Carta à Paternidade: Pai é aquele que ama

Passado o domingo do pai, venho falar de uma experiência repleta de chegadas e partidas, de crescimento e reencontros, de amor e de perdão.

Ao invés de presentes, declarações e abraços decidi escrever uma carta e endereçar à você, Paternidade. Como toda pessoa, você é diversa em si mesma e foi quando te entendi, passei a te amar como filha.

Pela sua perseverança em sonhar, fazer planos e vibrar cada vitória como uma conquista olímpica; por imaginar que foi difícil pra você conter as lágrimas ao som do primeiro “papai” e como você se encheu de luz ao testemunhar os primeiros passsos de um ser que mesmo tão pequeno te fez sentir um amor muito maior que você, te envio um grande abraço.

Sabendo que você silencia, preserva a si e à cria, que engole o choro e o sofrimento a seco, que disfarça a tristeza e esconde o medo e, como quem não tem opção, atravessa um incêndio sem um gemido de dor sequer: aqui vai o meu abraço.

Sei que você, Paternidade,  também se confunde, se perde, se culpa e se arrepende. Não é fácil ser humano quando a vida e as pessoas nos tratam como animais. Acredite, tudo que te aconteceu até aqui te transformou numa paternidade mais sábia, amada e real. A maioria das pessoas não sabe que a paternidade também dói. Receba meu abraço, dessa vez mais demorado. E se precisar, pode chorar um pouco. Vai ficar tudo bem.

Por te admirar na sua história, na sua ausência justificada, pelo temor de te decepcionar e perder o seu amor e por sonhar em ter um dia uma pessoa como você na minha história, te peço um abraço que acalme minha ansiedade e meu medo. Céus, como te admiro e como fico sem chão quando imagino meu mundo sem sua existência!

Se a vida te deu esse papel muito cedo ou tarde demais, não importa.

Se ninguém te ensinou o que fazer com toda essa responsabilidade e por isso você às vezes não sabe se está agindo da maneira certa, não tem problema.

Se tudo isso aconteceu sem que você quisesse ou soubesse e por isso no começo você não agiu como gostaria (mas já sabe o que poderia ter feito), está tudo bem.

Se quem te deu essa missão foi a Natureza, a Ciência, a vida ou algum coração órfão, a sua importância não muda.

Muito além do dia de ontem e dos que te transformaram em quem você é hoje, mais que a responsabilidade de salvar e ensinar, você é muito importante. O mundo inteiro te admira e te quer bem.

Por fim e não menos importante te dedico minha gratidão pela maior lição: pai é aquele que ama. 

Parabéns, me perdoe, eu te amo e obrigada.

M de Mulher e de Medo

Ontem pela manhã li no Globo sobre uma universidade japonesa cuja administração do curso de medicina alterava notas para favorecer candidatos e alunos do sexo masculino com o argumento de que “mulheres podem engravidar e com isso abandonar o curso”. O que senti foi tristeza. Podia ser comigo, com você que está lendo esse texto, com suas amigas, com sua filha, com qualquer mulher.

Ainda nesta semana conversei com alguns amigos sobre o assassinato da paranaense que, vítima de inúmeras atitudes abusivas e opressoras por parte do marido, não foi socorrida quando esteve entre a vida e a morte. Imagino se ela própria não interpretou o comportamento do marido como machista, violento e maléfico a tempo; ou (um cenário ainda mais grave e comum) que quando se deu conta do pesadelo que vivia a dois não foi capaz de sair dele por alguma crença ou medo do julgamento moral-cristão que sofreria. 

Este foi só mais um de tantos casos que acontecem nos lares familiares do Brasil e do mundo afora. 

Ainda nesta semana soube dos números alarmantes de mulheres agredidas em Manaus. De Janeiro a Junho foram registrados 7.458 casos de violência doméstica na cidade, uma média de 41 casos por dia num período de 6 meses. Veja bem, esses números são de casos REGISTRADOS. Quantos outros não foram e nunca serão reportados? A notícia completa está aqui: https://www.acritica.com/channels/manaus/news/de-janeiro-a-junho-de-2018-manaus-registrou-7-458-casos-de-violencia-domestica

Senhores, é de partir o coração. 

Mas escolhi falar não somente da violência masculina sobre a mulher. Ainda mais espantoso é o ódio de uma mulher em relação à outra. Há quem diga que o machismo está aí por ser repetidamente praticado pelos homens. Atrevo-me a sugerir que é o reforço feminino que fortifica e também perpetua o machismo. Como? Basta lembrarmos da última vez em que estivemos entre amigos (incluindo mulheres) e o assunto foi a roupa provocativa de uma garota na festa, o comportamento da solteira que beija quem quiser sem nenhum pudor ou a menina que só quer jogar bola e os pais já não sabem mais o que fazer para “afastá-la das más companhias”. 

Consigo lembrar de amigas de infância debochando de alguma confidência  minha que “não era coisa de uma garota direita” e de um colega de trabalho duvidando da minha solitude durante uma viagem, afinal de contas “mulher não pode viajar sozinha”. 

Durante o verão, por exemplo, é impossível vestir roupas quentes e pesadas, mas ainda ouvimos e até pensamos comentários maldosos sobre mulheres que preferem bermudas curtas ou regatas mais cavadas. Somos incompreensivas e cruéis com aquelas que sentem o mesmo calor que nós e que são mais corajosas e seguras para fazer escolhas que o mundo desaprova. Nos odiamos, temos vergonha das curvas que nos identificam como mulheres e sentimos pavor de sermos descobertas em nossa mais profunda feminilidade. Logo, é mais fácil reforçar um comentário e atitude machista que aplaudir aquelas que nos abrem caminhos sem nos cobrar absolutamente nada, somente respeito.

Quando questionada sobre ser feminista ou não faço questão de pensar a melhor maneira de explicar meu posicionamento. Para cada pessoa há uma resposta adequada, visto que neste tipo de conversa o objetivo é trocar ideias, não é chocar. Quase sempre digo que não sinto orgulho do feminismo como não sinto orgulho de precisar usar um sutiã para disfarçar o que toda a humanidade sabe que tenho. Feminismo, feminazi, mimimi de mulherzinha e todas as outras formas de perceber a movimentação de uma minoria que só quer se defender de agressões e se colocar num lugar de plenitude e dignidade precisam não somente de adeptos, mas de respeito. Só existe feminismo porque existe machismo. Só existe machismo porque existe reforço. O feminismo não combate o machismo, mas o reforço de uma ideia que oprime as diferenças com base num determinismo ora religioso, ora moral-convencional.

Quantos de nós foram criados por seios envergonhados do próprio poder e ensinados a colocar-se no seu devido lugar (lugares diferentes para sexos diferentes) sem sequer aprender a criticar essa predestinação maléfica que insistem em chamar de divina? Quantas vezes reproduzimos falas e comportamentos que por alguns segundos sabemos que não são nossos, mas não vemos alternativa sobre eles?

Hoje não sinto vergonha de ser mulher. Principalmente por causa dos olhares femininos que julgam, condenam e ignoram minha humanidade; pela falta de solidariedade com o sofrimento que nos aflige numa briga “de casal”, pelo silêncio recebido das colegas de trabalho quando confidenciamos uma situação de assédio, pelo deboche inescrupuloso com que nossos maiores sonhos são recebidos dentro de nossas próprias famílias, o que sinto em relação à minha feminilidade é insegurança, ansiedade, impotência. Sinto medo de ser verdadeiramente mulher. 

As fases de uma Travessia

Assisti o vídeo que aparece ao final deste texto há menos de um minuto (é assim que a vontade e inspiração pra escrever aparecem, é assim que tento pegar a oportunidade quando ela ainda está no ar). A idéia dele é apresentar as fases pelas quais uma mulher passa e seu processo de autocrítica e aceitação durante a vida. Mas eu também vi uma pessoa qualquer passando por uma calçada e fazendo sua travessia (pela vida). Minha calçada, minha travessia, minha vida tem capítulos reveladores, trágicos, inspiradores, incríveis. Acho que já tenho coragem de compartilhar um pouco da minha travessia.

Às vezes encaro meu presente incrédula. Se cruzei esquinas e troquei de calçadas, não lembro de todas. Muitas vezes passei por lugares importantes desatenta. Várias vezes passei por pessoas importantes desatenta. A questão aqui é que as mudanças acontecem gradativamente, sem que a gente tenha consciência. O motivo? Enquanto vivemos, a vida acontece, e isso pode ser muito bom ou muito ruim.

Se passei por lugares desatenta, não foi sempre. Lembro exatamente dos nãos que dei e que me foram dados, dos sins que forcei, dos que tive medo de dizer, dos que disse do fundo do meu coração. Sei exatamente de alguns dos momentos chaves da minha travessia, ahhh sei. Me arrependo de alguns, tenho muita saudade de outros. Mas faria quase tudo outra vez.

Espalhei flores e atirei pedras. Até dei alguns passos pra trás na tentativa de recolher as pedras ingenuamente atiradas, mas era tarde demais. Acabei reencontrando as mesmas pedras quando eu menos esperava um pouco mais à frente: chorei, reclamei, lembrei, calei. E depois de ter seguido em frente sabendo o peso de uma pedra, dei o melhor de mim no semeio de plantas. E passei a literalmente me apaixonar por plantas (aqui lê-se seres vivos que nada pedem a não ser carinho e cuidado).

Passei noites e dias inteiros trabalhando, perdi festas estudando, também perdi aulas por ter exagerado em festas. Nunca utilizei uma regra muito restrita para balancear atividades muito diferentes, apenas deixei bem claro pra mim mesma qual era meu objetivo e fui dosando conforme a idade permitia. De ônibus, caminhando, de carona e dirigindo fui cruzando limites, fronteiras, entradas e bandeiras. Vim parar aqui!

      Capa do “The Endless River”, Pink Floyd

Recebi solidariedade, paguei com solidariedade. Recebi desprezo, paguei com desprezo. Mas depois de alguns quilômetros entendi que não é bem assim que funciona. Só se pode pagar uma conta se o saldo estiver azul, e pagar uma dívida fazendo outra não é nada inteligente. Em paralelo aprendi a equilibrar minhas finanças, emoções e energia. Tive muita sorte ou o Universo realmente estava alinhado pra mim, pois aprendi essas e outras grandes lições do gênero exatamente quando precisava aprender. Poderia ter recebido essas lições antes, mas talvez não teria dado tanto valor a elas.

Amei, odiei. Fui traída, traí. Perdoei e não perdoei, me arrependi e me orgulhei. Senti saudades, senti remorso, pedi pra voltar, pedi perdão. Tive medo, senti dor, senti vergonha. Quis fugir, quis gritar, quis morrer. Quis viver tudo de novo, recomecei, suei e senti muita fome. Pedi dinheiro emprestado, pedi colo, pedi desculpas em silêncio. Falei mal, falaram mal de mim, contei a verdade, contei que era mentira, contei as horas pra minha vida voltar ao normal. Contei meus segredos.

Guardei segredos, escrevi histórias e estórias. Sofri calada com histórias e fingi não sentir nada (era minha obrigação, infelizmente). Chorei baixinho no banho e perdi noites de sono sentindo uma dor que não era minha. Aprendi que pra ser uma boa profissional não precisava ser um robô, mas principalmente não sofrer tanto, senão não conseguiria ajudar ninguém. Aprendi a ajudar, ensinei a ajudar, testemunhei lindas alianças solidárias e sinto saudades de algumas delas. Descobri uma psicóloga muito humana dentro de mim.

Sonhei, alcancei, me frustrei. Parei, pensei, jejuei, caminhei, dosei e exagerei, fiz tudo de novo do jeito certo e do jeito errado. Me virei do avesso pra me enxergar melhor, depois aprendi que conseguiria fazer o mesmo fechando os olhos e respirando. Fui yogui, guerreira, marombeira, cozinheira, turista, diretora, fui dona e capataz de mim mesma. No último momento mais difícil que tive, fui filha de uma pessoa que precisava partir. Fui tudo, mas não foi o suficiente, ela foi e eu fiquei. Hoje somos nossa história.

Nunca tive um mapa. Quando me perdia, tentava lembrar do percurso que vinha fazendo pra saber aonde errei. Muitas vezes pedi ajuda, informação ou mesmo segui alguém que parecia mais voar que andar. Também mudei de idéia, deixei de seguir quem caminhava por onde eu não queria passar. Segui alguns sinais, me escondi de chuvas mas também me molhei em muitas delas. Passei por cada tempestade… Depois do GPS, idiomas e passaporte desbravei meus tão sonhados caminhos (que nem eu sabia que eram meus e me aguardavam). Não sei ler mãos, mas trago nas minhas vários calos de malas…

Topei com tanta gente bacana, bonita, inspiradora! Também esbarrei em monstros, sacos de areia e sacos vazios (esses aprendi a evitar). Fui carregada por anjos, enfeitiçada por demônios, decepcionada por ídolos e resgatadas por humanos (detesto pessoas, adoro gente). Aprendi muito, compartilhei o que pude, ainda tenho livros que comprei e não consegui tempo pra ler. Passei por cinemas e entrei em quase todos, das igrejas acabei desistindo de conhecer porque entendi que tinha outra parte da história pra estudar. Misturei minha vida com outras, levei tanta memória comigo que algumas delas acabaram caindo da mochila e ficaram nalgum lugar.

Ainda estou atravessando. Os caminhos são imprevisíveis, eles mudam de acordo com o que o seu coração precisa sentir. Um dia você está aqui, quando vê já está lá do outro lado e a roda viva do Chico vai carregando seu destino pra lá. Mesmo assim, a travessia não para de acontecer. Quando escuto a história de alguém me pergunto como seria se estivesse no seu lugar. Aí me lembro que já passei por algo parecido ou passei por alguém que já passou por algo similar. Que filme!

Não sei bem como terminar esse texto e essa vida. Não queria terminar esse texto nem essa vida. Quero continuar sentindo, vivendo, escrevendo, caminhando, fazendo minha travessia. Da vida o que mais quero é sempre poder passar, ver as coisas como elas são, imaginar como elas poderiam ser, pôr uma flor aqui ou um curry ali… e atravessar!

Nas horas improváveis, amor.

Certas pendências se resolvem sozinhas. Por mais que não queiramos enxergar, a vida nos põe grandes lentes de aumento e nos força a perceber numa flor ou numa nuvem  à toa aquela resposta que procuramos por tanto tempo.

Em primeiro lugar quero dizer que sinto saudades. Que sinto que sou capaz de amar mesmo depois de tantos desentendimentos e desacertos, ainda que em nossa história haja tanta desilusão carimbada em silêncio.

Em segundo lugar quero pedir que você continue me atormentando em sonhos, pesadelos, sombras e lembranças. Se for possível, por favor transforme-se em tatuagem e permaneça na alma que eu conseguir conservar depois de tanta vida jogada fora, depois de tanta atitude errante.

Não menos importante, quero em seguida te contar que te amo nas horas mais improváveis, que você surge como bálsamo nas intempéries e como um veneno em cada embalagem de margarina (chance de recomecar sem lembrar de você) que aparece na minha frente. É inevitável duvidar da felicidade depois de ter olhado nos seus olhos e em silêncio ter conversado de alma pra alma (naquelas vezes em que não tinha boca pra dizer o que a gente sentia).

Você despertou em mim uma força, uma coragem que me faz caminhar dento de tornados e desafiar gigantes, mas principalmente me ensinou a chorar de saudade. Você provou que posso ser humana ainda que tenha aprendido a conquistar meus sonhos tendo nervos de aço.

Hoje somos realidade e sonho, somos a fantasia do encontro num lugar que ainda não existe. Não sei aonde seu pensamento está, aonde você está e se você sabe de mim. Mas tenho certeza que algo te diz nesse momento que estou continuando minha vida pensando muito em você. Tão diferentes, nossas vidas me trouxeram até aqui.

Se saí ou sei voltei pra casa, não sei. Estou longe de tudo e você nunca esteve tão perto e tão presente.

Em cada sorriso e toque humano é você quem procuro, a cada esquina que eu dobro é com o seu olhar que eu queria cruzar.

É da sua voz que eu sinto falta.

Aonde estiver, saiba pela força do meu amor e pela firmeza do meu pensamento que nada foi em vão. Cada segundo vivido me fez capaz de reconhecer sua grandeza e minha fragilidade, sua graça e minha força. Sinto que sou mais sábia quando repito as últimas palavras que você falou pra mim.

Eu te amo, mãe. Se estou aqui é porque você sonhou com isso antes de mim.

Solidão, por Fernanda de Castro


Solidão.

A multidão em volta
e o pensamento à solta
como alado corcel.
E as ideias dispersas, em tropel,
como folhas ao vento
pétalas do Pensamento.

Solidão.
A angústia da Cidade,
a impossível procura da Unidade,
o clamor
do silêncio interior,
mais pungente, estridente,
que os bárbaros ruídos
que ferem, dilaceram
os nervos e os sentidos.

Fernanda de Castro, in “E Eu, Saudosa, Saudosa”

I don’t know when I’ll be back again

Os recentes acontecimentos do Brasil e principalmente a greve de caminhoneiros têm me assustado um pouco. Longe de casa é que a gente se dá conta da necessidade de pertencimento e confesso não saber se morro de saudades do Brasil ou agradeço ao Universo pela chance de ter saído dele. Antes de dormir assisti num vídeo que o oxigênio do Hospial de Tatuapé, em SP, só tinha mais DUAS horas de oxigênio. Pensei em todas as pessoas internadas, nas famílias dessas pessoas e lembrei do sufoco que passei em dezembro do ano passado ao levar minha mãe pro hospital pra receber oxigênio. Já foi difícil acreditar que ela sobreviveria, mas seria mais difícil ainda ve-la morrer por falta de oxigênio no hospital . Gente, oxigênio, uma coisa essencial pro ser humano, mais que água!!! Dormi com o coração partido.

Não me sinto informada e qualificada o suficiente pra tomar partido ou opinar. Só consigo perceber quão sensível estou aos problemas gravíssimos que nosso país tem enfrentado e sentir muito por todos familiares e amigos que estão insensíveis ou conformados com essa situação. Eu sei agora o motivo de nós brasileiros sermos tão brincalhões e bem-humorados: se não fosse pelo nosso espírito alegre, resiliente e forte não suportariamos todas as calamidades que enfrentamos todos os dias. É preciso se tornar um pouco insensível pra não morrer de dor, não é mesmo?

Como hoje é dia de música, compartilho com vocês uma canção que me marcou muito numa das minhas viagens de longo prazo. Não fui a passeio e não queria ir. Dormia e acordava pensando em voltar, mas não dependia da minha vontade. Escutava essa canção todos os dias e chorava escondido.

A letra fala despedida, da dificuldade que é dizer adeus e ter que partir contra a própria vontade. Dessa vez eu parti porque eu quis, mas a canção ainda faz muito sentido no que diz respeito à despedidas. Estou no paraíso, mas meu coração fica do tamanho de uma cabeça de alfinete de saudade das pessoas que amo. Mas a vida é isso, pra cada escolha, uma renúncia!

Bom sábado!

Leaving on a jet plain (tradução aqui)

 

Amor em tempos de gaiolas douradas

Hoje vamos falar de amor. Durante o dia-a-dia falamos de política, dinheiro, violência, religião, futebol e outros temas que impactam diretamente em nossas vidas. Discutimos, até desfazemos amizade quando não somos capazes de respeitar os limites da dialética. Mas não falamos de amor, talvez porque nossos amores falem mais de nós que o que dizemos de nós mesmos.

Falar de amor dá uma enciclopédia. Escolhi falar de amor e de uma máquina do tempo que já desejei ter em alguns momentos da minha vida.

ALERTA SPOILER. Se você assistiu Interestellar deve lembrar de quão impactante é a obra. A primeira referência que faço ao filme está na cena em que equipe de astronautas já está com pouco combustível e precisam tomar decisões importantes. Amélia ama um dos integrantes que morreram durante a expedição e ao ser questionada por sua motivação para estar ali, ela fala desse amor.

Por muitos anos me perguntei se o que sentia era mesmo amor. A explicação mais sábia que recebi sobre como saber se era mesmo foi “Você vai saber”. Então, se eu precisava me perguntar a resposta era negativa. Hoje eu diria pra quem me fizesse essa pergunta que é amor quando o tempo passa, as pessoas mudam e mesmo assim ele não muda. É amor quando você não quer/consegue se livrar do amor (mesmo com esforço e distanciamento da pessoa/causa que te desperta esse sentimento). A definição que a personagem de Anne Hathaway dá ao amor é muito interessante. O amor é algo que ainda não conseguimos compreender e talvez seja uma evidência de uma dimensão maior que ainda não está disponível pra nossa inteligência. E é um sentimento que por mais que não consigamos descrever com exatidão, seguimos sentindo através do tempo e do espaço…

Outro momento que me tocou fortemente foi a cena do ‘fantasma’. Matthew McConaughey vê o passado e pede desesperadamente pra que sua filha Murphy o impeça de partir pra missão espacial. É aí que o sapato aperta, leitor. Quantas vezes a gente olhou pra trás e se perguntou “AONDE APERTA PRA VOLTAR?”

É simples: não existe esse botão. Sua inexistência faz com que a partir de determinado ponto de nossas vidas passemos a valorizar mais cada segundo à nossa frente. E quando o segundo é de amor, queridos, esqueçam tudo e agarrem esse momento como se fosse a própria vida. Porque no futuro pode ser essa a lembrança mais significativa da sua vida.

Falo isso porque temos a ilusão de que o tempo não existe, pois não somos doutrinados ou mesmo incentivados a refletir sobre sua importância. Crescemos acreditando que segurança financeira, colocação social, padrão estético e outras gaiolas douradas são temas que merecem nossa atenção, dedicação e tempo. O tempo passa e com ele vamos nos tornando quem realmente somos. É nessa travessia entre quem você “tem que ser” e quem você realmente é que vem a oportunidade de viver conforme sua intuição/razão/coração fala. Nesse exato momento em que você lê o que escrevo, quem é você? Que valores orientam sua vida? Que desejos SEUS você já realizou até hoje? E, tocando na ferida, você conseguiu encontrar e ficar com seu grande amor? Você olha pro passado e fala pra si mesmo que deveria ter agido diferente, que gostaria de uma chance pra tentar fazer aquela história dar certo? Não estou te julgando, mas acho importante que você julgue a si mesmo e encare as consequências da vida que você tem escolhido todos os dias continuar vivendo. Não tenha medo da escuridão da sua intimidade.

ALERTA SPOILER. Agora trago outra referência que fala de um comportamento muito mais saudável ainda que perigoso em relação ao amor. Em A Forma da Água a jovem Elisa  vive um conto de fadas em tempos desastrosos, tempos em que os seres humanos precisam refletir e decidir diariamente sobre como se comportar diante das diferenças. Quando Elisa decide arriscar a própria vida (quando ela decide isso, já riscou do caderno todas as gaiolas douradas) para salvar seu grande amor, ela consegue provar algo que a gente é forçado a acreditar que nunca vai acontecer se tomarmos decisões contrárias aos padrões sociais, convenções e normas de convivência “tradicional”. Elisa consegue o apoio das pessoas mais próximas e até de quem não é de seu círculo mais íntimo. E você, eu, todo mundo aqui do lado de fora do cinema continuamos com medo de decidir o que fazer: o que vai agradar todo mundo, ficar com aquela pessoa que a família gosta e que os amigos não vão criticar, continuar com a relação ou solidão que nos convém (pra nos proteger de grandes desafios).

Leitores, com todo respeito, pelo menos uma vez na vida somos ou incentivamos uns aos outros à covardia. O amor, depois de diagnosticado, é para os fortes. E ser forte muitas vezes é ser fraco também e simplesmente se entregar, passando por algumas tempestades e mesmo assim seguir amando.

Pra finalizar, deixo aqui o texto que li ontem e que me fez pensar em tudo isso. O autor chama-se Bruno Fontes e já tem um livro publicado. Pra você que assim como eu tem um lugar no passado pra onde volta de vez em quando ou que não sabe que decisão tomar hoje pra não ter que pagar caro no bilhete da saudade, aqui vai essa bomba que o Bruno apertou o botão e explodiu na minha cabeça: “O amor mora nos nossos sonhos uma vida inteira”. Um domingo cheio de saudade pra vocês.

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