M de Mulher e de Medo

Ontem pela manhã li no Globo sobre uma universidade japonesa cuja administração do curso de medicina alterava notas para favorecer candidatos e alunos do sexo masculino com o argumento de que “mulheres podem engravidar e com isso abandonar o curso”. O que senti foi tristeza. Podia ser comigo, com você que está lendo esse texto, com suas amigas, com sua filha, com qualquer mulher.

Ainda nesta semana conversei com alguns amigos sobre o assassinato da paranaense que, vítima de inúmeras atitudes abusivas e opressoras por parte do marido, não foi socorrida quando esteve entre a vida e a morte. Imagino se ela própria não interpretou o comportamento do marido como machista, violento e maléfico a tempo; ou (um cenário ainda mais grave e comum) que quando se deu conta do pesadelo que vivia a dois não foi capaz de sair dele por alguma crença ou medo do julgamento moral-cristão que sofreria. 

Este foi só mais um de tantos casos que acontecem nos lares familiares do Brasil e do mundo afora. 

Ainda nesta semana soube dos números alarmantes de mulheres agredidas em Manaus. De Janeiro a Junho foram registrados 7.458 casos de violência doméstica na cidade, uma média de 41 casos por dia num período de 6 meses. Veja bem, esses números são de casos REGISTRADOS. Quantos outros não foram e nunca serão reportados? A notícia completa está aqui: https://www.acritica.com/channels/manaus/news/de-janeiro-a-junho-de-2018-manaus-registrou-7-458-casos-de-violencia-domestica

Senhores, é de partir o coração. 

Mas escolhi falar não somente da violência masculina sobre a mulher. Ainda mais espantoso é o ódio de uma mulher em relação à outra. Há quem diga que o machismo está aí por ser repetidamente praticado pelos homens. Atrevo-me a sugerir que é o reforço feminino que fortifica e também perpetua o machismo. Como? Basta lembrarmos da última vez em que estivemos entre amigos (incluindo mulheres) e o assunto foi a roupa provocativa de uma garota na festa, o comportamento da solteira que beija quem quiser sem nenhum pudor ou a menina que só quer jogar bola e os pais já não sabem mais o que fazer para “afastá-la das más companhias”. 

Consigo lembrar de amigas de infância debochando de alguma confidência  minha que “não era coisa de uma garota direita” e de um colega de trabalho duvidando da minha solitude durante uma viagem, afinal de contas “mulher não pode viajar sozinha”. 

Durante o verão, por exemplo, é impossível vestir roupas quentes e pesadas, mas ainda ouvimos e até pensamos comentários maldosos sobre mulheres que preferem bermudas curtas ou regatas mais cavadas. Somos incompreensivas e cruéis com aquelas que sentem o mesmo calor que nós e que são mais corajosas e seguras para fazer escolhas que o mundo desaprova. Nos odiamos, temos vergonha das curvas que nos identificam como mulheres e sentimos pavor de sermos descobertas em nossa mais profunda feminilidade. Logo, é mais fácil reforçar um comentário e atitude machista que aplaudir aquelas que nos abrem caminhos sem nos cobrar absolutamente nada, somente respeito.

Quando questionada sobre ser feminista ou não faço questão de pensar a melhor maneira de explicar meu posicionamento. Para cada pessoa há uma resposta adequada, visto que neste tipo de conversa o objetivo é trocar ideias, não é chocar. Quase sempre digo que não sinto orgulho do feminismo como não sinto orgulho de precisar usar um sutiã para disfarçar o que toda a humanidade sabe que tenho. Feminismo, feminazi, mimimi de mulherzinha e todas as outras formas de perceber a movimentação de uma minoria que só quer se defender de agressões e se colocar num lugar de plenitude e dignidade precisam não somente de adeptos, mas de respeito. Só existe feminismo porque existe machismo. Só existe machismo porque existe reforço. O feminismo não combate o machismo, mas o reforço de uma ideia que oprime as diferenças com base num determinismo ora religioso, ora moral-convencional.

Quantos de nós foram criados por seios envergonhados do próprio poder e ensinados a colocar-se no seu devido lugar (lugares diferentes para sexos diferentes) sem sequer aprender a criticar essa predestinação maléfica que insistem em chamar de divina? Quantas vezes reproduzimos falas e comportamentos que por alguns segundos sabemos que não são nossos, mas não vemos alternativa sobre eles?

Hoje não sinto vergonha de ser mulher. Principalmente por causa dos olhares femininos que julgam, condenam e ignoram minha humanidade; pela falta de solidariedade com o sofrimento que nos aflige numa briga “de casal”, pelo silêncio recebido das colegas de trabalho quando confidenciamos uma situação de assédio, pelo deboche inescrupuloso com que nossos maiores sonhos são recebidos dentro de nossas próprias famílias, o que sinto em relação à minha feminilidade é insegurança, ansiedade, impotência. Sinto medo de ser verdadeiramente mulher. 

“É o sonho de toda garota”: as mentiras que as mulheres contam

Nunca gostei de concursos de beleza. Sempre achei injusto comparar (só pelo corpo) uma mulher com outra e não me vejo aplaudindo essa natureza de competições. Soube que ontem uma amazonense ganhou o concurso de Miss Brasil e esse título vinha sendo muito esperado nas últimas décadas. Confesso, estou chocada com a comoção pública por conta dessa conquista. É isso mesmo, podem me julgar, mas eu esperava mais de vocês, mulheres.

Com todo o respeito do mundo, tenho mil razões pra discordar de quem gosta e se dedica a de concursos de beleza. Sendo uma mulher do séc 21 consciente de todos os problemas que inúmeras mulheres ao meu redor enfrentam e mesmo assim tendo escolhido um estilo de vida impossível pra minha avó na juventude dela, faço questão de expressar minha profunda decepção com nossa última “conquista”.

  1. Um concurso de beleza avalia sua capacidade de se adequar a padrões de beleza. Não sei como era no passado, mas é completamente injusta e insensata uma competição em que pessoas com cirurgias estéticas competem com pessoas sem cirurgias. Ou seja, a menina que mais se adequar ao padrão estético do momento ganha (independente de ser toda modificada ou não).
  2. Um concurso que avalia o corpo de uma mulher num momento em que se discute o amor próprio feminino, a liberdade desse corpo e inúmeros crimes de estupro, abuso sexual infantil e assédio sexual no ambiente profissional com certeza está de olhos fechados pro que realmente é importante ser discutido, avaliado e premiado a nível nacional. Não tenho estômago pra ver 15 meninas em vestido de festa competirem entre si pra ver quem é mais bonita enquanto outras 15 mil são violentadas, assassinadas e tem a juventude roubada. Com todo o respeito, não consigo. Perdão, sociedade. Sei que muitas das participantes até tem esse tipo de preocupação, mas precisam focar na dieta e no cronograma de eventos, estar sempre LINDA e mostrar o melhor sorriso nas fotos. Não importa o que elas pensam, importa se são fotogênicas ou não.
  3. Qual a relevância social dessa natureza de concurso? De que forma isso impacta na vida de mulheres que não têm acesso educação, por exemplo? Quantos homens deixam de agredir mulheres depois que a miss do seu Estado vence a competição nacional? Por favor, me ajudem a encontrar uma razão relevante pro desenvolvimento humano e eu com certeza não me oponho mais aos 6 meses de preparo pra por uma coroa, uma faixa e sentir orgulho de … nada. Ok, de ser a linda que representa seu país no meio de outras lindas. O que mais??? Acabou?
  4. Anorexia. Bulimia. Compulsão alimentar. Todo anúncio de beleza tem um objetivo, qual é o do Miss Brasil? Ser linda, perfeita. Se vocês homens soubessem do que uma mulher é capaz de fazer pra ser linda e perfeita, ficariam chocados. Nós temos um histórico de adequação a padrões de beleza e não é de hoje que vivemos nessa prisão caladas. Aquelas meninas tem saúde? Conseguem passar pelos meses de preparação sem tomar remédios ou parar tudo na vida pra conseguir manter o foco? Respeito todas elas, mas também tenho muita pena.
  5. O mundo que sonho pros meus filhos tem aplausos pra amazonenses descobrindo a cura de alguma doença grave, tem jovens sendo premiados por envolvimento social com projetos do 3o setor, tem homens repreendendo os amigos que fazem um comentário maldoso de uma mulher pra se sentirem mais machos do que realmente são. O futuro que eu quero tem ruas desertas com homens que vão me abordar pra perguntar as horas e só, tem campanhas publicitárias da nike com gordura aparecendo e garotas se sentindo lindas como realmente são. Mas infelizmente o mundo em que vivemos está repleto de mulheres LINDAS se transformando em bonecos, em mentiras e ensinando as outras aonde ir pra ser uma mentira ambulante também.

Pronto, desabafei. Aceito todas as pedras e palmas, pois estou ciente de que opinião é algo individual. Só peço pra não ouvir comentários como “ela é mal amada, por isso tá criticando a mulherada bonita”, “isso aí é falta de sexo”, “isso aí é inveja”, “se fosse bonita não tava defendendo as feias” e o campeão “só pode ser sapatão”.

Caríssimos, não é o sonho desta garota que vos fala e de muitas outras ser perfeita, melhor que outras e se adequar a padrão nenhum. Quando ouvirem alguém justificar seu desejo de ser miss dizendo que “é o sonho de toda garota”, saibam que é uma grande mentira.