Do Porto de Lenha a Portuscale

Há algum tempo venho postergando esse tema por ainda não sentir segurança suficiente de trazê-lo aqui. Mas passados meus 3 primeiros meses no meu novo lar, acredito que já tenho argumentos suficientes para falar da escolha que fiz de vir morar em Portugal.

Aqui os homens não mexem com as mulheres nas ruas. Não há cantada de pedreiro, não há puxão de cabelo nas boates, muito menos mão boba no meio da multidão. Tanto em Lisboa quanto no Porto posso ir e vir a qualquer hora do dia (inclusive depois das 00h) e absolutamente nenhum homem me fez sentir um pedaço de carne, como é muito comum no Brasil. Não estou dizendo que isso não acontece em Portugal, mas pelo menos comigo não aconteceu e nenhuma das minhas amigas daqui tem alguma história de assédio para contar.

Aqui as pessoas que moram nos centros ou nas freguesias mais próximas utilizam com bastante frequência o transporte urbano (metrô e ônibus). Aliás, o metrô do Porto é a coisa mais linda que eu já vi na minha vida! Diferente do de Lisboa e do de São Paulo, por exemplo, NÃO HÁ CATRACAS! Finalmente eu pude ver um sistema de transporte que oferece o melhor serviço e conta com a colaboração e boa conduta das pessoas. Nós apenas validamos nosso cartão num leitor digital e seguimos em direção à plataforma de embarque. Claro que nas estações aonde pode-se fazer baldeação há muito movimento e portanto, seguranças de olho. Não estou dizendo que ninguém trapaceia, mas posso afirmar por observação que a maioria usa o serviço com respeito e honestidade, o que faz ele ser assim tão LINDO! Os ônibus não tem cobradores e circulam em faixas específicas na maior parte da cidade. Mesmo que o embarque de passageiros demore um pouco mais porque o motorista acaba tendo que dar o troco para as pessoas que pagam a passagem na hora (podemos usar o mesmo cartão – que é recarregável – do metrô nos ônibus), mas absolutamente ninguém xinga o motorista ou a senhora sua mãe.

O famoso BBB pode ser visto todos os dias quando o assunto é comida. Lembrando que estou falando do ponto de vista de moradora, não de turista! Já citei em outro texto aqui do Travessias a cultura de tascas. Pois além de menus deliciosos a preços baixíssimos temos acesso a supermercados low cost estrangeiros e locais, ambos com muita variedade e promoções (a carne aqui é mais cara que no Brasil, mas quando está próximo da data de validade tem desconto). Há também muitas quitandas e vendinhas espalhadas pela cidade, eu diria até que tem uma a cada esquina; não precisamos ir pra muito longe para comprar bons alimentos com ótimos preços.

Cultura de reciclagem e responsabilidade ambiental. Queridos, o hábito dos portugueses que tenho conhecido é um tapa na nossa cara… Além de separar todo o lixo de casa (em papel, plástico, vidro, metal e biológico) eles também usam o saco de lixo adequado e têm sua sacolinha de supermercado pessoal. Lembro do nervosismo que me dava em Manaus quando  colocavam uma sacola dentro da outra na hora de embalar as compras e de quando via outras clientes pedindo mais sacolas pois seriam usadas para pôr o lixo de casa. SENHOR, TEM PIEDADE! Infelizmente o pessoal aqui está muito mais avançado em relação à consciência ambiental. Tem exceções? Lógico que sim. Mas a grande maioria se importa muito com o descarte de lixo e uso de plástico.

Estou segura aonde quer que eu esteja (e a qualquer hora). É impressionante como as pessoas aqui se sentem seguras também. Isso inclui andar à noite sozinho (a) nas ruas, nos ônibus, usar o celular – USAR O CELULAR A NOITE SOZINHA NA RUA, etc. Há policiamento e com certeza há crime também, mas eu acredito que a pessoa precisa estar com muito azar pra ser assaltada aqui. Lógico que há áreas com maior risco de incidente de crime, mas é algo tão raro que a gente quase não fica sabendo quando acontece. Só de poder ir ao supermercado a pé à noite e voltar com meus dois rins intactos, celular na bolsa e compras na sacola sem nenhum arranhão sinto-me a pessoa mais abençoada do planeta.

Poderia me extender citando outras belas particularidades, mas no momento é o que eu gostaria de expressar. Meu lado brasileiro é amazonense de corpo e alma e morre de saudades do jaraqui com farinha d’água, do açaí de Codajás. Sinto saudades de Maués, da minha família, das minhas plantas que só existem aí, de banho de rio, de pôr-do-sol na beira do rio…

Mas tenho sonhos mais urgentes que minhas saudades. Enquanto vou realizando uma parte deles daqui de Portugal, vou guardando a saudade da minha terra e a esperança de que um dia meus descendentes possam viver felizes nela. Não sou pessimista, sou realista. Um lugar tão incrível como o Amazonas merece um futuro decente e infelizmente está muito longe disso. Força aos que estão aí e comam muito peixe por mim!

A menina e o silêncio

Ela odiava a voz das pessoas: podendo fazer silêncio, insistiam em falar pelos cotovelos. Se não eram conversas fúteis sobre os signos, davam gargalhadas forçadas (que ela sabia serem máscaras de proteção conta os monstros Carêncio e Solhudão).

Se havia instrumentos musicais, por que esses humanos insistiam em contar lorotas, fofocas e vantagens? Que som poderia ser mais poderoso e relaxante que uma tempestade tropical?

Não sentia necessidade de falar com as pessoas todos os dias e às vezes custava-lhe a paz estar entre amigos (frequentemente questionava-se sobre amizades que lhe despertavam sensações desconfortáveis nos primeiros 5 minutos de conversa).

Sentia que o universo do som era degredado a cada espirro, a cada ronco e a cada peido. Além disso machucava-lhe o âmago aquilo que aos outros parecia banal, mas era mais grave que o som de um trovão: o insulto.

Gritos de raiva e até de alegria faziam seus tímpanos arderem em chamas. Conversas sobre trabalho e brigas de família que subscreviam diálogos de insatisfação matrimonial lhe causavam náuseas e por pouco não avançou agressivamente como um bicho selvagem num humano que opinava sobre qualquer tema relevante munido do mantra “isso não é coisa de mulher direita”.

Falando em direita, a menina adorava placas de trânsito por serem uma linguagem muda e cheia de conteúdo. “Vire à esquerda”, “atenção”, “crianças no perímetro” e outras informações tão importantes para a locomoção de uma comunidade compartilhadas sem qualquer palavra falada, que alívio!

Recentemente conheceu um menino que assim como a maioria dos humanos falava duas línguas: Verdaderês e Mentirês. A segunda ele aprendera muito bem, mas por ela nunca ter se sentido à vontade com esse idioma era difícil ouvi-lo em Mentirês e traduzir mentalmente pro Verdaderês. Ele precisava de alguém para conversar e praticar o Verdaderês, visto que fora cruelmente repreendido pela professora por ter falado nesta língua com pessoas que não estavam capacitadas para ouvi-la. Além disso estava num recesso público em que precisava interagir com o máximo de humanos possíveis para despistar o monstro Carêncio, que lhe perseguia como punição por ter usado a língua errada com a pessoa errada. É desrespeitoso na sociedade deles falar uma língua que não seria entendida ou bem recebida por um dos interlocutores da conversa – gera até rompimento de laços humanos! Dele ela não tinha raiva, sentia dó. Via nele um potencial enorme para silenciar e produzir grandes obras primas(ele era aprendiz de escultor).

Diversas vezes a menina fugiu de casa e se escondeu num monastério abandonado aonde se ouvia pássaros, folhas e vento. Não tinha certeza se Deus existia, mas se existisse ele com certeza morava ali, no silêncio que o passado deixou.

A menina não tinha medo do silêncio dos humanos, nem se incomodava quando ele acontecia. Quando era quebrado por ela ou por alguém, sentia como se tivesse acabado de acordar de um sono renovador. Ela deitava os pensamentos na ausência da voz e deixava que tudo ao seu redor lhe abraçasse e lhe acariciasse a alma: fosse imagem, fosse som, fosse pensamento.

O sino da igreja era um pouco desconfortável de se ouvir, não pelo som ou volume, mas porque mergulhava a menina em lembranças que ela não guardara por querer. Mas mesmo assim permitia que o som vibrasse dentro dela; viajava em pensamento para tão longe que nenhum humano a alcançaria. Certas lembranças são Torres sem porta, você nunca sabe como foi parar lá e tampouco consegue sair.

Quando observava árvores imaginava o que se perguntavam enquanto o vento esfregava suas folhas umas nas outras: seriam questões de gênero ou de cor? Estariam elas discutindo minorias?

Depois de várias crises de otite ela começou a se isolar com mais frequência, recomendação médica: “Diagnóstico: a menina tem intolerância acústica. Prognóstico: a menina deve habitar espaços com pouco barulho. Em paralelo fazer terapia.”

Ao contrário do que o médico entendia por barulho, ela classificava toda sorte de som como apenas som, até o da britadeira. Barulho é o que os humanos faziam, desorganizando tudo com suas falas egoístas, totalitárias, fúteis e cheias de desfarces (eufemismos e convenções sociais). Terapia ela já fazia, mas o médico não ouviu quando ela falou, talvez sua voz estivesse muito baixa naquele dia.

Quando pensava em futuro ela ouvia os passos do monstro Medo no corredor de casa. Quando pensava em cobras, aranhas e sapos também. O futuro de uma menina como ela parecia muito infeliz, era como se no futuro da humanidade não houvesse espaço para a vida que ela queria para si. Pessoa não bem-vinda, que não se encaixa. Como não sentir medo de ser uma mulher que adoraria ter filhos mas que não conseguiria ouvi-los chorar e chamar pela mamãe? Como participar de reuniões, ir ao banco e ao médico, como atender ligações dos familiares distantes e dizer que estava tudo bem? Era morrer ou transmutar a realidade para o que ela entendia como tolerável e admirável.

Ouviu falar de uma ponte e do rio que corria ali. Quem passasse por ela 7 vezes e em seguida mergulhasse as pernas até os joelhos nas águas do Tâmisa podia fazer um pedido: prontamente algum Deus mestiço atenderia. Fez as malas com tudo o que considerava importante e arrumou o pensamento também – precisava das palavras e do volume de voz certo para ter seu pedido atendido.

Andou muito. Tomou cafés e vinhos, banhos de rio e de mar. Comeu doces, peixes e pães. Viu gente, bicho e planta. Chorou e cantou, sorriu sem perceber. A menina viveu tanto que esqueceu do que procurava, mas nunca se conformou com a fala dos homens. Num verão qualquer chegou a uma cidadezinha e viu a ponte com o tal rio. Lembrou do que quis com todas as forças. Parou o que estava fazendo e como quem conversa com Deus, perguntou a todas as meninas que já tinha sido “se estavam prontas pra atravessar a ponte com ela, se ainda queriam o silêncio dos homens e se estavam dispostas a deixar o conforto da conformação para alcançar o sonhado paraíso sônico.

Elas deram as mãos (não disseram nada) e sem que a menina pudesse reagir, dispuseram-se todas em fileira, de frente pra um dos lados da ponte. Não ouvia nem entendia nada. Pavor. O que querem elas? Atordoada por descobrir justamente agora que não tinha controle algum sobre seu passado e que ele lhe impulsionava pra o futuro, fechou os olhos e inspirou todo o ar que foi capaz de recolher.

Dias e noites passaram. Foi primavera e sem que os humanos percebessem foi verão. Teve guerra, diversão e paz.

Um dia veio um anjo e tirou de todos os homens o dom da voz. Foi feito um silêncio inesperado e aterrorizante.  Perdidos, eles ensaiavam sinais nunca usados, pareciam mais desesperados que vivos.

 

De algum lugar a menina podia enfim escutar a água batendo na pedra, a madeira da cadeira rangendo com o peso da velhota exausta, a nuvem de pássaros que voava em arabescos como se seguissem um mapa ancestral rumo ao paraíso dela. Assim como eles, ela já sabia aonde ficava esse lugar: na imaginação.

Abriu os olhos, pediu a conta e deixando alguns euros na borda da mesa sorriu em agradecimento à jovem senhora que lhe atendera com indiscutível gentileza. Tinha um concerto para assistir, precisava correr para não se atrasar. Ao menos ali todos ficariam calados e somente com palmas falariam a verdades: “parabéns”, “obrigado” e “continuem, vocês são brilhantes”.

Foi embora ansiosa para ouvir música e silêncio.

Tasca neles!

Hoje escrevo sobre um dos mais sublimes prazeres da minha vida: comer. Comer é algo tão importante pra mim que sou capaz de deixar de pegar um táxi pra pagar mais caro num jantar. Sim, eu adoro comer!

Bacalhau do Culto da Tasca

Como no máximo 10 pessoas sabiam, saí do Brasil para praticar minha já adquirida cidadania portuguesa AND realizar um sonho meu e da minha mãe: fazer um mestrado fora do Brasil.
Atualmente moro em Lisboa mas tirei essa semana pra conhecer Cascais e Sintra, cidades muito importantes na vida de um dos meus familiares.

Desde que cheguei a Portugal tenho observado o comportamento dos locais (portugueses e imigrantes que aqui estão há algum tempo) para tudo. As escolhas deles são minha referência, pois estou aqui para ficar.
Em relação à alimentação só tenho tido sucesso quando “imito” as escolhas dos meus amigos portugueses. Graças a eles aprendi muito sobre tascas e tabernas, elementos históricos que ainda sobrevivem e são literalmente caçados pelos turistas.

Uma taberna ou tasca é (atualmente) um restaurante simples. Em Portugal esses lugares vingaram até os anos 1980, tanto nas áreas rurais, onde eram o centro por excelência da vida social das pequenas localidades, como nas urbanas.
No Porto conheci a Taberna Santo Antônio e uma outra tão pequenina que nem sei se tinha nome! Nesses dois lugares fui atendida por portugueses super simpáticos e divertidos.

Em Lisboa conheci a Tasca do Fernandinho, aonde sentei à mesa com pessoas que nunca vi na vida por ser uma prática comum na casa tendo em vista o espaço pequeno e a grande rotatividade de clientes.
Em Sintra visitei duas tascas, ambas frequentadas maioritariamente por locais.
Hoje estou em Culto da Tasca e preciso dizer que estou perplexa com a comida. Não tenho outro adjetivo pra definir a delícia que foi meu almoço!

O ambiente de uma tasca é geralmente simples, podendo às vezes possuir mesas compartilhadas por diferentes clientes. A comida é mil vezes melhor que em restaurantes com expressiva rotatividade turística, além de acompanhar o custo de vida local. Além da comida ser ótima conheci portugueses divertidos, afetuosos e que me fizeram sentir em casa! 🙂

Vinho Branco da casa

O equivalente a uma tasca Portuguesa em Manaus seria:
A) Cantinho do peixe, no pq10
B) Gabinete de Jocca Loureiro, meu lugar favorito do mundo mundial
C) bar do galo carijó
E) lanche do careca lindo
D) skina dos sucos, etc

Basta imaginar aonde você pode ir pra comer um jaraqui frito com aquele guaraná regente ou baré estupidamente gelado, saindo pleno e feliz por ter almoçado lá sem gastar fortunas desnecessárias.

Quando meus amigos pedem dicas de alimentação durante viagens tento indicar lugares que são mais frequentados por locais que por turistas. O motivo é muito óbvio pra mim, mas enumero aqui pra você que não tem a prática de viajar constantemente:
1- comida pra turista é sempre mais cara
2- em vários restaurantes turísticos a equipe do estabelecimento não é nascida no local! São imigrantes precisando trabalhar e por isso não possuem aquele know-how passado de família pra família.
3- sempre gostei de viver a vida local, abrindo mão de facilidades e roteiros mais turísticos.
4- comida feita às pressas e em grande quantidade não é gostosa
5- viajar com qualidade é muito mais que tirar fotos em pontos turísticos e ficar hospedado nos melhores hotéis, é conhecer a região pela ótica do morador local.
6- pelo fato de serem dirigidos e frequentados por locais, nos restaurantes menores (em Portugal, as tascas) você pode obter ótimas informações sobre locais para conhecer, preços apropriados e dicas que site de turismo nenhum vai te dar.

Conta em Culto da Tasca (Sintra)

Sou suspeita pra falar de viagens “roots”. Ainda escreverei aqui sobre o Caminho francês de Santiago e minha experiência na Irlanda e no Uruguai, aonde morei e estudei.
Mas posso garantir que qualquer dica que eu der sobre viagens será incontestável, fidedigna e dificilmente decepcionante!
Viajar tem sido meu maior hobby e tem me tornado uma pessoa muito melhor (e mais gordinha hahahaha).

Beijos em todos vocês!

Precisamos falar sobre empatia

Sujeito de Sorte – Belchior

“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro

Hoje tive a alegria de conhecer a história de mais gente que já trilhou meus caminhos de agora. A melhor parte disso foi saber que se alguém conseguiu passar pelos momentos difíceis e hoje está na plenitude, eu também posso. Nós, brasileiros (acredito eu) já temos na nossa inscrição genética esse dom de tolerar/superar adversidades geográficas/culturais/emocionais. O tal do complexo de de vira-lata tem seu lado bom, pois nos faz acreditar num ingrediente que nos diferencia positivamente justamente por nos “depreciar” na escalada da classificação cultural humana.

Sem dizer muito mas já contando um pouco, não é fácil ser imigrante. Não é fácil estar longe de casa, da família e dos amigos. Não é agradável trocar a certeza de um futuro relativamente previsível pela possibilidade de uma chance de paz e qualidade de vida. Não é, nunca será indolor abrir mão de um grande amor. A coragem tem um preço. É nesse momento da minha vida que tenho sentido empatia em relação a um tema que nunca foi um problema na minha vida: preconceito. Perdão, não gostaria de me alongar sobre isso, mas garanto a vocês que nada como o Turismo e suas vertentes pra gente minimizar drasticamente várias formas de preconceitos.

Não quero desmotivar ninguém. Por mim, todo ser humano teria a obrigação de correr atrás dos seus sonhos e desejos. Dificuldade a gente encontra todo dia, seja pra acordar ou pra entender o que a população inteira de um país está falando pra você.

Nobres leitores, hoje pode ter sido um dia DAQUELES. Mas estejam certos de que o Universo/Deus/o que quer que você acredite ser a razão da sua existência tem bons motivos pra nos testar, desafiar e lapidar.

Hoje aprendi a valorizar as pessoas que já estiveram no meu lugar. Que empatia a gente desenvolve todo dia, basta enxergar o outro alguém que a gente já foi, quem a gente também é e quem gostaríamos de ser um dia.

Cuidado com minhas malas (sonhos)!

Há uma frase do Drummond que diz “Cuidado por onde andas, que é sobre os meus sonhos que caminhas”. Ela me veio à memória enquanto deixava minhas malas num locker aqui no Porto. Durante a vinda do Brasil minha bagagem passou por 2 companhias aéreas e 3 aeronaves. Eram novas, usei duas vezes cada uma. Pensei na frase do Drummond porque era o que eu deveria ter dito quando as despachei ainda em Manaus: “Cuidado com as minhas malas, que são meus sonhos que despachas”. Também deveria ter dito em cada conexão, em todos os idiomas possíveis, mas quem tem conhece  a experiência de despachar grandes bagagens sabe que esse tipo de pedido seria em vão. Assim como na pressa da vida, na logística aérea a eficácia é sempre mais importante que qualquer subjetividade. Nem preciso dizer que cheguei a Portugal com malas muito maltratadas, preciso?

Quantas vezes jogamos nossos próprios sonhos de qualquer jeito pelo chão, somos descuidados com os sonhos daqueles que precisam cruzar nosso caminho pra realizá-los ou simplesmente debochamos dos famosos ‘sonhos impossíveis’ ? Quem é você nos contos de fada da vida, o gênio da lâmpada ou o inquisitor sem alma?

Gosto de pensar que carrego sonhos quando começa a ficar difícil carregar minha bagagem durante alguma mudança. Isso me ajuda a não desistir ou deixar pra depois. Na vida a gente tem essa mania feia de postergar ou abrir mão do que é mais difícil, pesado, doloroso. Pois quanto maior o sonho ou desafio, mais energia e dedicação serão cobrados de você! Pense nisso na próxima vez em que estiver com preguiça de estudar ou ir pra academia. Até mesmo de fazer aquela super faxina em casa ou juntar dinheiro.

Sonhar pode parecer mais fácil que realizar, mas essas ações dependem uma da outra pra existir (você realiza algo que imaginou/ sonhou/ planejou e sonha algo que gostaria de realizar/ executar). Então chega de pensar que sonhos são coisa da sua cabeça e que a vida não passa de uma repetição dos passos alheios. E se alguém ousar te convencer do contrário, finja que não é com você e siga em frente.

Ah, antes que eu me esqueça: às vezes a gente senta e chora porque os agentes do destino nem sempre ajudam. Mas é preciso lembrar (principalmente nessas horas) que foi você quem fez sua mala. Foi você quem sonhou seus sonhos, foi você quem decidiu realizá-los. Eu diria ainda que é preciso ser realista pra realizar os próprios sonhos, por mais paradoxal que seja a idéia. O ideal é não reclamar do peso da mala, mas é essencial jamais desistir de carregá-la até aonde ela deve chegar.

Sonhe. Quando acordar, realize!

(E se tudo der errado, no mínimo você será mais forte)

Mudanças nossas de cada dia

Minha prática torta do budismo tem me revelado um mundo que sempre esteve aí, mas era sutil demais pra ser percebido. Assim como aconteceu com essa planta, tenho morrido várias vezes, perdido folhas e pétalas; a razão é minha força de transformação. Hoje entendo o motivo de sempre estar aberta a mudanças e de nunca ter tido medo de tentar o difícil, até quando parecia impossível.

Junto com a aceitação tenho aprendido a morrer sem dor, a decidir com a razão e a deixar ir tudo o que já não faz mais sentido. A ansiedade vai embora quando vejo essas folhas novas brotando numa planta que vi secar. A certeza de que aceitar mudanças é necessário me afasta da culpa que um dia senti por ser assim desbravadora, aparentemente inconsequente.

Aqui quero compartilhar minha verdade, coisa que nos dias de hoje nem sempre a gente pode fazer. Desejo que você, leitor (a), possa passar por mudanças muito boas, mesmo que um pouco turbulentas. Que depois delas você desfrute das flores e frutos e que um dia você perca o medo do que ainda está por vir.

Apesar de cíclica a Natureza precisa ser também misteriosa, só assim temos o privilégio da surpresa e do encanto. Se você achar necessário, ande no escuro, mude de emprego, abra mão do que não te faz melhor do que você já é. Abra as portas e janelas e deixe o sol entrar! Namastê.