Amor em tempos de gaiolas douradas

Hoje vamos falar de amor. Durante o dia-a-dia falamos de política, dinheiro, violência, religião, futebol e outros temas que impactam diretamente em nossas vidas. Discutimos, até desfazemos amizade quando não somos capazes de respeitar os limites da dialética. Mas não falamos de amor, talvez porque nossos amores falem mais de nós que o que dizemos de nós mesmos.

Falar de amor dá uma enciclopédia. Escolhi falar de amor e de uma máquina do tempo que já desejei ter em alguns momentos da minha vida.

ALERTA SPOILER. Se você assistiu Interestellar deve lembrar de quão impactante é a obra. A primeira referência que faço ao filme está na cena em que equipe de astronautas já está com pouco combustível e precisam tomar decisões importantes. Amélia ama um dos integrantes que morreram durante a expedição e ao ser questionada por sua motivação para estar ali, ela fala desse amor.

Por muitos anos me perguntei se o que sentia era mesmo amor. A explicação mais sábia que recebi sobre como saber se era mesmo foi “Você vai saber”. Então, se eu precisava me perguntar a resposta era negativa. Hoje eu diria pra quem me fizesse essa pergunta que é amor quando o tempo passa, as pessoas mudam e mesmo assim ele não muda. É amor quando você não quer/consegue se livrar do amor (mesmo com esforço e distanciamento da pessoa/causa que te desperta esse sentimento). A definição que a personagem de Anne Hathaway dá ao amor é muito interessante. O amor é algo que ainda não conseguimos compreender e talvez seja uma evidência de uma dimensão maior que ainda não está disponível pra nossa inteligência. E é um sentimento que por mais que não consigamos descrever com exatidão, seguimos sentindo através do tempo e do espaço…

Outro momento que me tocou fortemente foi a cena do ‘fantasma’. Matthew McConaughey vê o passado e pede desesperadamente pra que sua filha Murphy o impeça de partir pra missão espacial. É aí que o sapato aperta, leitor. Quantas vezes a gente olhou pra trás e se perguntou “AONDE APERTA PRA VOLTAR?”

É simples: não existe esse botão. Sua inexistência faz com que a partir de determinado ponto de nossas vidas passemos a valorizar mais cada segundo à nossa frente. E quando o segundo é de amor, queridos, esqueçam tudo e agarrem esse momento como se fosse a própria vida. Porque no futuro pode ser essa a lembrança mais significativa da sua vida.

Falo isso porque temos a ilusão de que o tempo não existe, pois não somos doutrinados ou mesmo incentivados a refletir sobre sua importância. Crescemos acreditando que segurança financeira, colocação social, padrão estético e outras gaiolas douradas são temas que merecem nossa atenção, dedicação e tempo. O tempo passa e com ele vamos nos tornando quem realmente somos. É nessa travessia entre quem você “tem que ser” e quem você realmente é que vem a oportunidade de viver conforme sua intuição/razão/coração fala. Nesse exato momento em que você lê o que escrevo, quem é você? Que valores orientam sua vida? Que desejos SEUS você já realizou até hoje? E, tocando na ferida, você conseguiu encontrar e ficar com seu grande amor? Você olha pro passado e fala pra si mesmo que deveria ter agido diferente, que gostaria de uma chance pra tentar fazer aquela história dar certo? Não estou te julgando, mas acho importante que você julgue a si mesmo e encare as consequências da vida que você tem escolhido todos os dias continuar vivendo. Não tenha medo da escuridão da sua intimidade.

ALERTA SPOILER. Agora trago outra referência que fala de um comportamento muito mais saudável ainda que perigoso em relação ao amor. Em A Forma da Água a jovem Elisa  vive um conto de fadas em tempos desastrosos, tempos em que os seres humanos precisam refletir e decidir diariamente sobre como se comportar diante das diferenças. Quando Elisa decide arriscar a própria vida (quando ela decide isso, já riscou do caderno todas as gaiolas douradas) para salvar seu grande amor, ela consegue provar algo que a gente é forçado a acreditar que nunca vai acontecer se tomarmos decisões contrárias aos padrões sociais, convenções e normas de convivência “tradicional”. Elisa consegue o apoio das pessoas mais próximas e até de quem não é de seu círculo mais íntimo. E você, eu, todo mundo aqui do lado de fora do cinema continuamos com medo de decidir o que fazer: o que vai agradar todo mundo, ficar com aquela pessoa que a família gosta e que os amigos não vão criticar, continuar com a relação ou solidão que nos convém (pra nos proteger de grandes desafios).

Leitores, com todo respeito, pelo menos uma vez na vida somos ou incentivamos uns aos outros à covardia. O amor, depois de diagnosticado, é para os fortes. E ser forte muitas vezes é ser fraco também e simplesmente se entregar, passando por algumas tempestades e mesmo assim seguir amando.

Pra finalizar, deixo aqui o texto que li ontem e que me fez pensar em tudo isso. O autor chama-se Bruno Fontes e já tem um livro publicado. Pra você que assim como eu tem um lugar no passado pra onde volta de vez em quando ou que não sabe que decisão tomar hoje pra não ter que pagar caro no bilhete da saudade, aqui vai essa bomba que o Bruno apertou o botão e explodiu na minha cabeça: “O amor mora nos nossos sonhos uma vida inteira”. Um domingo cheio de saudade pra vocês.

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Mudanças nossas de cada dia

Minha prática torta do budismo tem me revelado um mundo que sempre esteve aí, mas era sutil demais pra ser percebido. Assim como aconteceu com essa planta, tenho morrido várias vezes, perdido folhas e pétalas; a razão é minha força de transformação. Hoje entendo o motivo de sempre estar aberta a mudanças e de nunca ter tido medo de tentar o difícil, até quando parecia impossível.

Junto com a aceitação tenho aprendido a morrer sem dor, a decidir com a razão e a deixar ir tudo o que já não faz mais sentido. A ansiedade vai embora quando vejo essas folhas novas brotando numa planta que vi secar. A certeza de que aceitar mudanças é necessário me afasta da culpa que um dia senti por ser assim desbravadora, aparentemente inconsequente.

Aqui quero compartilhar minha verdade, coisa que nos dias de hoje nem sempre a gente pode fazer. Desejo que você, leitor (a), possa passar por mudanças muito boas, mesmo que um pouco turbulentas. Que depois delas você desfrute das flores e frutos e que um dia você perca o medo do que ainda está por vir.

Apesar de cíclica a Natureza precisa ser também misteriosa, só assim temos o privilégio da surpresa e do encanto. Se você achar necessário, ande no escuro, mude de emprego, abra mão do que não te faz melhor do que você já é. Abra as portas e janelas e deixe o sol entrar! Namastê.