Travessias

Mais autoconfiança, menos espelho!

“Quando verdadeiramente não ligas pro que qualquer pessoa pensa sobre ti, alcançaste um perigoso (para as pessoas) nível de liberdade”.  Jim Carrey

Há um demônio atrás de cada espelho. Como os vendedores de lojas do shopping que ao captar um olhar já ganha e quase aprisiona o cliente, o espelho nos envolve na primeira mirada.

Se por um lado a proposta do espelho é nos mostrar nossa imagem real, fica para o cérebro o trabalho de interpretar com base nas experiências vividas e nos padrões assimilados o reflexo visto. Aqui começo a falar sobre a prisão da beleza, it’s shocking!

Um espelho mal usado pode arruinar anos de autoestima. Os comentários das amigas podem abalar qualquer autoimagem bem elaborada… uma vez participante de uma sociedade em que é preciso ser linda 20 horas por dia, não há tempo para estar fora do padrão.

“Nobody wants to be lonely, nobody wants to cry”, já dizia o ídolo da minha adolescência Rock Martin. Enquanto formos ensinados a ser obsessivamente queridos e desejados pelo outro, não há espaço para sentir-mo-nos à vontade, felizes, satisfeitos. Tudo bem ter uma sobra de gordura abdominal, mas que isso não apareça na roupa pra ninguém ver!!! E seguimos vestindo contas no corpo, nas ideias e na alma.

Somos escravos do que gostaríamos que as pessoas pensassem que somos. 

Respeito todas as mulheres com seus procedimentos estéticos, eu mesma já fiz botox e sou defensora da depilação a laser. Mas TUDO na natureza e na vida tem um limite e um preço. Não somente precisamos estar dispostos a pagar o valor material e moral como precisamos de muita maturidade para arcar com as consequências de possíveis complicações dum procedimento estético, principalmente quando nos tornamos dependentes dele. É a velha história da faca que corta o pão e o irmão: ficamos lindas mas há dinheiro, tempo e paciência envolvidos… às vezes muito mais que isso. 

Uma vertente do tema “padrão estético” que sempre me deixa em crise com meus parafusos é o peso. Aos 21 anos eu pesava X. Hoje, vaaaaaaaarios anos depois, peso X ao quadrado mais a hipotenusa do cateto de Bhaskara. Isso significa (pra mim) que engordei. Mas minha natureza está tentando me dizer de todas as formas que isso faz parte dos meus genes, que minha saúde independe do meu peso adolescente, que estou gata SIM, que peso é relativo, etc etc etc. Minha terapeuta também me envia alguns sinais, mas minha prisão é mais forte, minha dependência de “atenção” é muito maior. A sua também. Oi? Não entendeu? Sim, você também se arruma para as pessoas gostarem da sua imagem, não somente porque se sente bem com o resultado. 

“Mas Marília, eu me amo eu me adoro, eu sou lindo!”. Calma, jovem. Tem muito aprendizado social nessa frase…

O que você e muitos coleguinhas ainda não sabem (porque não são ensinados a saber e confrontar mesmo na infância e nas escolas) é que muito do que nós achamos que pensamos e gostamos “de nascença” é na verdade aprendizado. Poderia citar várias referências da Psicologia e Antropologia aqui mas não estou afim, perdão! Apenas confia em mim e lê esse texto até o final! 

O que eu dizia é que você é, além de tudo o que você acha que é, produto do seu meio. Você é tudo aquilo que já foi, que é aos olhos dos outros, aos olhos de si mesmo, “tudo aquilo que poderia ter sido se a maré das circunstâncias não tivessem te banhado nas águas do equívoco”… isso vale pra estética, pra personalidade, pra alma da pessoa em si. Somos doutrinados desde muito novos a preencher espaços sociais essenciais para a manutenção da comunidade; devemos seguir os padrões que darão continuidade ao funcionamento equilibrado e previsível da sociedade. Eu, você e nossos vizinhos somos sim (também) produtos do meio e poucos de nós tem a oportunidade de descobrir que há outros caminhos além do “obrigatório”, também conhecido como “é o que gente normal faz” ou “isso não é coisa de mulher direita”. Faz parte de um ideal de sanidade mental se libertar dessa prisão do padrão social ao entender que não precisamos viver de espelho ou engolir todos os dias aquele comprimido da FÓRMULA DE SUCESSO.

Não seguir um padrão não significa ser anarquista ou estranho. Tudo bem que às vezes ser você mesmo pode ser caro, mas não há nada mais libertador que florescer num jardim de ideias próprias! Das pessoas que conheço, acho que sou um dos exemplos mais intensos de desabrochar a própria essência em águas desconhecidas. Só eu e meus amigos mais queridos sabemos quantas lágrimas derramei pela maldade/ingenuidade alheia que já interpretou muito equivocadamente minhas escolhas. Nunca fiz nada demais, mas por não ter feito o que todo mundo faz, me senti a própria Jeni do Chico. 

O que eu adoraria dizer para minhas amigas, leitoras, pros homens que com elas convivem e pra todos os demais que ainda não sabem exatamente aonde pisar é que não precisamos ser perfeitos. Não ser o que a sua família quer que você seja não é o fim do mundo. Não ser a esposa ideal, como você mesma um dia quis ser, não é uma falha no seu caráter. Não ter emagrecido depois do ultimo bebê não é preguiça. Não ser o macho alfa que seus amigos “são” não é exatamente um problema a ser resolvido, nem problema é (talvez você seja o príncipe de muita menina e ainda não saiba disso!). 

“Belezas são coisas acesas por dentro”. O resto é vaidade. O que sobra, o que é preciso comprar, pintar, pagar, moldar, apertar e disfarçar é SARNA PRA SE COÇAR! 

Saia dessa… deixa essa pessoa linda que você é encantar quem está pronto pra ser encantado, faça mudanças porque você realmente quer que sejam feitas e se alguém falar que você tá com a mesma roupa do último casamento, faça de conta que não é com você e continue se divertindo. 

Temos pouco tempo para viver o que vale a pena. Desejo que seu espelho seja seu cúmplice e amigo, que seus amigos sejam seus amigos mesmo e que a sua autoconfiança seja somente sua, de mais ninguém! 

A menina e o silêncio

Ela odiava a voz das pessoas: podendo fazer silêncio, insistiam em falar pelos cotovelos. Se não eram conversas fúteis sobre os signos, davam gargalhadas forçadas (que ela sabia serem máscaras de proteção conta os monstros Carêncio e Solhudão).

Se havia instrumentos musicais, por que esses humanos insistiam em contar lorotas, fofocas e vantagens? Que som poderia ser mais poderoso e relaxante que uma tempestade tropical?

Não sentia necessidade de falar com as pessoas todos os dias e às vezes custava-lhe a paz estar entre amigos (frequentemente questionava-se sobre amizades que lhe despertavam sensações desconfortáveis nos primeiros 5 minutos de conversa).

Sentia que o universo do som era degredado a cada espirro, a cada ronco e a cada peido. Além disso machucava-lhe o âmago aquilo que aos outros parecia banal, mas era mais grave que o som de um trovão: o insulto.

Gritos de raiva e até de alegria faziam seus tímpanos arderem em chamas. Conversas sobre trabalho e brigas de família que subscreviam diálogos de insatisfação matrimonial lhe causavam náuseas e por pouco não avançou agressivamente como um bicho selvagem num humano que opinava sobre qualquer tema relevante munido do mantra “isso não é coisa de mulher direita”.

Falando em direita, a menina adorava placas de trânsito por serem uma linguagem muda e cheia de conteúdo. “Vire à esquerda”, “atenção”, “crianças no perímetro” e outras informações tão importantes para a locomoção de uma comunidade compartilhadas sem qualquer palavra falada, que alívio!

Recentemente conheceu um menino que assim como a maioria dos humanos falava duas línguas: Verdaderês e Mentirês. A segunda ele aprendera muito bem, mas por ela nunca ter se sentido à vontade com esse idioma era difícil ouvi-lo em Mentirês e traduzir mentalmente pro Verdaderês. Ele precisava de alguém para conversar e praticar o Verdaderês, visto que fora cruelmente repreendido pela professora por ter falado nesta língua com pessoas que não estavam capacitadas para ouvi-la. Além disso estava num recesso público em que precisava interagir com o máximo de humanos possíveis para despistar o monstro Carêncio, que lhe perseguia como punição por ter usado a língua errada com a pessoa errada. É desrespeitoso na sociedade deles falar uma língua que não seria entendida ou bem recebida por um dos interlocutores da conversa – gera até rompimento de laços humanos! Dele ela não tinha raiva, sentia dó. Via nele um potencial enorme para silenciar e produzir grandes obras primas(ele era aprendiz de escultor).

Diversas vezes a menina fugiu de casa e se escondeu num monastério abandonado aonde se ouvia pássaros, folhas e vento. Não tinha certeza se Deus existia, mas se existisse ele com certeza morava ali, no silêncio que o passado deixou.

A menina não tinha medo do silêncio dos humanos, nem se incomodava quando ele acontecia. Quando era quebrado por ela ou por alguém, sentia como se tivesse acabado de acordar de um sono renovador. Ela deitava os pensamentos na ausência da voz e deixava que tudo ao seu redor lhe abraçasse e lhe acariciasse a alma: fosse imagem, fosse som, fosse pensamento.

O sino da igreja era um pouco desconfortável de se ouvir, não pelo som ou volume, mas porque mergulhava a menina em lembranças que ela não guardara por querer. Mas mesmo assim permitia que o som vibrasse dentro dela; viajava em pensamento para tão longe que nenhum humano a alcançaria. Certas lembranças são Torres sem porta, você nunca sabe como foi parar lá e tampouco consegue sair.

Quando observava árvores imaginava o que se perguntavam enquanto o vento esfregava suas folhas umas nas outras: seriam questões de gênero ou de cor? Estariam elas discutindo minorias?

Depois de várias crises de otite ela começou a se isolar com mais frequência, recomendação médica: “Diagnóstico: a menina tem intolerância acústica. Prognóstico: a menina deve habitar espaços com pouco barulho. Em paralelo fazer terapia.”

Ao contrário do que o médico entendia por barulho, ela classificava toda sorte de som como apenas som, até o da britadeira. Barulho é o que os humanos faziam, desorganizando tudo com suas falas egoístas, totalitárias, fúteis e cheias de desfarces (eufemismos e convenções sociais). Terapia ela já fazia, mas o médico não ouviu quando ela falou, talvez sua voz estivesse muito baixa naquele dia.

Quando pensava em futuro ela ouvia os passos do monstro Medo no corredor de casa. Quando pensava em cobras, aranhas e sapos também. O futuro de uma menina como ela parecia muito infeliz, era como se no futuro da humanidade não houvesse espaço para a vida que ela queria para si. Pessoa não bem-vinda, que não se encaixa. Como não sentir medo de ser uma mulher que adoraria ter filhos mas que não conseguiria ouvi-los chorar e chamar pela mamãe? Como participar de reuniões, ir ao banco e ao médico, como atender ligações dos familiares distantes e dizer que estava tudo bem? Era morrer ou transmutar a realidade para o que ela entendia como tolerável e admirável.

Ouviu falar de uma ponte e do rio que corria ali. Quem passasse por ela 7 vezes e em seguida mergulhasse as pernas até os joelhos nas águas do Tâmisa podia fazer um pedido: prontamente algum Deus mestiço atenderia. Fez as malas com tudo o que considerava importante e arrumou o pensamento também – precisava das palavras e do volume de voz certo para ter seu pedido atendido.

Andou muito. Tomou cafés e vinhos, banhos de rio e de mar. Comeu doces, peixes e pães. Viu gente, bicho e planta. Chorou e cantou, sorriu sem perceber. A menina viveu tanto que esqueceu do que procurava, mas nunca se conformou com a fala dos homens. Num verão qualquer chegou a uma cidadezinha e viu a ponte com o tal rio. Lembrou do que quis com todas as forças. Parou o que estava fazendo e como quem conversa com Deus, perguntou a todas as meninas que já tinha sido “se estavam prontas pra atravessar a ponte com ela, se ainda queriam o silêncio dos homens e se estavam dispostas a deixar o conforto da conformação para alcançar o sonhado paraíso sônico.

Elas deram as mãos (não disseram nada) e sem que a menina pudesse reagir, dispuseram-se todas em fileira, de frente pra um dos lados da ponte. Não ouvia nem entendia nada. Pavor. O que querem elas? Atordoada por descobrir justamente agora que não tinha controle algum sobre seu passado e que ele lhe impulsionava pra o futuro, fechou os olhos e inspirou todo o ar que foi capaz de recolher.

Dias e noites passaram. Foi primavera e sem que os humanos percebessem foi verão. Teve guerra, diversão e paz.

Um dia veio um anjo e tirou de todos os homens o dom da voz. Foi feito um silêncio inesperado e aterrorizante.  Perdidos, eles ensaiavam sinais nunca usados, pareciam mais desesperados que vivos.

 

De algum lugar a menina podia enfim escutar a água batendo na pedra, a madeira da cadeira rangendo com o peso da velhota exausta, a nuvem de pássaros que voava em arabescos como se seguissem um mapa ancestral rumo ao paraíso dela. Assim como eles, ela já sabia aonde ficava esse lugar: na imaginação.

Abriu os olhos, pediu a conta e deixando alguns euros na borda da mesa sorriu em agradecimento à jovem senhora que lhe atendera com indiscutível gentileza. Tinha um concerto para assistir, precisava correr para não se atrasar. Ao menos ali todos ficariam calados e somente com palmas falariam a verdades: “parabéns”, “obrigado” e “continuem, vocês são brilhantes”.

Foi embora ansiosa para ouvir música e silêncio.

As fases de uma Travessia

Assisti o vídeo que aparece ao final deste texto há menos de um minuto (é assim que a vontade e inspiração pra escrever aparecem, é assim que tento pegar a oportunidade quando ela ainda está no ar). A idéia dele é apresentar as fases pelas quais uma mulher passa e seu processo de autocrítica e aceitação durante a vida. Mas eu também vi uma pessoa qualquer passando por uma calçada e fazendo sua travessia (pela vida). Minha calçada, minha travessia, minha vida tem capítulos reveladores, trágicos, inspiradores, incríveis. Acho que já tenho coragem de compartilhar um pouco da minha travessia.

Às vezes encaro meu presente incrédula. Se cruzei esquinas e troquei de calçadas, não lembro de todas. Muitas vezes passei por lugares importantes desatenta. Várias vezes passei por pessoas importantes desatenta. A questão aqui é que as mudanças acontecem gradativamente, sem que a gente tenha consciência. O motivo? Enquanto vivemos, a vida acontece, e isso pode ser muito bom ou muito ruim.

Se passei por lugares desatenta, não foi sempre. Lembro exatamente dos nãos que dei e que me foram dados, dos sins que forcei, dos que tive medo de dizer, dos que disse do fundo do meu coração. Sei exatamente de alguns dos momentos chaves da minha travessia, ahhh sei. Me arrependo de alguns, tenho muita saudade de outros. Mas faria quase tudo outra vez.

Espalhei flores e atirei pedras. Até dei alguns passos pra trás na tentativa de recolher as pedras ingenuamente atiradas, mas era tarde demais. Acabei reencontrando as mesmas pedras quando eu menos esperava um pouco mais à frente: chorei, reclamei, lembrei, calei. E depois de ter seguido em frente sabendo o peso de uma pedra, dei o melhor de mim no semeio de plantas. E passei a literalmente me apaixonar por plantas (aqui lê-se seres vivos que nada pedem a não ser carinho e cuidado).

Passei noites e dias inteiros trabalhando, perdi festas estudando, também perdi aulas por ter exagerado em festas. Nunca utilizei uma regra muito restrita para balancear atividades muito diferentes, apenas deixei bem claro pra mim mesma qual era meu objetivo e fui dosando conforme a idade permitia. De ônibus, caminhando, de carona e dirigindo fui cruzando limites, fronteiras, entradas e bandeiras. Vim parar aqui!

      Capa do “The Endless River”, Pink Floyd

Recebi solidariedade, paguei com solidariedade. Recebi desprezo, paguei com desprezo. Mas depois de alguns quilômetros entendi que não é bem assim que funciona. Só se pode pagar uma conta se o saldo estiver azul, e pagar uma dívida fazendo outra não é nada inteligente. Em paralelo aprendi a equilibrar minhas finanças, emoções e energia. Tive muita sorte ou o Universo realmente estava alinhado pra mim, pois aprendi essas e outras grandes lições do gênero exatamente quando precisava aprender. Poderia ter recebido essas lições antes, mas talvez não teria dado tanto valor a elas.

Amei, odiei. Fui traída, traí. Perdoei e não perdoei, me arrependi e me orgulhei. Senti saudades, senti remorso, pedi pra voltar, pedi perdão. Tive medo, senti dor, senti vergonha. Quis fugir, quis gritar, quis morrer. Quis viver tudo de novo, recomecei, suei e senti muita fome. Pedi dinheiro emprestado, pedi colo, pedi desculpas em silêncio. Falei mal, falaram mal de mim, contei a verdade, contei que era mentira, contei as horas pra minha vida voltar ao normal. Contei meus segredos.

Guardei segredos, escrevi histórias e estórias. Sofri calada com histórias e fingi não sentir nada (era minha obrigação, infelizmente). Chorei baixinho no banho e perdi noites de sono sentindo uma dor que não era minha. Aprendi que pra ser uma boa profissional não precisava ser um robô, mas principalmente não sofrer tanto, senão não conseguiria ajudar ninguém. Aprendi a ajudar, ensinei a ajudar, testemunhei lindas alianças solidárias e sinto saudades de algumas delas. Descobri uma psicóloga muito humana dentro de mim.

Sonhei, alcancei, me frustrei. Parei, pensei, jejuei, caminhei, dosei e exagerei, fiz tudo de novo do jeito certo e do jeito errado. Me virei do avesso pra me enxergar melhor, depois aprendi que conseguiria fazer o mesmo fechando os olhos e respirando. Fui yogui, guerreira, marombeira, cozinheira, turista, diretora, fui dona e capataz de mim mesma. No último momento mais difícil que tive, fui filha de uma pessoa que precisava partir. Fui tudo, mas não foi o suficiente, ela foi e eu fiquei. Hoje somos nossa história.

Nunca tive um mapa. Quando me perdia, tentava lembrar do percurso que vinha fazendo pra saber aonde errei. Muitas vezes pedi ajuda, informação ou mesmo segui alguém que parecia mais voar que andar. Também mudei de idéia, deixei de seguir quem caminhava por onde eu não queria passar. Segui alguns sinais, me escondi de chuvas mas também me molhei em muitas delas. Passei por cada tempestade… Depois do GPS, idiomas e passaporte desbravei meus tão sonhados caminhos (que nem eu sabia que eram meus e me aguardavam). Não sei ler mãos, mas trago nas minhas vários calos de malas…

Topei com tanta gente bacana, bonita, inspiradora! Também esbarrei em monstros, sacos de areia e sacos vazios (esses aprendi a evitar). Fui carregada por anjos, enfeitiçada por demônios, decepcionada por ídolos e resgatadas por humanos (detesto pessoas, adoro gente). Aprendi muito, compartilhei o que pude, ainda tenho livros que comprei e não consegui tempo pra ler. Passei por cinemas e entrei em quase todos, das igrejas acabei desistindo de conhecer porque entendi que tinha outra parte da história pra estudar. Misturei minha vida com outras, levei tanta memória comigo que algumas delas acabaram caindo da mochila e ficaram nalgum lugar.

Ainda estou atravessando. Os caminhos são imprevisíveis, eles mudam de acordo com o que o seu coração precisa sentir. Um dia você está aqui, quando vê já está lá do outro lado e a roda viva do Chico vai carregando seu destino pra lá. Mesmo assim, a travessia não para de acontecer. Quando escuto a história de alguém me pergunto como seria se estivesse no seu lugar. Aí me lembro que já passei por algo parecido ou passei por alguém que já passou por algo similar. Que filme!

Não sei bem como terminar esse texto e essa vida. Não queria terminar esse texto nem essa vida. Quero continuar sentindo, vivendo, escrevendo, caminhando, fazendo minha travessia. Da vida o que mais quero é sempre poder passar, ver as coisas como elas são, imaginar como elas poderiam ser, pôr uma flor aqui ou um curry ali… e atravessar!

Tasca neles!

Hoje escrevo sobre um dos mais sublimes prazeres da minha vida: comer. Comer é algo tão importante pra mim que sou capaz de deixar de pegar um táxi pra pagar mais caro num jantar. Sim, eu adoro comer!

Bacalhau do Culto da Tasca

Como no máximo 10 pessoas sabiam, saí do Brasil para praticar minha já adquirida cidadania portuguesa AND realizar um sonho meu e da minha mãe: fazer um mestrado fora do Brasil.
Atualmente moro em Lisboa mas tirei essa semana pra conhecer Cascais e Sintra, cidades muito importantes na vida de um dos meus familiares.

Desde que cheguei a Portugal tenho observado o comportamento dos locais (portugueses e imigrantes que aqui estão há algum tempo) para tudo. As escolhas deles são minha referência, pois estou aqui para ficar.
Em relação à alimentação só tenho tido sucesso quando “imito” as escolhas dos meus amigos portugueses. Graças a eles aprendi muito sobre tascas e tabernas, elementos históricos que ainda sobrevivem e são literalmente caçados pelos turistas.

Uma taberna ou tasca é (atualmente) um restaurante simples. Em Portugal esses lugares vingaram até os anos 1980, tanto nas áreas rurais, onde eram o centro por excelência da vida social das pequenas localidades, como nas urbanas.
No Porto conheci a Taberna Santo Antônio e uma outra tão pequenina que nem sei se tinha nome! Nesses dois lugares fui atendida por portugueses super simpáticos e divertidos.

Em Lisboa conheci a Tasca do Fernandinho, aonde sentei à mesa com pessoas que nunca vi na vida por ser uma prática comum na casa tendo em vista o espaço pequeno e a grande rotatividade de clientes.
Em Sintra visitei duas tascas, ambas frequentadas maioritariamente por locais.
Hoje estou em Culto da Tasca e preciso dizer que estou perplexa com a comida. Não tenho outro adjetivo pra definir a delícia que foi meu almoço!

O ambiente de uma tasca é geralmente simples, podendo às vezes possuir mesas compartilhadas por diferentes clientes. A comida é mil vezes melhor que em restaurantes com expressiva rotatividade turística, além de acompanhar o custo de vida local. Além da comida ser ótima conheci portugueses divertidos, afetuosos e que me fizeram sentir em casa! 🙂

Vinho Branco da casa

O equivalente a uma tasca Portuguesa em Manaus seria:
A) Cantinho do peixe, no pq10
B) Gabinete de Jocca Loureiro, meu lugar favorito do mundo mundial
C) bar do galo carijó
E) lanche do careca lindo
D) skina dos sucos, etc

Basta imaginar aonde você pode ir pra comer um jaraqui frito com aquele guaraná regente ou baré estupidamente gelado, saindo pleno e feliz por ter almoçado lá sem gastar fortunas desnecessárias.

Quando meus amigos pedem dicas de alimentação durante viagens tento indicar lugares que são mais frequentados por locais que por turistas. O motivo é muito óbvio pra mim, mas enumero aqui pra você que não tem a prática de viajar constantemente:
1- comida pra turista é sempre mais cara
2- em vários restaurantes turísticos a equipe do estabelecimento não é nascida no local! São imigrantes precisando trabalhar e por isso não possuem aquele know-how passado de família pra família.
3- sempre gostei de viver a vida local, abrindo mão de facilidades e roteiros mais turísticos.
4- comida feita às pressas e em grande quantidade não é gostosa
5- viajar com qualidade é muito mais que tirar fotos em pontos turísticos e ficar hospedado nos melhores hotéis, é conhecer a região pela ótica do morador local.
6- pelo fato de serem dirigidos e frequentados por locais, nos restaurantes menores (em Portugal, as tascas) você pode obter ótimas informações sobre locais para conhecer, preços apropriados e dicas que site de turismo nenhum vai te dar.

Conta em Culto da Tasca (Sintra)

Sou suspeita pra falar de viagens “roots”. Ainda escreverei aqui sobre o Caminho francês de Santiago e minha experiência na Irlanda e no Uruguai, aonde morei e estudei.
Mas posso garantir que qualquer dica que eu der sobre viagens será incontestável, fidedigna e dificilmente decepcionante!
Viajar tem sido meu maior hobby e tem me tornado uma pessoa muito melhor (e mais gordinha hahahaha).

Beijos em todos vocês!

Seja gentil com as palavras, elas são maiores que você

Primeiramente, esse título não é meu. A frase costumava ser a assinatura de email de um amigo meu (na época meu namorado) em 2009. “Segundamente”, tenho orgulho por ter mantido esse contato, que pessoa DO BEM! Em terceiro lugar, resgatei essa informação durante uma das minhas tentativas de organizar emails antigos nas minhas lindas pastas (já falei aqui sobre minha idolatria por listas,mas também sou adepta à cultura das pastas!). Tão alinhada com uma conversa que tive mais cedo é esta frase que me senti inspirada para falar sobre o assunto. CUIDADO COM AS PALAVRAS! Ou, na linguagem da internet, “Meça suas palavras, parça“.

Lembro bem de duas sementes em mim plantadas sobre a importância de pensar antes de falar durante minha vida escolar pelas freiras do colégio aonde estudei. Uma delas era um conteúdo socrático, o Conto das Três Peneiras (que você pode ler clicando AQUI ). Essa primeira lição me marcou de um jeito tão forte que desde muito nova tive horror a fofoca. Horror mesmo, a ponto de me afastar inclusive de amigos de longa data. Já repensei equipes de trabalho, relacionamentos e lazer só pra não viver o desprazer de alguém começar a contar uma “ingênua” história sobre alguém que não estaria ali para esclarecer os fatos ou se defender. Também aprendi aí que certas informações podem não ter nada demais em serem compartilhadas mas… “pra quê mesmo eu preciso falar sobre algo”, ou “será que alguém precisa mesmo saber disso”?

A outra lição vinha de um dito bem conhecido, algo como Palavra é que nem pedra. Dessa metáfora entendi que com as coisas que eu dizia poderia construir castelos ou masmorras, poderia atira-las e nunca mais conseguir trazê-las de volta, poderia matar ou defender alguém de um monstro perverso. Nem sempre conseguimos pensar bem antes de falar, é quando as pedras rolam soltas de um lado para o outro e depois, cheios de feridas, tentamos nos recompor. Mas as pedras lançadas não voltam mais.

Com budismo e meditação tenho aprendido a valorizar cada tensão, ansiedade, medo, frustração e dúvida. São, muito além de desconfortáveis, oportunidades de praticar o que tanto se fala, lê e acredita. Só se doma leões visíveis. E é tocando esses momentos que tenho aprendido a medir, inclusive, minhas palavras. Longe de mim querer ser perfeita, mas acredite no que vou dizer: quanto mais humana você for com uma pessoa, mais humana ela será com você. Quanto mais tranquila for sua voz, mais tranquila ficará a outra voz. É medindo suas palavras que muitas vezes você ajudará alguém a medir as dela também. Mas, se não der pra ser cirúrgico, desabafe e fale o que precisa. Palavra vira veneno se não for bem digerida e excretada.

O que meu amigo dizia na frase era exatamente isso. O poder do que você fala é maior do que você. O insulto que você faz é maior do que o abraço que você pode ou não conseguir dar pra pedir desculpas. Pois o que você fala pode ter um peso que você conhece, mas o que o ouvinte processa pode ter um peso que nem mesmo você seria capaz de carregar, perdoar, esquecer…

Por outro lado, quantas vezes nos sentimos muito melhor depois de ouvir um “Obrigada” sincero e despretensioso? Depois de recebermos um elogio no meio do turbilhão da rotina, de ouvirmos que somos amados ao acordar ou antes de dormir?

As palavras que você usa são maiores que você, parça… Ainda que você se sinta no direito de usa-las, talvez você não esteja preparado nem seja capaz de arcar com as consequências do poder que elas têm. Por isso, escolha as mais leves. E se precisar usar as pesadas, use as leves antes pra avisar que usará as pesadas. Procure sinônimos. Permita-se eufemismos se for o caso. Respire, pense, tenha certeza do que vai dizer, do que quer ouvir.

Seja gentil com as palavras. Elas são maiores que você.

Nas horas improváveis, amor.

Certas pendências se resolvem sozinhas. Por mais que não queiramos enxergar, a vida nos põe grandes lentes de aumento e nos força a perceber numa flor ou numa nuvem  à toa aquela resposta que procuramos por tanto tempo.

Em primeiro lugar quero dizer que sinto saudades. Que sinto que sou capaz de amar mesmo depois de tantos desentendimentos e desacertos, ainda que em nossa história haja tanta desilusão carimbada em silêncio.

Em segundo lugar quero pedir que você continue me atormentando em sonhos, pesadelos, sombras e lembranças. Se for possível, por favor transforme-se em tatuagem e permaneça na alma que eu conseguir conservar depois de tanta vida jogada fora, depois de tanta atitude errante.

Não menos importante, quero em seguida te contar que te amo nas horas mais improváveis, que você surge como bálsamo nas intempéries e como um veneno em cada embalagem de margarina (chance de recomecar sem lembrar de você) que aparece na minha frente. É inevitável duvidar da felicidade depois de ter olhado nos seus olhos e em silêncio ter conversado de alma pra alma (naquelas vezes em que não tinha boca pra dizer o que a gente sentia).

Você despertou em mim uma força, uma coragem que me faz caminhar dento de tornados e desafiar gigantes, mas principalmente me ensinou a chorar de saudade. Você provou que posso ser humana ainda que tenha aprendido a conquistar meus sonhos tendo nervos de aço.

Hoje somos realidade e sonho, somos a fantasia do encontro num lugar que ainda não existe. Não sei aonde seu pensamento está, aonde você está e se você sabe de mim. Mas tenho certeza que algo te diz nesse momento que estou continuando minha vida pensando muito em você. Tão diferentes, nossas vidas me trouxeram até aqui.

Se saí ou sei voltei pra casa, não sei. Estou longe de tudo e você nunca esteve tão perto e tão presente.

Em cada sorriso e toque humano é você quem procuro, a cada esquina que eu dobro é com o seu olhar que eu queria cruzar.

É da sua voz que eu sinto falta.

Aonde estiver, saiba pela força do meu amor e pela firmeza do meu pensamento que nada foi em vão. Cada segundo vivido me fez capaz de reconhecer sua grandeza e minha fragilidade, sua graça e minha força. Sinto que sou mais sábia quando repito as últimas palavras que você falou pra mim.

Eu te amo, mãe. Se estou aqui é porque você sonhou com isso antes de mim.

Solidão, por Fernanda de Castro


Solidão.

A multidão em volta
e o pensamento à solta
como alado corcel.
E as ideias dispersas, em tropel,
como folhas ao vento
pétalas do Pensamento.

Solidão.
A angústia da Cidade,
a impossível procura da Unidade,
o clamor
do silêncio interior,
mais pungente, estridente,
que os bárbaros ruídos
que ferem, dilaceram
os nervos e os sentidos.

Fernanda de Castro, in “E Eu, Saudosa, Saudosa”

O Calabouço da Alma

Hoje vim falar de Depressão. Além disso quero contar como vejo o lugar que ela habita dentro de nós. A conversa é entre os que sabem quão escura uma sala pode ficar por mais luz que ela receba. Quando falo de sala quero conduzi-los metaforicamente ao cômodo de onde ela vem, aonde ela come, adormece e de onde ela surge com uma força tremenda que nos faz pensar que a morte pode ser a única solução. Respire fundo, vamos falar de Depressão.

A ideia de escrever sobre Depressão veio de um amigo que tem passado por essa experiência em seu convívio familiar. Confesso que já havia pensado em trazer o tema, mas exatamente por já ter experimentado bem de perto preferi não tocar no assunto/ferida. Quem já passou por uma crise e viveu seus pormenores (automutilação, vícios, tentativa de suicídio, baixo rendimento profissional e escolar, etc) já visitou o calabouço da sua alma ou foi sugado por ele, como acontece na maioria das vezes. Apesar de ter formação em Psicologia não quero falar em termos técnicos justamente por não serem tão compreensíveis. Falarei como ser humano mesmo, ok?

Ao contrário do que muita gente pensa, uma pessoa não “se entrega” à doença, ela lida com as melhores ferramentas que tem e nem sempre são suficientemente eficazes. Depressão acontece com seres humanos, não tem cor nem conta bancária que proteja ninguém. As crises seguem periodicidade própria do indivíduo, intensidade relativa, acontece diferente porque as pessoas são diferentes. A única coisa igual é que todos se sentem trancados no calabouço da alma.

Quando falo em calabouço quero que você imagine aquele cômodo característico de casarões e castelos. É o andar mais profundo, geralmente utilizado como prisão, armazém ou porão. Atualmente ainda possuímos esse espaço em nossas casas: aquele porão, aquele armário atrás da cozinha, o quartinho dos fundos ou mesmo aquele canto da garagem. Na alma/mente também temos esse lugar e é pra lá que vão os medos, traumas,  excessos, alguns sonhos, desejos, segredos, mentiras, amarguras, arrependimentos, etc. Seu calabouço pode estar organizado ou não, mas sempre terá esses conteúdos que são seus, e que você não quer/precisa ver pela casa no dia-a-dia. O que quero dizer é que assim como você não sabe se livrar facilmente de uma tralha há muito tempo em desuso na sua casa também não sabe como se livrar da tralha que está oculta na sua alma. Primeiro porque você nem sempre sabe o que tem no calabouço porque não o visita todos os dias. Segundo porque das vezes em que teve contato com esses conteúdos ou se sentiu muito fraco pra lidar com ele e joga-los fora ou se apegou porque de alguma forma achou que um dia poderia ser necessário e achou melhor deixar lá mesmo.

Tralhas no calabouço são alimento pra Depressão. Não estou dizendo que o segredo pra cura dessa condição é limpar ou tocar fogo no calabouço, até porque lá é também um local seguro pra algumas memórias importantes. Mas a forma como lidamos com esse compartimento da alma vai orientar as crises que podemos vir a ter.

Quando o calabouço da alma está em crise, tudo é escuridão. Somos feios, sem importância, tudo é dor e sofrimento. Por favor, nada de culpa. Depressão não é castigo, não é karma, é uma condição. Acredito que mesmo depois de uma crise terminar essa condição se torna uma constante na sua vida e é você quem vai determinar o peso que ela vai ter. Porque assim como ninguém passa pelo mesmo rio duas vezes por ser outra pessoa na segunda vez, quem supera uma crise nunca mais é o mesmo. E digo isso de forma positiva, porque na superação de uma crise de Depressão encontramos também novos sentidos: sentido pra própria vida, pro próprio sofrimento, pra tudo. Depois de um longo deserto aprendemos a valorizar cada gota de chuva que cai do céu.

Aprendi como ser humano que é normal ficar triste, sentir-se frágil diante de grandes problemas, incapaz diante de desafios e sonhos. É exatamente esse sentimento que pode nos impulsionar além do desejo de solucionar essas questões. A partir do momento em que preferimos ficar em casa, no quarto, dormindo pra não ter que enfrentar nossos problemas e evitar toda forma de convívio social por sentir vergonha dessa fraqueza é porque algo suga toda nossa essência. E passo a passo, arranjando desculpas e mentindo pra nós mesmos chegamos ao calabouço da alma. Nunca saberemos se caminhamos até ele ou se fomos sugados sem perceber.

Não tenho uma receita pra sair desse lugar. Não tenho um mantra poderoso pra não deixar que aquela porta se abra. Mas aprendi que quanto mais eu for verdadeira, racional, carinhosa e paciente com minhas tralhas, menos escuro e sujo fica meu calabouço. E cada vez que preciso descer até lá é menos doloroso, às vezes é até normal: desço, acendo uma lanterna, pego alguma coisa numa caixa e saio. Também jogo fora o que não é mais útil sempre que posso, assim ele fica menos amontoado e diminui ácaro e cupim.

Num mundo aonde “precisamos” ser perfeitos seres saídos de uma foto do Instagram fica muito difícil lidar com calabouços e tralhas. Acredito que o alarmante número de incidências de Depressão é também consequência de uma enorme incapacidade de lidar com a própria essência humana. Somos ensinados e cobrados para sermos qualquer coisa, menos nós mesmos. E quando não vemos sentido nisso ou não conseguimos bater a meta da vida de mentira, o calabouço chama. Então, se você também já passou por uma crise depressiva, parabéns. Você teve a chance de dar um significado diferente à sua vida. Espero que você possa, assim como muitas pessoas, chorar e sorrir.

Emoções são dádivas. Saiba aproveita-las e ao invés de controla-las, prepare-se para não ser controlado por elas.

Um beijo e um abraço bem apertado em todos os queridos “blues”.

Namastê

Para curar um Coração Partido

Hoje pela manhã vi uma postagem que despertou minha solidariedade, ainda que por um motivo “bobo”: um coração apaixonado e partido. Bobo porque o amor é bobo quando está totalmente entregue, sem domínio de si e sem noção de limites para sofrer. Lembrei de todas as vezes em que meu coração foi ao chão, partiu-se em pedaços e depois tornou-se meu tesouro.

Para curar um coração partido é necessário um copo, uma garrafa ou qualquer coisa que te permita se entregar ao sofrimento no momento mais importante da dor: quando ela vem junto com uma verdade que você daria a própria vida pra ser mentira. O dom do álcool é de baixar nossa guarda e raciocínio, então a gente sofre de verdade, fala o que tem pra falar, chora o que tem pra chorar. Algumas pessoas precisam de somente de uma garrafa, outras de um senhor porre. Há ainda quem se entregue a uma fase inteira de sofrimento regado a álcool e que ingenuamente tenta disfarçar cantando refrões como “Tô solteiro em Salvador”, mas quem está bem percebe quem está mal, e é por isso que essa pessoa sempre volta pra casa sozinha ou acorda insatisfeita na manhã seguinte.

Coração partido que se preze tem uma playlist pronta pra escutar quando alguém joga a toalha. Se você não tem, recomendo essa aqui (não é minha mas acho que é do gosto da grande maioria). Não tem nada melhor que chorar 2 horas seguidas ouvindo a mesma música programada pra repetir até o mundo acabar. Poderia citar as minhas aqui.. Mas aí seria revelar demais da minha intimidade e o Travessias não é pra isso! Mas libero aqui alguma coisa que já me ajudou a botar a tristeza pra fora:

Still Loving You- SCORPIONS , 
Hello- ADELE, 
My Immortal - EVANESCENCEEqualize - Pitty, 
Everybody Hurts - REM, 
Nothing Compares 2U - Sinéad O'Connor, (essa é forte!)
Beware of Darkness - George Harisson, 
Fields of Gold - Eva Cassidy,
etc etc etc

Um coração partido precisa de amigos de verdade. Aqui cito como exemplo uma amiga que estava super bem mas me acompanhou em cada degrau da dolorosa descida ao poço que vivi uma vez. Amigos de verdade reservam um espaço no coração deles pra sentir com você o que quer que você esteja sentindo. Então não custa nada ligar pra eles, visita-los ou aceitar os convites mais sem graça que eles possam fazer a você nessa fase: eles podem ser aquela corda que você precisa pra sair dessa, meu chapa.

Uma vez em cacos, um coração partido precisa de cola, tempo e carinho. Não deu certo? Paciência. Se você perdeu um grande amor, saiba que você não perdeu a capacidade de amar novamente, porque seu coração pode estar aos pedaços, mas ele ainda está aí dentro de você! Arregace as mangas, mãos à obra. Vamos colar os pedacinhos.

Quando um amor se vai, há que se fazer uma faxina e colocar numa caixa tudo o que ele esqueceu de levar consigo e dar um jeito de tirar de perto de você. O sofrimento não vai passar ao final do dia, mas uma faxina na casa, na vida e na alma com certeza vai te permitir respirar um ar mais limpo, livre da escuridão que o amor que foi embora deixou na sua vida. Vai amenizar a dor, eu prometo. E se você estiver precisando perder peso, olhe-se no espelho. Bingo, mais magra! Hahahah sim, eu sempre vi isso como algo bom quando esse tipo de coisa me acontece e aproveito pra usar todas as roupas que os quilinhos a mais não me permitiam. Vista sua roupa preferida e vá dar uma volta, vá comprar pão, pagar uma conta. Apenas vá viver um pouco(mais leve depois da faxina).

Coração partido tem boa memória. Então, se você automaticamente vai se lembrar daquela pessoa quase sempre (sem eufemismo sempre no intervalo entre um pensamento e outro), evite redes sociais. Abra mão das desculpas que podem surgir pra você ver o perfil dele (a), do amigo dela (e), apenas PARE. O que acontece com quem está tentando parar de fumar toda vez que vê um cigarro? Pois não queremos que isso aconteça com você. Então respira fundo e apaga esses aplicativos. SE quiser, ponha uma meta. No máximo você vai ficar até menos dependente do seu celular e de memórias que não te farão bem agora.

Filmes, livros, amigos, Tv, tudo o que puder preencher sua cabeça de forma a te fazer pensar em outras coisas, CONSUMA. Mas seja prudente, jovem. Lembra daquele curso de inglês que você queria fazer e não tinha tempo? E a academia, era no mês passado que você ia voltar, não era? Cadê aquele seu amigo que você não visita há tanto tempo, e aquela cidade que você sempre quis conhecer … Por que não AGORA? O presente é tudo o que você tem, então use-o a seu favor. Encha esse coração com novos sonhos, desejos SEUS, semeie interesse e amor por hábitos, causas, plantas, pela sua vida. Que tal voltar a viver um pouco?

FAÇA LISTAS! Senhores, eu AMO listas. Todas as minhas listas tem um propósito e nunca me deixaram na mão. Por isso considero altamente recomendável, principalmente AGORA:

  1. Lugares que eu quero conhecer
  2. Comidas que ainda não provei
  3. Livros que quero ler
  4. Filmes que preciso assistir
  5. Pessoas de quem preciso pedir desculpas
  6. Pendências na faculdade
  7. Pendências no trabalho
  8. Pendências em casa
  9. Hábitos que quero ter
  10. Hábitos que quero abandonar 
  11. Listas listas LISTAAAAASSSSSSS (perdão, sempre me empolgo com listas).

Talvez pare de doer no mês que vem, talvez só em 2019. Mas o que vai fazer diferença é o que você vai estar fazendo com sua vida enquanto seu coração se recupera. Continuar sofrendo e alimentando essa dor, transformando essa perda numa causa pro resto da sua vida não é saudável. Simplesmente encare o sofrimento, mas não se entregue. Se você tem alguma crença, abrace-a. Se você é como eu e gosta de ficar num monastério imaginário em silêncio total, dane-se o mundo, tranque a porta. Mas não se permita um coração remendado, não aceite sobras nem fantasmas na sua vida. Essa é a única chance que você tem pra viver tudo o que puder. Aproveite cada segundo, seja ele de dor ou de alegria.

No fim as coisas se ajeitam. Todo término é também o encerramento de um ciclo, e todo ciclo traz renovação e continuidade. Não deu certo? Paciência. Mas você viveu uma história que te tornou mais forte e experiente, mais consciente da sua capacidade de ferir e ser ferido, de amar e ser amado. Podem bater o pé e dizer que só dá pra amar uma vez na vida. Eu prefiro dizer que sua única obrigação nessa vida é aprender a SE AMAR. Todo o resto vem no combo!

Namastê!

 

♫ When We Were Young – Adele

Adele tem o dom de falar dos sentimentos mais complicados e controversos que somos capazes de experimentar em nossas vidas. Por isso escolhi sua voz e essa canção que é LINDA.

Letra em Português aqui.

Everybody loves the things you do from the way you talk to the way you move
Everybody here is watching you ‘cause you feel like home you’re like a dream come true
But if by chance you’re here alone can I have a moment before I go?
‘Cause I’ve been by myself all night long hoping you’re someone I used to know
You look like a movie, you sound like a song
My God, this reminds me of when we were young
Let me photograph you in this light in case it is the last time
That we might be exactly like we were before we realized
We were sad of getting old
It made us restless
It was just like a movie, it was just like a song
I was so scared to face my fears ‘cause nobody told me that you’d be here
And I swear you moved overseas, that’s what you said when you left me
You still look like a movie, you still sound like a song
My God, this reminds me of when we were young
Let me photograph you in this light in case it is the last time
That we might be exactly like we were before we realized
We were sad of getting old
It made us restless
It was just like a movie, it was just like a song

When we were young…

It’s hard to admit that
Everything just takes me back
To when you were there
To when you were there
And a part of me keeps holding on
Just in case it hasn’t gone
I guess I still care
Do you still care?
Compositores: Adele Laurie Blue Adkins / Tobias Macdonald Jesso
Letra de When We Were Young © Universal Music Publishing Group