gostar;
que aceitem participar dos teus planos infalíveis e em momento algum te traiam;
que quando te decepcionarem, te peçam perdão e tu perdoes, porque a amizade é maior;
que quando os decepcionares, peças perdão e sejas perdoado, porque a amizade é maior;
que lembrem de ti; 
que te defendam e não tenham vergonha de te apoiar nas tempestades;
que te chamem no canto e te sugiram que você se atrase menos ou manere nos comentários;
que te perguntem se queres algo do supermercado, perdoem teu esquecimento e riam das tuas bobagens;
que te escutem e te digam o que precisas ouvir quando o mundo inteiro não lembrar que tu existes;
que te ofereçam colo, companhia e bebida;
que briguem contigo e façam as pazes depois;
que lembrem teu aniversário e telefonem pra te dar os parabéns;
que esqueçam teu aniversário e telefonem 1 semana depois pra dar parabéns mesmo assim;
que sumam, que reapareçam, que vivam na tua memória e tu na deles, que vocês sorriam;
que independente da localização geográfica continuem sendo teus amigos.
Uma varanda

pra onde voltas quando terminas tua saga diária,
aonde pões tuas plantas, luzes e cadeiras mais confortáveis,
com quem possas compartilhar o melhor da tua solidão, sonhos e esperanças,
de onde possas ver o céu, teu futuro com brilho nos olhos e teu passado com serenidade.
Uma cozinha 

aonde prepararás teus melhores banquetes, 
aonde afogarás tuas mais terríveis mágoas e ansiedades, 
aonde metaforicamente lavarás a louça da tua consciência e da tua alma.
Livros

que te falarão o que ninguém mais te fala, 
que te ensinarão o que ninguém poderia te ensinar,
que te ajudem a ser aquilo que teus sonhos precisas que sejas antes de torná-los realidade, 
que te levarão pro lugar aonde só poderias ir através da imaginação.
Músicas 

que te despertem saudade, alegria, questionamentos e reflexões, 
que te inspirem a adotar ou abandonar um hábito, 
que tenham o cheiro e a cor que precisares para acalmar o choro, 
que te façam sentir em casa.
Sossego

para planejares teus passos;
para lembrares dos teus passos;
para passeares teus sonhos;
para somente ser, somente estar.
Desejo que tenhas uma noite de sono revigorante, um amanhecer cheio de gratidão e paciência para o que tiveres de administrar o que acontece enquanto um acaba e o outro começa. 

Desejo que te sintas parte de um Universo enorme, abençoado, amado, importante, capaz, forte e frágil, sensível e sensato, que ajas como louco quando precisares. 

Desejo que tenhas tolerância com teus defeitos, que faças as pazes com o espelho, que tenhas piedade e amor-próprio antes de tomar qualquer decisão importante. Desejo que tenhas tempo para tomá-las. 

Que nada nem ninguém te impeça de ver beleza até aonde não há.
Desejo que desejes, mas que não te apegues nem te percas nas águas escuras da ambição desmedida. Que ames mas que não te esqueças que o amor precisa crescer junto contigo, que perdoes e que aprendas com os erros dos outros e com os teus. Desejo que possas voar para longe daquilo que te agride e diminui. Que sejas maior que que teus medos e menor que tua bondade. Desejo que tenhas sede de realizar teus sonhos e palavra para cumprires tuas promessas. 
Desejo que entendas que humildade vem antes de conta bancária e formação profissional, que saudade dói e nem por isso não podes sentí-la, que todo amor pode um dia acabar e nem por isso precisas evitá-lo. Que tua consciência seja teu guia e teu melhor travesseiro. Que tua boca seja instrumento da tua verdade.
Desejo muito, muito mesmo que sejas tua melhor versão, mesmo que de vez em quando precises ser o que as pessoas ao teu redor querem que sejas ou o que elas não gostariam que fosses. Que rias de ti, que rias dos bebês, dos animais, que rias com teus amigos e não deles. Desejo que sejas leve.

Que possas ter a vida que mereces, caminhar por onde queiras e fazer o que te fizer feliz. 

A importância de lavar sua louça suja

Lembro bem de como minha mãe me desafiava durante minha adolescência a ter um dia uma casa limpa e organizada. O motivo? Eu era aquela adolescente que um dia foi a criança que os pais não só não ensinou como não cobrou que lavasse a própria louça.

Foi durante a adolescência que a avó de um namorado da época me fez alguns comentários (de forma muito, muito doce e didática) e passei a refletir sobre a importância de lavar a louça que usasse, fosse na casa aonde eu morasse sozinha ou num lugar aonde coletivamente se usasse a cozinha.

Morando com mais estudantes na Irlanda (jovens da Espanha, República Tcheca, França, Bélgica…) passei dias e noites de fúria porque senti na pele como é desrespeitoso chegar em casa cansada e ainda ter que lavar a louça dos outros antes de poder fazer a própria comida e então matar uma fome de leão. Foi complicado mas conseguimos nos alinhar e lá em casa ficou definido que depois de usar tinha que lavar, e ponto final.

Morando sozinha senti o vento da liberdade sob minhas asas, e quando não estava afim eu simplesmente não lavava a louça! Já deixei uma pilha de pratos e panelas sim, mas eu sentia na hora de limpar tudo aquilo quão agradável seria se eu só precisasse lavar a metade. A minha procrastinação tinha um preço.

Lavar ou não a louça que você usa diz muito sobre você:

1- Você se responsabiliza pelos seus atos?

2- Você assina embaixo do que disse baixinho?

3- Você tem respeito pelas pessoas e pelo bem estar que elas merecem tanto quanto você?

4- Você leva a sério sua higiene pessoal, a higiene do local aonde você dorme e de onde passa a maior parte dos seus dias?

5- Você é humilde o suficiente para molhar/sujar suas mãos para lavar pratos que não são seus como símbolo de gratidão/caridade/serviço?

6- Você resolve a sujeira que faz na sua vida e na vida dos outros?

Espero que você possa ter respondido mais “sim” que “não”.

Ah, antes que eu me esqueça:

Sempre haverá louça para lavar, então evite perder seu tempo com você sabe o que!

Que seja leve

Querido amigo leitor, 

Se tua semana foi satisfatória, que bom, agradece!
Se poderia ter sido melhor, está tudo bem. Agradece pelas próximas que terás pela frente.
Se tudo foi por água abaixo, aproveita para nadar e refresca-te um pouco. Todo caos traz a chance da renovação. 

A dor tem o fim que construíres pra ela, o amor tem o tamanho do espaço que tens livre para ele, a vida tem a cor que teus olhos são capazes de ver. 

Que apesar de tudo o que te aconteça nunca te falte alimento para a alma e para o corpo. 
Que apesar das decepções nunca te falte amor próprio, compaixão e empatia. 
Que o sorriso de qualquer pessoa te desmanche e te ajude a sorrir também. 

Essa vida é teu presente. 
Escuta teu espírito, fecha os olhos e faz as pazes com ele.  
Semeia o melhor de ti, separa água e comida para os pássaros, lembra que fazes parte da mesma Natureza que eles. 
Aquilo que mais te incomoda é tua lição, aprende e segue em frente. 

Teu "melhor lugar do mundo" é aqui e agora. 
 
Com muito, muito, muito amor, 
Marília

 

A duras penas

Sinto pena de quem tem medo de olhar pra dentro, de atravessar os próprios desertos e buscar nas próprias entranhas um propósito e um grão de humanidade.

Sinto pena de quem se dá por vencido no primeiro coração-partido, na primeira guerra perdida, no interminável “não” de uma segunda-feira quente e cinza, de quem engole seco porque não se sente capaz de jogar tudo para o alto e ir em busca do sol.

Sinto pena de quem não é de verdade por excesso de maquiagem, de roupa e de mentiras; é deprimente ser um personagem, ainda que se bata no peito dizendo que foi criado por si, que tem vida própria. Sinto pena da mentira que contam para si mesmos antes de contar pros outros, da máscara de cílios que não sai da alma, da gravata que enforca a força da verdade.

Sinto pena de quem precisa de flashes por não saber lidar com a própria escuridão. 

Sinto pena de quem não se arrepende, não volta atrás da decisão e insiste num padrão de comportamento porque é o mais seguro. Sinto dó dos que sofrem calados mas não assumem que fariam diferente.

Sinto pena de quem devora a vida de alguém para tornar a própria vida menos amarga e insegura. De quem devora corações, pisa em sonhos e quando está de barriga cheia, cospe fogo em quem antes chamava de amor. Sinto pena de quem precisa sair com todo mundo porque tem medo de sair com uma pessoa só.

Sinto pena de quem põe armadilhas ao seu redor por medo do escuro. De quem não sabe que escuridão é só falta de luz própria, sinto uma pena que não cabe em mim.

Sinto pena de quem precisa de tudo e de todos, ao mesmo tempo e o tempo inteiro sem ter o privilégio de uma semana de solidão. Sinto pena de quem nunca fechou os olhos e conversou com o mar, sem medo algum de ser devorado ou molhado por ele.

Sinto pena de quem se corta, se sabota, se anestesia, se põe pra baixo, se desculpa e se priva de ar. As maiores prisões somos nós mesmos que construímos e trancamos por dentro.

Sinto pena de quem guarda mais dinheiro que recordações, de quem coleciona corações, de quem guarda rancor. Se pudesse chamaria pra um café e diria que o mundo é maior que qualquer conta bancária ou ego.

Sinto pena de quem fala muito e não diz nada, de quem não acredita no que fala e por isso é repetitivo, de quem não acredita no que ninguém fala, de quem não quer saber o que o mundo tem pra lhe dizer. Sinto muita, muita pena de quem acredita que comunica mas não passa de portador de verborragia crônica.

Sinto pena de quem vende a alma, os sonhos, o tempo livre. De quem não tem pena de si, dos outros, de quem não vê humanidade enquanto escova os dentes.

Sinto pena de quem assim como eu é eterno caçador de si mesmo. Sinto pena de você, escravo virtual. Sinto pena de todos nós que precisamos perder para reconhecer o que nos é valioso, sofrer depressões para valorizar sorrisos esporádicos e gratuitos, passar por um divórcio  para recuperar o amor-próprio.

Sinto pena de quem não ri de si mesmo, de quem tem medo de ter filhos e sonhos, de quem detesta natureza. Sinto pena de quem não se sente parte do Universo.

Sinto pena das paixões que nunca tiveram fim e que nunca foram reais, dos sonhos largados no canto da sala, das alianças que são de ouro mas não são de verdade, dos medos guardados no cofre como tesouros.

Hoje não queria sentir nada, mas sinto pena de mim mesma por ser capaz de falar de tanta coisa linda mas precisar dizer que sinto pena (mesmo sabendo que toda semente tem seu tempo).

Carta à Paternidade: Pai é aquele que ama

Passado o domingo do pai, venho falar de uma experiência repleta de chegadas e partidas, de crescimento e reencontros, de amor e de perdão.

Ao invés de presentes, declarações e abraços decidi escrever uma carta e endereçar à você, Paternidade. Como toda pessoa, você é diversa em si mesma e foi quando te entendi, passei a te amar como filha.

Pela sua perseverança em sonhar, fazer planos e vibrar cada vitória como uma conquista olímpica; por imaginar que foi difícil pra você conter as lágrimas ao som do primeiro “papai” e como você se encheu de luz ao testemunhar os primeiros passsos de um ser que mesmo tão pequeno te fez sentir um amor muito maior que você, te envio um grande abraço.

Sabendo que você silencia, preserva a si e à cria, que engole o choro e o sofrimento a seco, que disfarça a tristeza e esconde o medo e, como quem não tem opção, atravessa um incêndio sem um gemido de dor sequer: aqui vai o meu abraço.

Sei que você, Paternidade,  também se confunde, se perde, se culpa e se arrepende. Não é fácil ser humano quando a vida e as pessoas nos tratam como animais. Acredite, tudo que te aconteceu até aqui te transformou numa paternidade mais sábia, amada e real. A maioria das pessoas não sabe que a paternidade também dói. Receba meu abraço, dessa vez mais demorado. E se precisar, pode chorar um pouco. Vai ficar tudo bem.

Por te admirar na sua história, na sua ausência justificada, pelo temor de te decepcionar e perder o seu amor e por sonhar em ter um dia uma pessoa como você na minha história, te peço um abraço que acalme minha ansiedade e meu medo. Céus, como te admiro e como fico sem chão quando imagino meu mundo sem sua existência!

Se a vida te deu esse papel muito cedo ou tarde demais, não importa.

Se ninguém te ensinou o que fazer com toda essa responsabilidade e por isso você às vezes não sabe se está agindo da maneira certa, não tem problema.

Se tudo isso aconteceu sem que você quisesse ou soubesse e por isso no começo você não agiu como gostaria (mas já sabe o que poderia ter feito), está tudo bem.

Se quem te deu essa missão foi a Natureza, a Ciência, a vida ou algum coração órfão, a sua importância não muda.

Muito além do dia de ontem e dos que te transformaram em quem você é hoje, mais que a responsabilidade de salvar e ensinar, você é muito importante. O mundo inteiro te admira e te quer bem.

Por fim e não menos importante te dedico minha gratidão pela maior lição: pai é aquele que ama. 

Parabéns, me perdoe, eu te amo e obrigada.

M de Mulher e de Medo

Ontem pela manhã li no Globo sobre uma universidade japonesa cuja administração do curso de medicina alterava notas para favorecer candidatos e alunos do sexo masculino com o argumento de que “mulheres podem engravidar e com isso abandonar o curso”. O que senti foi tristeza. Podia ser comigo, com você que está lendo esse texto, com suas amigas, com sua filha, com qualquer mulher.

Ainda nesta semana conversei com alguns amigos sobre o assassinato da paranaense que, vítima de inúmeras atitudes abusivas e opressoras por parte do marido, não foi socorrida quando esteve entre a vida e a morte. Imagino se ela própria não interpretou o comportamento do marido como machista, violento e maléfico a tempo; ou (um cenário ainda mais grave e comum) que quando se deu conta do pesadelo que vivia a dois não foi capaz de sair dele por alguma crença ou medo do julgamento moral-cristão que sofreria. 

Este foi só mais um de tantos casos que acontecem nos lares familiares do Brasil e do mundo afora. 

Ainda nesta semana soube dos números alarmantes de mulheres agredidas em Manaus. De Janeiro a Junho foram registrados 7.458 casos de violência doméstica na cidade, uma média de 41 casos por dia num período de 6 meses. Veja bem, esses números são de casos REGISTRADOS. Quantos outros não foram e nunca serão reportados? A notícia completa está aqui: https://www.acritica.com/channels/manaus/news/de-janeiro-a-junho-de-2018-manaus-registrou-7-458-casos-de-violencia-domestica

Senhores, é de partir o coração. 

Mas escolhi falar não somente da violência masculina sobre a mulher. Ainda mais espantoso é o ódio de uma mulher em relação à outra. Há quem diga que o machismo está aí por ser repetidamente praticado pelos homens. Atrevo-me a sugerir que é o reforço feminino que fortifica e também perpetua o machismo. Como? Basta lembrarmos da última vez em que estivemos entre amigos (incluindo mulheres) e o assunto foi a roupa provocativa de uma garota na festa, o comportamento da solteira que beija quem quiser sem nenhum pudor ou a menina que só quer jogar bola e os pais já não sabem mais o que fazer para “afastá-la das más companhias”. 

Consigo lembrar de amigas de infância debochando de alguma confidência  minha que “não era coisa de uma garota direita” e de um colega de trabalho duvidando da minha solitude durante uma viagem, afinal de contas “mulher não pode viajar sozinha”. 

Durante o verão, por exemplo, é impossível vestir roupas quentes e pesadas, mas ainda ouvimos e até pensamos comentários maldosos sobre mulheres que preferem bermudas curtas ou regatas mais cavadas. Somos incompreensivas e cruéis com aquelas que sentem o mesmo calor que nós e que são mais corajosas e seguras para fazer escolhas que o mundo desaprova. Nos odiamos, temos vergonha das curvas que nos identificam como mulheres e sentimos pavor de sermos descobertas em nossa mais profunda feminilidade. Logo, é mais fácil reforçar um comentário e atitude machista que aplaudir aquelas que nos abrem caminhos sem nos cobrar absolutamente nada, somente respeito.

Quando questionada sobre ser feminista ou não faço questão de pensar a melhor maneira de explicar meu posicionamento. Para cada pessoa há uma resposta adequada, visto que neste tipo de conversa o objetivo é trocar ideias, não é chocar. Quase sempre digo que não sinto orgulho do feminismo como não sinto orgulho de precisar usar um sutiã para disfarçar o que toda a humanidade sabe que tenho. Feminismo, feminazi, mimimi de mulherzinha e todas as outras formas de perceber a movimentação de uma minoria que só quer se defender de agressões e se colocar num lugar de plenitude e dignidade precisam não somente de adeptos, mas de respeito. Só existe feminismo porque existe machismo. Só existe machismo porque existe reforço. O feminismo não combate o machismo, mas o reforço de uma ideia que oprime as diferenças com base num determinismo ora religioso, ora moral-convencional.

Quantos de nós foram criados por seios envergonhados do próprio poder e ensinados a colocar-se no seu devido lugar (lugares diferentes para sexos diferentes) sem sequer aprender a criticar essa predestinação maléfica que insistem em chamar de divina? Quantas vezes reproduzimos falas e comportamentos que por alguns segundos sabemos que não são nossos, mas não vemos alternativa sobre eles?

Hoje não sinto vergonha de ser mulher. Principalmente por causa dos olhares femininos que julgam, condenam e ignoram minha humanidade; pela falta de solidariedade com o sofrimento que nos aflige numa briga “de casal”, pelo silêncio recebido das colegas de trabalho quando confidenciamos uma situação de assédio, pelo deboche inescrupuloso com que nossos maiores sonhos são recebidos dentro de nossas próprias famílias, o que sinto em relação à minha feminilidade é insegurança, ansiedade, impotência. Sinto medo de ser verdadeiramente mulher. 

Mais autoconfiança, menos espelho!

“Quando verdadeiramente não ligas pro que qualquer pessoa pensa sobre ti, alcançaste um perigoso (para as pessoas) nível de liberdade”.  Jim Carrey

Há um demônio atrás de cada espelho. Como os vendedores de lojas do shopping que ao captar um olhar já ganha e quase aprisiona o cliente, o espelho nos envolve na primeira mirada.

Se por um lado a proposta do espelho é nos mostrar nossa imagem real, fica para o cérebro o trabalho de interpretar com base nas experiências vividas e nos padrões assimilados o reflexo visto. Aqui começo a falar sobre a prisão da beleza, it’s shocking!

Um espelho mal usado pode arruinar anos de autoestima. Os comentários das amigas podem abalar qualquer autoimagem bem elaborada… uma vez participante de uma sociedade em que é preciso ser linda 20 horas por dia, não há tempo para estar fora do padrão.

“Nobody wants to be lonely, nobody wants to cry”, já dizia o ídolo da minha adolescência Rock Martin. Enquanto formos ensinados a ser obsessivamente queridos e desejados pelo outro, não há espaço para sentir-mo-nos à vontade, felizes, satisfeitos. Tudo bem ter uma sobra de gordura abdominal, mas que isso não apareça na roupa pra ninguém ver!!! E seguimos vestindo contas no corpo, nas ideias e na alma.

Somos escravos do que gostaríamos que as pessoas pensassem que somos. 

Respeito todas as mulheres com seus procedimentos estéticos, eu mesma já fiz botox e sou defensora da depilação a laser. Mas TUDO na natureza e na vida tem um limite e um preço. Não somente precisamos estar dispostos a pagar o valor material e moral como precisamos de muita maturidade para arcar com as consequências de possíveis complicações dum procedimento estético, principalmente quando nos tornamos dependentes dele. É a velha história da faca que corta o pão e o irmão: ficamos lindas mas há dinheiro, tempo e paciência envolvidos… às vezes muito mais que isso. 

Uma vertente do tema “padrão estético” que sempre me deixa em crise com meus parafusos é o peso. Aos 21 anos eu pesava X. Hoje, vaaaaaaaarios anos depois, peso X ao quadrado mais a hipotenusa do cateto de Bhaskara. Isso significa (pra mim) que engordei. Mas minha natureza está tentando me dizer de todas as formas que isso faz parte dos meus genes, que minha saúde independe do meu peso adolescente, que estou gata SIM, que peso é relativo, etc etc etc. Minha terapeuta também me envia alguns sinais, mas minha prisão é mais forte, minha dependência de “atenção” é muito maior. A sua também. Oi? Não entendeu? Sim, você também se arruma para as pessoas gostarem da sua imagem, não somente porque se sente bem com o resultado. 

“Mas Marília, eu me amo eu me adoro, eu sou lindo!”. Calma, jovem. Tem muito aprendizado social nessa frase…

O que você e muitos coleguinhas ainda não sabem (porque não são ensinados a saber e confrontar mesmo na infância e nas escolas) é que muito do que nós achamos que pensamos e gostamos “de nascença” é na verdade aprendizado. Poderia citar várias referências da Psicologia e Antropologia aqui mas não estou afim, perdão! Apenas confia em mim e lê esse texto até o final! 

O que eu dizia é que você é, além de tudo o que você acha que é, produto do seu meio. Você é tudo aquilo que já foi, que é aos olhos dos outros, aos olhos de si mesmo, “tudo aquilo que poderia ter sido se a maré das circunstâncias não tivessem te banhado nas águas do equívoco”… isso vale pra estética, pra personalidade, pra alma da pessoa em si. Somos doutrinados desde muito novos a preencher espaços sociais essenciais para a manutenção da comunidade; devemos seguir os padrões que darão continuidade ao funcionamento equilibrado e previsível da sociedade. Eu, você e nossos vizinhos somos sim (também) produtos do meio e poucos de nós tem a oportunidade de descobrir que há outros caminhos além do “obrigatório”, também conhecido como “é o que gente normal faz” ou “isso não é coisa de mulher direita”. Faz parte de um ideal de sanidade mental se libertar dessa prisão do padrão social ao entender que não precisamos viver de espelho ou engolir todos os dias aquele comprimido da FÓRMULA DE SUCESSO.

Não seguir um padrão não significa ser anarquista ou estranho. Tudo bem que às vezes ser você mesmo pode ser caro, mas não há nada mais libertador que florescer num jardim de ideias próprias! Das pessoas que conheço, acho que sou um dos exemplos mais intensos de desabrochar a própria essência em águas desconhecidas. Só eu e meus amigos mais queridos sabemos quantas lágrimas derramei pela maldade/ingenuidade alheia que já interpretou muito equivocadamente minhas escolhas. Nunca fiz nada demais, mas por não ter feito o que todo mundo faz, me senti a própria Jeni do Chico. 

O que eu adoraria dizer para minhas amigas, leitoras, pros homens que com elas convivem e pra todos os demais que ainda não sabem exatamente aonde pisar é que não precisamos ser perfeitos. Não ser o que a sua família quer que você seja não é o fim do mundo. Não ser a esposa ideal, como você mesma um dia quis ser, não é uma falha no seu caráter. Não ter emagrecido depois do ultimo bebê não é preguiça. Não ser o macho alfa que seus amigos “são” não é exatamente um problema a ser resolvido, nem problema é (talvez você seja o príncipe de muita menina e ainda não saiba disso!). 

“Belezas são coisas acesas por dentro”. O resto é vaidade. O que sobra, o que é preciso comprar, pintar, pagar, moldar, apertar e disfarçar é SARNA PRA SE COÇAR! 

Saia dessa… deixa essa pessoa linda que você é encantar quem está pronto pra ser encantado, faça mudanças porque você realmente quer que sejam feitas e se alguém falar que você tá com a mesma roupa do último casamento, faça de conta que não é com você e continue se divertindo. 

Temos pouco tempo para viver o que vale a pena. Desejo que seu espelho seja seu cúmplice e amigo, que seus amigos sejam seus amigos mesmo e que a sua autoconfiança seja somente sua, de mais ninguém! 

A menina e o silêncio

Ela odiava a voz das pessoas: podendo fazer silêncio, insistiam em falar pelos cotovelos. Se não eram conversas fúteis sobre os signos, davam gargalhadas forçadas (que ela sabia serem máscaras de proteção conta os monstros Carêncio e Solhudão).

Se havia instrumentos musicais, por que esses humanos insistiam em contar lorotas, fofocas e vantagens? Que som poderia ser mais poderoso e relaxante que uma tempestade tropical?

Não sentia necessidade de falar com as pessoas todos os dias e às vezes custava-lhe a paz estar entre amigos (frequentemente questionava-se sobre amizades que lhe despertavam sensações desconfortáveis nos primeiros 5 minutos de conversa).

Sentia que o universo do som era degredado a cada espirro, a cada ronco e a cada peido. Além disso machucava-lhe o âmago aquilo que aos outros parecia banal, mas era mais grave que o som de um trovão: o insulto.

Gritos de raiva e até de alegria faziam seus tímpanos arderem em chamas. Conversas sobre trabalho e brigas de família que subscreviam diálogos de insatisfação matrimonial lhe causavam náuseas e por pouco não avançou agressivamente como um bicho selvagem num humano que opinava sobre qualquer tema relevante munido do mantra “isso não é coisa de mulher direita”.

Falando em direita, a menina adorava placas de trânsito por serem uma linguagem muda e cheia de conteúdo. “Vire à esquerda”, “atenção”, “crianças no perímetro” e outras informações tão importantes para a locomoção de uma comunidade compartilhadas sem qualquer palavra falada, que alívio!

Recentemente conheceu um menino que assim como a maioria dos humanos falava duas línguas: Verdaderês e Mentirês. A segunda ele aprendera muito bem, mas por ela nunca ter se sentido à vontade com esse idioma era difícil ouvi-lo em Mentirês e traduzir mentalmente pro Verdaderês. Ele precisava de alguém para conversar e praticar o Verdaderês, visto que fora cruelmente repreendido pela professora por ter falado nesta língua com pessoas que não estavam capacitadas para ouvi-la. Além disso estava num recesso público em que precisava interagir com o máximo de humanos possíveis para despistar o monstro Carêncio, que lhe perseguia como punição por ter usado a língua errada com a pessoa errada. É desrespeitoso na sociedade deles falar uma língua que não seria entendida ou bem recebida por um dos interlocutores da conversa – gera até rompimento de laços humanos! Dele ela não tinha raiva, sentia dó. Via nele um potencial enorme para silenciar e produzir grandes obras primas(ele era aprendiz de escultor).

Diversas vezes a menina fugiu de casa e se escondeu num monastério abandonado aonde se ouvia pássaros, folhas e vento. Não tinha certeza se Deus existia, mas se existisse ele com certeza morava ali, no silêncio que o passado deixou.

A menina não tinha medo do silêncio dos humanos, nem se incomodava quando ele acontecia. Quando era quebrado por ela ou por alguém, sentia como se tivesse acabado de acordar de um sono renovador. Ela deitava os pensamentos na ausência da voz e deixava que tudo ao seu redor lhe abraçasse e lhe acariciasse a alma: fosse imagem, fosse som, fosse pensamento.

O sino da igreja era um pouco desconfortável de se ouvir, não pelo som ou volume, mas porque mergulhava a menina em lembranças que ela não guardara por querer. Mas mesmo assim permitia que o som vibrasse dentro dela; viajava em pensamento para tão longe que nenhum humano a alcançaria. Certas lembranças são Torres sem porta, você nunca sabe como foi parar lá e tampouco consegue sair.

Quando observava árvores imaginava o que se perguntavam enquanto o vento esfregava suas folhas umas nas outras: seriam questões de gênero ou de cor? Estariam elas discutindo minorias?

Depois de várias crises de otite ela começou a se isolar com mais frequência, recomendação médica: “Diagnóstico: a menina tem intolerância acústica. Prognóstico: a menina deve habitar espaços com pouco barulho. Em paralelo fazer terapia.”

Ao contrário do que o médico entendia por barulho, ela classificava toda sorte de som como apenas som, até o da britadeira. Barulho é o que os humanos faziam, desorganizando tudo com suas falas egoístas, totalitárias, fúteis e cheias de desfarces (eufemismos e convenções sociais). Terapia ela já fazia, mas o médico não ouviu quando ela falou, talvez sua voz estivesse muito baixa naquele dia.

Quando pensava em futuro ela ouvia os passos do monstro Medo no corredor de casa. Quando pensava em cobras, aranhas e sapos também. O futuro de uma menina como ela parecia muito infeliz, era como se no futuro da humanidade não houvesse espaço para a vida que ela queria para si. Pessoa não bem-vinda, que não se encaixa. Como não sentir medo de ser uma mulher que adoraria ter filhos mas que não conseguiria ouvi-los chorar e chamar pela mamãe? Como participar de reuniões, ir ao banco e ao médico, como atender ligações dos familiares distantes e dizer que estava tudo bem? Era morrer ou transmutar a realidade para o que ela entendia como tolerável e admirável.

Ouviu falar de uma ponte e do rio que corria ali. Quem passasse por ela 7 vezes e em seguida mergulhasse as pernas até os joelhos nas águas do Tâmisa podia fazer um pedido: prontamente algum Deus mestiço atenderia. Fez as malas com tudo o que considerava importante e arrumou o pensamento também – precisava das palavras e do volume de voz certo para ter seu pedido atendido.

Andou muito. Tomou cafés e vinhos, banhos de rio e de mar. Comeu doces, peixes e pães. Viu gente, bicho e planta. Chorou e cantou, sorriu sem perceber. A menina viveu tanto que esqueceu do que procurava, mas nunca se conformou com a fala dos homens. Num verão qualquer chegou a uma cidadezinha e viu a ponte com o tal rio. Lembrou do que quis com todas as forças. Parou o que estava fazendo e como quem conversa com Deus, perguntou a todas as meninas que já tinha sido “se estavam prontas pra atravessar a ponte com ela, se ainda queriam o silêncio dos homens e se estavam dispostas a deixar o conforto da conformação para alcançar o sonhado paraíso sônico.

Elas deram as mãos (não disseram nada) e sem que a menina pudesse reagir, dispuseram-se todas em fileira, de frente pra um dos lados da ponte. Não ouvia nem entendia nada. Pavor. O que querem elas? Atordoada por descobrir justamente agora que não tinha controle algum sobre seu passado e que ele lhe impulsionava pra o futuro, fechou os olhos e inspirou todo o ar que foi capaz de recolher.

Dias e noites passaram. Foi primavera e sem que os humanos percebessem foi verão. Teve guerra, diversão e paz.

Um dia veio um anjo e tirou de todos os homens o dom da voz. Foi feito um silêncio inesperado e aterrorizante.  Perdidos, eles ensaiavam sinais nunca usados, pareciam mais desesperados que vivos.

 

De algum lugar a menina podia enfim escutar a água batendo na pedra, a madeira da cadeira rangendo com o peso da velhota exausta, a nuvem de pássaros que voava em arabescos como se seguissem um mapa ancestral rumo ao paraíso dela. Assim como eles, ela já sabia aonde ficava esse lugar: na imaginação.

Abriu os olhos, pediu a conta e deixando alguns euros na borda da mesa sorriu em agradecimento à jovem senhora que lhe atendera com indiscutível gentileza. Tinha um concerto para assistir, precisava correr para não se atrasar. Ao menos ali todos ficariam calados e somente com palmas falariam a verdades: “parabéns”, “obrigado” e “continuem, vocês são brilhantes”.

Foi embora ansiosa para ouvir música e silêncio.

Seja gentil com as palavras, elas são maiores que você

Primeiramente, esse título não é meu. A frase costumava ser a assinatura de email de um amigo meu (na época meu namorado) em 2009. “Segundamente”, tenho orgulho por ter mantido esse contato, que pessoa DO BEM! Em terceiro lugar, resgatei essa informação durante uma das minhas tentativas de organizar emails antigos nas minhas lindas pastas (já falei aqui sobre minha idolatria por listas,mas também sou adepta à cultura das pastas!). Tão alinhada com uma conversa que tive mais cedo é esta frase que me senti inspirada para falar sobre o assunto. CUIDADO COM AS PALAVRAS! Ou, na linguagem da internet, “Meça suas palavras, parça“.

Lembro bem de duas sementes em mim plantadas sobre a importância de pensar antes de falar durante minha vida escolar pelas freiras do colégio aonde estudei. Uma delas era um conteúdo socrático, o Conto das Três Peneiras (que você pode ler clicando AQUI ). Essa primeira lição me marcou de um jeito tão forte que desde muito nova tive horror a fofoca. Horror mesmo, a ponto de me afastar inclusive de amigos de longa data. Já repensei equipes de trabalho, relacionamentos e lazer só pra não viver o desprazer de alguém começar a contar uma “ingênua” história sobre alguém que não estaria ali para esclarecer os fatos ou se defender. Também aprendi aí que certas informações podem não ter nada demais em serem compartilhadas mas… “pra quê mesmo eu preciso falar sobre algo”, ou “será que alguém precisa mesmo saber disso”?

A outra lição vinha de um dito bem conhecido, algo como Palavra é que nem pedra. Dessa metáfora entendi que com as coisas que eu dizia poderia construir castelos ou masmorras, poderia atira-las e nunca mais conseguir trazê-las de volta, poderia matar ou defender alguém de um monstro perverso. Nem sempre conseguimos pensar bem antes de falar, é quando as pedras rolam soltas de um lado para o outro e depois, cheios de feridas, tentamos nos recompor. Mas as pedras lançadas não voltam mais.

Com budismo e meditação tenho aprendido a valorizar cada tensão, ansiedade, medo, frustração e dúvida. São, muito além de desconfortáveis, oportunidades de praticar o que tanto se fala, lê e acredita. Só se doma leões visíveis. E é tocando esses momentos que tenho aprendido a medir, inclusive, minhas palavras. Longe de mim querer ser perfeita, mas acredite no que vou dizer: quanto mais humana você for com uma pessoa, mais humana ela será com você. Quanto mais tranquila for sua voz, mais tranquila ficará a outra voz. É medindo suas palavras que muitas vezes você ajudará alguém a medir as dela também. Mas, se não der pra ser cirúrgico, desabafe e fale o que precisa. Palavra vira veneno se não for bem digerida e excretada.

O que meu amigo dizia na frase era exatamente isso. O poder do que você fala é maior do que você. O insulto que você faz é maior do que o abraço que você pode ou não conseguir dar pra pedir desculpas. Pois o que você fala pode ter um peso que você conhece, mas o que o ouvinte processa pode ter um peso que nem mesmo você seria capaz de carregar, perdoar, esquecer…

Por outro lado, quantas vezes nos sentimos muito melhor depois de ouvir um “Obrigada” sincero e despretensioso? Depois de recebermos um elogio no meio do turbilhão da rotina, de ouvirmos que somos amados ao acordar ou antes de dormir?

As palavras que você usa são maiores que você, parça… Ainda que você se sinta no direito de usa-las, talvez você não esteja preparado nem seja capaz de arcar com as consequências do poder que elas têm. Por isso, escolha as mais leves. E se precisar usar as pesadas, use as leves antes pra avisar que usará as pesadas. Procure sinônimos. Permita-se eufemismos se for o caso. Respire, pense, tenha certeza do que vai dizer, do que quer ouvir.

Seja gentil com as palavras. Elas são maiores que você.

Quantas vezes você já sentiu MEDO hoje?

Posterguei ao máximo escrever aqui sobre minha saída do Brasil. Além de fazer questão de preservar minha privacidade, não é fácil falar daquilo que me frustra, angustia e causa medo. Então esse texto será o relato de uma jovem que por sentir muito medo resolveu sair de onde estava e hoje só tem medo de precisar voltar.

falei sobre quão chocada estou com o momento que o Brasil está vivendo. Em paralelo minha amiga Vivi falou também sobre como se sente estando no Brasil mas sonhando em procurar seu lugar ao sol um pouco longe dele. Leitores, o que não escrevi nesse parágrafo mas está explicitamente implícito é que sentimos medo, muito medo.

Quando ainda morava com minha mãe numa area da cidade que não me fazia sentir segura, vivi situações que me marcaram pra sempre. Acho que o desespero e a raiva estão enraizados no comportamento criminoso de um jeito que só umas 5 décadas de educação poderiam amenizar esse grave problema social. Entendi que não conseguiria ter tranquilidade pra realizar minhas tarefas se a todo momento precisasse olhar pra todos os lados, andar acompanhada, evitar ônibus e ruas depois das 19h e estar sempre disposta a viver o último dia da minha vida. Se você nunca precisou voltar de ônibus da Ufam até a Cidade Nova de segunda à sexta às 22h, você dificilmente vai entender o que estou falando. Sei que muitos leitores já tiveram uma rotina parecida, então talvez não seja tão difícil de imaginar quão acelerado batia meu coração na hora de voltar pra casa. Eu vivia com medo.

Todas as vezes em que viajei escolhi lugares aonde eu pudesse andar sozinha, usar o transporte público e me sentir segura. Quando voltava pra minha cidade sempre sentia um peso enorme no pescoço, uma sensação de perigo iminente. O que muitos chamariam síndrome do pânico eu chamo de senso de realidade mesmo. Minha sensibilidade a manchetes sangrentas aumentava conforme eu conhecia outros países. Lembro bem de certa vez estar no Uruguai durante meu sabático e ouvir no rádio que o país inteiro estava aflito com o sequestro de uma médica. Perguntei a uma pessoa se ela tinha algum cargo público importante ou se era esposa de alguém da alta sociedade. A pessoa me olhou com espanto e perguntou “se precisava ser alguém importante pra que um sequestro fosse grave”. “Aqui não se sequestra pessoas! Isso é muito sério!”. Pausa para o leitor repensar seu conceito de sensibilidade ao crime.

Quantas vezes li no jornal que alguém foi morto a facadas e simplesmente virei a página do jornal? Quantas vezes você soube que fulano foi assaltado enquanto voltava do trabalho e continuou suas atividades como se não tivesse escutado nada?

Ao contrário do que uma leitora comentou no texto sobre concursos de beleza, que “não é porque o mundo é cheio de problemas que não devemos ter um pouco de felicidade“, é exatamente essa cegueira social que desenvolvemos pra sofrer menos com as condições sociais do Brasil que nos torna menos sensíveis, menos humanos! Nos enganamos pagando condomínios caríssimos, vigias, blindando carros e chamando de “chique” ter casas com monitoramento por câmeras.

Desde quando é motivo de felicidade gastar tanto? Quando Felicidade passou significar enclausurar-se com elegância pra se sentir seguro?

A cegueira emocional, moral, a insensibilidade e a falta de senso de realidade nos amortece pro que de fato é importante. Foi quando eu acordei pra minha realidade que tive a consciência de que meu salário poderia aumentar com o passar dos anos, mas eu nunca estaria livre pra andar de casa ao supermercado sozinha. Eu poderia frequentar os melhores restaurantes, estar cercada das pessoas mais brilhantes da cidade, mas eu jamais teria a oportunidade de voltar pra casa sozinha com os vidros do carro abertos. Ainda que eu falasse língua dos anjos, um homem que cruzasse meu caminho numa rua escura dificilmente me deixaria passar sem fazer um comentário ofensivo (é elogio que fala, senhores?) ou mesmo estampar no meu corpo a marca da sua “masculinidade”. Não é exagero, é a realidade.

Morei fora do Brasil duas vezes, mas foi em 2018 que o Universo alinhou suas forças e pude sonhar, planejar e realizar minha travessia até o outro lado do hemisfério. Bem aqui aonde estou finalmente ando de lá pra cá sem medo.

Aqui comecei a perceber quantas vezes sinto medo por dia e quais temas me despertam esse sentimento. Sinto muito pelo que vou dizer, mas meu único medo hoje é de precisar voltar e com isso perder a sensibilidade que conquistei, de ter que abrir mão da qualidade de vida que encontrei aqui. Apesar de todas as dificuldades que qualquer mudança de país traz, me sinto muito mais feliz que quando possuía todo tipo de “segurança” no meu país (profissional, financeira, social, afetiva). O respeito que vejo as pessoas terem umas pelas outras aqui sei que só em muitas décadas poderia ver com frequência no Brasil.

Muitos podem achar minha visão do Brasil muito pessimista. Reafirmo: é senso de realidade. Quer ver como eu tenho razão?

Sem pensar muito, responda a seguinte pergunta: você deixaria seu filho voltar pra casa de ônibus sozinho sem sentir medo?

Repensar o medo e seus conceitos de segurança não vai custar caro, eu prometo.