Da varanda de minha avó

A varanda nunca é a mesma porque cada vez que estou nela sou um pouco diferente. As pessoas que vejo daqui tambem não são as mesmas, até as águas tem outro brilho, refletem o que antes não estava ali.

A mudança, como a morte, é inevitável. O tempo é imbatível. Nunca saberemos ao certo o que cada milésimo de segundo pode provocar nos próximos instantes, como não sabemos ao certo quando cada mudança começou e terminou de acontecer.

Lá embaixo as pessoas conversam, riem, cantam, algumas silenciam e falam sozinhas com quem guardam no pensamento. Saberiam elas dizer quanto tempo ainda são capazes de guardar os detalhes dessas memórias?
Muito antigamente vinha aqui como espectadora, via minhas tias falarem do Chico e da Bethania como quem lembra de amigos distantes. Elas riam de histórias que hoje talvez nem lembrem mais. Naquele tempo nem passava pela minha cabeça que estaria exatamente no lugar delas saboreando essas lembranças da minha infância. Não faço ideia de aonde estarei quando lembrar que hoje estive aqui.

Foram as mudanças que me levaram pra longe e as lembranças que me trouxeram. Hoje faço do tempo minha moeda para viver e reviver tudo o que faz sentido e me constrói pétala por pétala. Ah sim, hoje sou flor!

Se te permitires lembrar, não alcançavas algum espelho quando eras criança. Crianças não precisam de espelhos. Adultos, somos escravos deles. Também tinhas alguma dificuldade para abrir algum armário, medo de entrar no quarto de alguma tia ou uma curiosidade enorme para saber o que sua avó guardava nas gavetas. Enquanto penso nisso, vejo um garoto correndo e saltando entre pilastras, soltando gritos de conquista cada vez que acerta todas elas. O que te fazia gritante alegria que hoje já não tem mais importância?

Culpamos o tempo pelo que não volta mais, quando na verdade somos nós que mudamos e deixamos para trás o que já não nos serve.

Há ainda o olhar que lançamos sobre a mudança alheia, muitas vezes sem nenhuma piedade. Na faculdade aprendi um termo que jamais esqueci: etnocentrismo. Quando olhas alguém a partir do teu lugar, ponto de vista e conjunto de valores sem levar em consideração que aquela pessoa é um universo totalmente diferente. Não penses que é preciso respeitar apenas os sonhos de alguem: há que se guardar a língua diante das mudancas de uma pessoa.

Aqui embaixo da varanda tem uma árvore linda, cheia de flores amarelas. Eu não estava aqui para ver todo o sol e toda a chuva que ela tomou, nem tu estavas lá na vida da pessoa para medir as consequências da Natureza em sua vida.
Toda pessoa já tomou sol e chuva, já se fartou e jejuou, chorou e sorriu, escuta a história contada por ela, não o que outras pessoas falam sobre suas mudanças.

O tempo passa para todos nós.
Toda pessoa que tu conheces tem lembranças (umas doces, outras dolorosas).
Sol e chuva estão aí para todos.
Tolera, reconhece teu lugar, respeita e se fores grande o suficiente, aplaude de pés, porque mudar nunca é fácil.

Bato palmas para todas as flores que resistem ao verão e reverencio todas as que sobrevivem ao inverno! Em especial para uma grande árvore que hoje completa mais uma volta ao sol. Que haja sempre harmonia e serenidade em sua vida!

Do Porto de Lenha a Portuscale

Há algum tempo venho postergando esse tema por ainda não sentir segurança suficiente de trazê-lo aqui. Mas passados meus 3 primeiros meses no meu novo lar, acredito que já tenho argumentos suficientes para falar da escolha que fiz de vir morar em Portugal.

Aqui os homens não mexem com as mulheres nas ruas. Não há cantada de pedreiro, não há puxão de cabelo nas boates, muito menos mão boba no meio da multidão. Tanto em Lisboa quanto no Porto posso ir e vir a qualquer hora do dia (inclusive depois das 00h) e absolutamente nenhum homem me fez sentir um pedaço de carne, como é muito comum no Brasil. Não estou dizendo que isso não acontece em Portugal, mas pelo menos comigo não aconteceu e nenhuma das minhas amigas daqui tem alguma história de assédio para contar.

Aqui as pessoas que moram nos centros ou nas freguesias mais próximas utilizam com bastante frequência o transporte urbano (metrô e ônibus). Aliás, o metrô do Porto é a coisa mais linda que eu já vi na minha vida! Diferente do de Lisboa e do de São Paulo, por exemplo, NÃO HÁ CATRACAS! Finalmente eu pude ver um sistema de transporte que oferece o melhor serviço e conta com a colaboração e boa conduta das pessoas. Nós apenas validamos nosso cartão num leitor digital e seguimos em direção à plataforma de embarque. Claro que nas estações aonde pode-se fazer baldeação há muito movimento e portanto, seguranças de olho. Não estou dizendo que ninguém trapaceia, mas posso afirmar por observação que a maioria usa o serviço com respeito e honestidade, o que faz ele ser assim tão LINDO! Os ônibus não tem cobradores e circulam em faixas específicas na maior parte da cidade. Mesmo que o embarque de passageiros demore um pouco mais porque o motorista acaba tendo que dar o troco para as pessoas que pagam a passagem na hora (podemos usar o mesmo cartão – que é recarregável – do metrô nos ônibus), mas absolutamente ninguém xinga o motorista ou a senhora sua mãe.

O famoso BBB pode ser visto todos os dias quando o assunto é comida. Lembrando que estou falando do ponto de vista de moradora, não de turista! Já citei em outro texto aqui do Travessias a cultura de tascas. Pois além de menus deliciosos a preços baixíssimos temos acesso a supermercados low cost estrangeiros e locais, ambos com muita variedade e promoções (a carne aqui é mais cara que no Brasil, mas quando está próximo da data de validade tem desconto). Há também muitas quitandas e vendinhas espalhadas pela cidade, eu diria até que tem uma a cada esquina; não precisamos ir pra muito longe para comprar bons alimentos com ótimos preços.

Cultura de reciclagem e responsabilidade ambiental. Queridos, o hábito dos portugueses que tenho conhecido é um tapa na nossa cara… Além de separar todo o lixo de casa (em papel, plástico, vidro, metal e biológico) eles também usam o saco de lixo adequado e têm sua sacolinha de supermercado pessoal. Lembro do nervosismo que me dava em Manaus quando  colocavam uma sacola dentro da outra na hora de embalar as compras e de quando via outras clientes pedindo mais sacolas pois seriam usadas para pôr o lixo de casa. SENHOR, TEM PIEDADE! Infelizmente o pessoal aqui está muito mais avançado em relação à consciência ambiental. Tem exceções? Lógico que sim. Mas a grande maioria se importa muito com o descarte de lixo e uso de plástico.

Estou segura aonde quer que eu esteja (e a qualquer hora). É impressionante como as pessoas aqui se sentem seguras também. Isso inclui andar à noite sozinho (a) nas ruas, nos ônibus, usar o celular – USAR O CELULAR A NOITE SOZINHA NA RUA, etc. Há policiamento e com certeza há crime também, mas eu acredito que a pessoa precisa estar com muito azar pra ser assaltada aqui. Lógico que há áreas com maior risco de incidente de crime, mas é algo tão raro que a gente quase não fica sabendo quando acontece. Só de poder ir ao supermercado a pé à noite e voltar com meus dois rins intactos, celular na bolsa e compras na sacola sem nenhum arranhão sinto-me a pessoa mais abençoada do planeta.

Poderia me extender citando outras belas particularidades, mas no momento é o que eu gostaria de expressar. Meu lado brasileiro é amazonense de corpo e alma e morre de saudades do jaraqui com farinha d’água, do açaí de Codajás. Sinto saudades de Maués, da minha família, das minhas plantas que só existem aí, de banho de rio, de pôr-do-sol na beira do rio…

Mas tenho sonhos mais urgentes que minhas saudades. Enquanto vou realizando uma parte deles daqui de Portugal, vou guardando a saudade da minha terra e a esperança de que um dia meus descendentes possam viver felizes nela. Não sou pessimista, sou realista. Um lugar tão incrível como o Amazonas merece um futuro decente e infelizmente está muito longe disso. Força aos que estão aí e comam muito peixe por mim!

Que seja leve

Querido amigo leitor, 

Se tua semana foi satisfatória, que bom, agradece!
Se poderia ter sido melhor, está tudo bem. Agradece pelas próximas que terás pela frente.
Se tudo foi por água abaixo, aproveita para nadar e refresca-te um pouco. Todo caos traz a chance da renovação. 

A dor tem o fim que construíres pra ela, o amor tem o tamanho do espaço que tens livre para ele, a vida tem a cor que teus olhos são capazes de ver. 

Que apesar de tudo o que te aconteça nunca te falte alimento para a alma e para o corpo. 
Que apesar das decepções nunca te falte amor próprio, compaixão e empatia. 
Que o sorriso de qualquer pessoa te desmanche e te ajude a sorrir também. 

Essa vida é teu presente. 
Escuta teu espírito, fecha os olhos e faz as pazes com ele.  
Semeia o melhor de ti, separa água e comida para os pássaros, lembra que fazes parte da mesma Natureza que eles. 
Aquilo que mais te incomoda é tua lição, aprende e segue em frente. 

Teu "melhor lugar do mundo" é aqui e agora. 
 
Com muito, muito, muito amor, 
Marília

 

A menina e o silêncio

Ela odiava a voz das pessoas: podendo fazer silêncio, insistiam em falar pelos cotovelos. Se não eram conversas fúteis sobre os signos, davam gargalhadas forçadas (que ela sabia serem máscaras de proteção conta os monstros Carêncio e Solhudão).

Se havia instrumentos musicais, por que esses humanos insistiam em contar lorotas, fofocas e vantagens? Que som poderia ser mais poderoso e relaxante que uma tempestade tropical?

Não sentia necessidade de falar com as pessoas todos os dias e às vezes custava-lhe a paz estar entre amigos (frequentemente questionava-se sobre amizades que lhe despertavam sensações desconfortáveis nos primeiros 5 minutos de conversa).

Sentia que o universo do som era degredado a cada espirro, a cada ronco e a cada peido. Além disso machucava-lhe o âmago aquilo que aos outros parecia banal, mas era mais grave que o som de um trovão: o insulto.

Gritos de raiva e até de alegria faziam seus tímpanos arderem em chamas. Conversas sobre trabalho e brigas de família que subscreviam diálogos de insatisfação matrimonial lhe causavam náuseas e por pouco não avançou agressivamente como um bicho selvagem num humano que opinava sobre qualquer tema relevante munido do mantra “isso não é coisa de mulher direita”.

Falando em direita, a menina adorava placas de trânsito por serem uma linguagem muda e cheia de conteúdo. “Vire à esquerda”, “atenção”, “crianças no perímetro” e outras informações tão importantes para a locomoção de uma comunidade compartilhadas sem qualquer palavra falada, que alívio!

Recentemente conheceu um menino que assim como a maioria dos humanos falava duas línguas: Verdaderês e Mentirês. A segunda ele aprendera muito bem, mas por ela nunca ter se sentido à vontade com esse idioma era difícil ouvi-lo em Mentirês e traduzir mentalmente pro Verdaderês. Ele precisava de alguém para conversar e praticar o Verdaderês, visto que fora cruelmente repreendido pela professora por ter falado nesta língua com pessoas que não estavam capacitadas para ouvi-la. Além disso estava num recesso público em que precisava interagir com o máximo de humanos possíveis para despistar o monstro Carêncio, que lhe perseguia como punição por ter usado a língua errada com a pessoa errada. É desrespeitoso na sociedade deles falar uma língua que não seria entendida ou bem recebida por um dos interlocutores da conversa – gera até rompimento de laços humanos! Dele ela não tinha raiva, sentia dó. Via nele um potencial enorme para silenciar e produzir grandes obras primas(ele era aprendiz de escultor).

Diversas vezes a menina fugiu de casa e se escondeu num monastério abandonado aonde se ouvia pássaros, folhas e vento. Não tinha certeza se Deus existia, mas se existisse ele com certeza morava ali, no silêncio que o passado deixou.

A menina não tinha medo do silêncio dos humanos, nem se incomodava quando ele acontecia. Quando era quebrado por ela ou por alguém, sentia como se tivesse acabado de acordar de um sono renovador. Ela deitava os pensamentos na ausência da voz e deixava que tudo ao seu redor lhe abraçasse e lhe acariciasse a alma: fosse imagem, fosse som, fosse pensamento.

O sino da igreja era um pouco desconfortável de se ouvir, não pelo som ou volume, mas porque mergulhava a menina em lembranças que ela não guardara por querer. Mas mesmo assim permitia que o som vibrasse dentro dela; viajava em pensamento para tão longe que nenhum humano a alcançaria. Certas lembranças são Torres sem porta, você nunca sabe como foi parar lá e tampouco consegue sair.

Quando observava árvores imaginava o que se perguntavam enquanto o vento esfregava suas folhas umas nas outras: seriam questões de gênero ou de cor? Estariam elas discutindo minorias?

Depois de várias crises de otite ela começou a se isolar com mais frequência, recomendação médica: “Diagnóstico: a menina tem intolerância acústica. Prognóstico: a menina deve habitar espaços com pouco barulho. Em paralelo fazer terapia.”

Ao contrário do que o médico entendia por barulho, ela classificava toda sorte de som como apenas som, até o da britadeira. Barulho é o que os humanos faziam, desorganizando tudo com suas falas egoístas, totalitárias, fúteis e cheias de desfarces (eufemismos e convenções sociais). Terapia ela já fazia, mas o médico não ouviu quando ela falou, talvez sua voz estivesse muito baixa naquele dia.

Quando pensava em futuro ela ouvia os passos do monstro Medo no corredor de casa. Quando pensava em cobras, aranhas e sapos também. O futuro de uma menina como ela parecia muito infeliz, era como se no futuro da humanidade não houvesse espaço para a vida que ela queria para si. Pessoa não bem-vinda, que não se encaixa. Como não sentir medo de ser uma mulher que adoraria ter filhos mas que não conseguiria ouvi-los chorar e chamar pela mamãe? Como participar de reuniões, ir ao banco e ao médico, como atender ligações dos familiares distantes e dizer que estava tudo bem? Era morrer ou transmutar a realidade para o que ela entendia como tolerável e admirável.

Ouviu falar de uma ponte e do rio que corria ali. Quem passasse por ela 7 vezes e em seguida mergulhasse as pernas até os joelhos nas águas do Tâmisa podia fazer um pedido: prontamente algum Deus mestiço atenderia. Fez as malas com tudo o que considerava importante e arrumou o pensamento também – precisava das palavras e do volume de voz certo para ter seu pedido atendido.

Andou muito. Tomou cafés e vinhos, banhos de rio e de mar. Comeu doces, peixes e pães. Viu gente, bicho e planta. Chorou e cantou, sorriu sem perceber. A menina viveu tanto que esqueceu do que procurava, mas nunca se conformou com a fala dos homens. Num verão qualquer chegou a uma cidadezinha e viu a ponte com o tal rio. Lembrou do que quis com todas as forças. Parou o que estava fazendo e como quem conversa com Deus, perguntou a todas as meninas que já tinha sido “se estavam prontas pra atravessar a ponte com ela, se ainda queriam o silêncio dos homens e se estavam dispostas a deixar o conforto da conformação para alcançar o sonhado paraíso sônico.

Elas deram as mãos (não disseram nada) e sem que a menina pudesse reagir, dispuseram-se todas em fileira, de frente pra um dos lados da ponte. Não ouvia nem entendia nada. Pavor. O que querem elas? Atordoada por descobrir justamente agora que não tinha controle algum sobre seu passado e que ele lhe impulsionava pra o futuro, fechou os olhos e inspirou todo o ar que foi capaz de recolher.

Dias e noites passaram. Foi primavera e sem que os humanos percebessem foi verão. Teve guerra, diversão e paz.

Um dia veio um anjo e tirou de todos os homens o dom da voz. Foi feito um silêncio inesperado e aterrorizante.  Perdidos, eles ensaiavam sinais nunca usados, pareciam mais desesperados que vivos.

 

De algum lugar a menina podia enfim escutar a água batendo na pedra, a madeira da cadeira rangendo com o peso da velhota exausta, a nuvem de pássaros que voava em arabescos como se seguissem um mapa ancestral rumo ao paraíso dela. Assim como eles, ela já sabia aonde ficava esse lugar: na imaginação.

Abriu os olhos, pediu a conta e deixando alguns euros na borda da mesa sorriu em agradecimento à jovem senhora que lhe atendera com indiscutível gentileza. Tinha um concerto para assistir, precisava correr para não se atrasar. Ao menos ali todos ficariam calados e somente com palmas falariam a verdades: “parabéns”, “obrigado” e “continuem, vocês são brilhantes”.

Foi embora ansiosa para ouvir música e silêncio.

Para curar um Coração Partido

Hoje pela manhã vi uma postagem que despertou minha solidariedade, ainda que por um motivo “bobo”: um coração apaixonado e partido. Bobo porque o amor é bobo quando está totalmente entregue, sem domínio de si e sem noção de limites para sofrer. Lembrei de todas as vezes em que meu coração foi ao chão, partiu-se em pedaços e depois tornou-se meu tesouro.

Para curar um coração partido é necessário um copo, uma garrafa ou qualquer coisa que te permita se entregar ao sofrimento no momento mais importante da dor: quando ela vem junto com uma verdade que você daria a própria vida pra ser mentira. O dom do álcool é de baixar nossa guarda e raciocínio, então a gente sofre de verdade, fala o que tem pra falar, chora o que tem pra chorar. Algumas pessoas precisam de somente de uma garrafa, outras de um senhor porre. Há ainda quem se entregue a uma fase inteira de sofrimento regado a álcool e que ingenuamente tenta disfarçar cantando refrões como “Tô solteiro em Salvador”, mas quem está bem percebe quem está mal, e é por isso que essa pessoa sempre volta pra casa sozinha ou acorda insatisfeita na manhã seguinte.

Coração partido que se preze tem uma playlist pronta pra escutar quando alguém joga a toalha. Se você não tem, recomendo essa aqui (não é minha mas acho que é do gosto da grande maioria). Não tem nada melhor que chorar 2 horas seguidas ouvindo a mesma música programada pra repetir até o mundo acabar. Poderia citar as minhas aqui.. Mas aí seria revelar demais da minha intimidade e o Travessias não é pra isso! Mas libero aqui alguma coisa que já me ajudou a botar a tristeza pra fora:

Still Loving You- SCORPIONS , 
Hello- ADELE, 
My Immortal - EVANESCENCEEqualize - Pitty, 
Everybody Hurts - REM, 
Nothing Compares 2U - Sinéad O'Connor, (essa é forte!)
Beware of Darkness - George Harisson, 
Fields of Gold - Eva Cassidy,
etc etc etc

Um coração partido precisa de amigos de verdade. Aqui cito como exemplo uma amiga que estava super bem mas me acompanhou em cada degrau da dolorosa descida ao poço que vivi uma vez. Amigos de verdade reservam um espaço no coração deles pra sentir com você o que quer que você esteja sentindo. Então não custa nada ligar pra eles, visita-los ou aceitar os convites mais sem graça que eles possam fazer a você nessa fase: eles podem ser aquela corda que você precisa pra sair dessa, meu chapa.

Uma vez em cacos, um coração partido precisa de cola, tempo e carinho. Não deu certo? Paciência. Se você perdeu um grande amor, saiba que você não perdeu a capacidade de amar novamente, porque seu coração pode estar aos pedaços, mas ele ainda está aí dentro de você! Arregace as mangas, mãos à obra. Vamos colar os pedacinhos.

Quando um amor se vai, há que se fazer uma faxina e colocar numa caixa tudo o que ele esqueceu de levar consigo e dar um jeito de tirar de perto de você. O sofrimento não vai passar ao final do dia, mas uma faxina na casa, na vida e na alma com certeza vai te permitir respirar um ar mais limpo, livre da escuridão que o amor que foi embora deixou na sua vida. Vai amenizar a dor, eu prometo. E se você estiver precisando perder peso, olhe-se no espelho. Bingo, mais magra! Hahahah sim, eu sempre vi isso como algo bom quando esse tipo de coisa me acontece e aproveito pra usar todas as roupas que os quilinhos a mais não me permitiam. Vista sua roupa preferida e vá dar uma volta, vá comprar pão, pagar uma conta. Apenas vá viver um pouco(mais leve depois da faxina).

Coração partido tem boa memória. Então, se você automaticamente vai se lembrar daquela pessoa quase sempre (sem eufemismo sempre no intervalo entre um pensamento e outro), evite redes sociais. Abra mão das desculpas que podem surgir pra você ver o perfil dele (a), do amigo dela (e), apenas PARE. O que acontece com quem está tentando parar de fumar toda vez que vê um cigarro? Pois não queremos que isso aconteça com você. Então respira fundo e apaga esses aplicativos. SE quiser, ponha uma meta. No máximo você vai ficar até menos dependente do seu celular e de memórias que não te farão bem agora.

Filmes, livros, amigos, Tv, tudo o que puder preencher sua cabeça de forma a te fazer pensar em outras coisas, CONSUMA. Mas seja prudente, jovem. Lembra daquele curso de inglês que você queria fazer e não tinha tempo? E a academia, era no mês passado que você ia voltar, não era? Cadê aquele seu amigo que você não visita há tanto tempo, e aquela cidade que você sempre quis conhecer … Por que não AGORA? O presente é tudo o que você tem, então use-o a seu favor. Encha esse coração com novos sonhos, desejos SEUS, semeie interesse e amor por hábitos, causas, plantas, pela sua vida. Que tal voltar a viver um pouco?

FAÇA LISTAS! Senhores, eu AMO listas. Todas as minhas listas tem um propósito e nunca me deixaram na mão. Por isso considero altamente recomendável, principalmente AGORA:

  1. Lugares que eu quero conhecer
  2. Comidas que ainda não provei
  3. Livros que quero ler
  4. Filmes que preciso assistir
  5. Pessoas de quem preciso pedir desculpas
  6. Pendências na faculdade
  7. Pendências no trabalho
  8. Pendências em casa
  9. Hábitos que quero ter
  10. Hábitos que quero abandonar 
  11. Listas listas LISTAAAAASSSSSSS (perdão, sempre me empolgo com listas).

Talvez pare de doer no mês que vem, talvez só em 2019. Mas o que vai fazer diferença é o que você vai estar fazendo com sua vida enquanto seu coração se recupera. Continuar sofrendo e alimentando essa dor, transformando essa perda numa causa pro resto da sua vida não é saudável. Simplesmente encare o sofrimento, mas não se entregue. Se você tem alguma crença, abrace-a. Se você é como eu e gosta de ficar num monastério imaginário em silêncio total, dane-se o mundo, tranque a porta. Mas não se permita um coração remendado, não aceite sobras nem fantasmas na sua vida. Essa é a única chance que você tem pra viver tudo o que puder. Aproveite cada segundo, seja ele de dor ou de alegria.

No fim as coisas se ajeitam. Todo término é também o encerramento de um ciclo, e todo ciclo traz renovação e continuidade. Não deu certo? Paciência. Mas você viveu uma história que te tornou mais forte e experiente, mais consciente da sua capacidade de ferir e ser ferido, de amar e ser amado. Podem bater o pé e dizer que só dá pra amar uma vez na vida. Eu prefiro dizer que sua única obrigação nessa vida é aprender a SE AMAR. Todo o resto vem no combo!

Namastê!

 

Minimalismo: um estilo de vida que faz bem ao bolso e ao coração.

O documentário “Minimalismo” (Minimalism em inglês) surgiu a partir do livro The Minimalists, de Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus. Ryan inicia o documentário falando que tinha êxito na vida, que era reconhecido pelo sucesso alcançado MAS era infeliz: “Na verdade tentava preencher um vazio na minha vida, assim como fazem muitas pessoas: com um monte de COISAS.” Ao contar que gastava mais do que ganhava e que trabalhava para comprar as coisas que  preencheriam seu vazio, afirma que isso não era viver de verdade.  Quantas e que coisas preenchem seus vazios?

Jesse Jacobs dá o exemplo do hábito de trocar de carro. GERALMENTE o primeiro carro gera a sensação de incrível satisfação pela utilidade, pelo sentido de crescimento financeiro, pela conquista de uma liberdade maior. O segundo carro surge porque o primeiro já não nos parece mais interessante. É mais um vício que uma real necessidade. Quantas vezes você já ouviu de um amigo (ou você mesmo ja disse) que precisava vender seu iphone 7 pra comprar o 8? O aparelho está em perfeitas condições, mas o vazio dentro de nós precisa ser preenchido com a nova versão de qualquer coisa. Já pensou em investir numa versão melhor de você mesmo?

O documentário reúne profissionais que de alguma forma estão relacionados com a indústria do consumo e relatam de que forma o minimalismo afetou suas escolhas pessoais e profissionais. Um deles é Graham Hill, fundador do LifeEdited, uma consultoria para projetar espaços inteligentes com qualidade, eficiência e custo justo. Ele começou a transformar seu pequeno apartamento num espaço aonde pudesse morar e trabalhar, ficar só ou receber 10 pessoas. Graham fala da ideia de ser feliz com menos tendo em vista o custo, estresse e espaço necessários pra armazenar coisas. Aqui você pode assisti-lo num TEDTalk falando da quantidade de espaço que geralmente temos em casa e qual o espaço que realmente habitamos nela. E você, já usou todas as roupas e sapatos que ocupam um terço do seu quarto?

Um tema importante abordado nessa obra é a influência que a propaganda tem na vida das pessoas. Além de transformar as pessoas em puppets, a propaganda dita padrões totalmente forjados. A ilusão de como a vida deve ser está presente em todas as formas de mídia: seja pela publicidade, pelo Instagram ou pela TV. O neurocientista Sam Harris comenta que é natural ousar a vida das outras pessoas, mesmo vidas imaginárias, como referências para nossas vidas. É completamente comum que hoje em dia as pessoas tenham como projeto de vida se tornar tão bem sucedidas como Fulano, magras como Ciclana, divertidas e bem relacionadas como Beltrano. Quantas vezes a gente comprar uma peça de roupa porque vimos alguém no Instagram usando? Não temos coragem de assumir nas nossas redes sociais que odiamos nosso trabalho, que nosso casamento acabou ou que não estamos satisfeitos com o que nossos amigos tem feito conosco. Você pode até argumentar que a vida já é dura demais pra compartilhar tristeza, mas desde quando é saudável publicar mentiras?

Minimalismo trata dessa invenção de necessidade material (que na verdade é um escape pra constante busca de sentido e satisfação naturais do ser humano) e de como vamos acumulando coisas e necessidades que se postas à prova, não fazem a menor diferença na vida das pessoas. O que a obra propõe é que as pessoas prestem atenção em quais são seus reais desejos e necessidades, que assim descubram outras alternativas para preencher seus vazios que não sejam o consumismo ou satisfação material. Um deles inclusive alerta para uma atenção ao que realmente tem valor para cada pessoa: seus melhores momentos ou suas melhores coisas.

Espero que seja vantajoso pra você assistir a esse documentário. Permita-se refletir sobre o que de fato você precisa pra viver, até aonde vai sua necessidade de compra e armazenamento e qual importância você tem dado pra esse vazio que não diminui nem para de aumentar.

  • Você também poderá conferir uma reportagem sobre o documentário feita pelo canal Repórter Eco aqui.
  • Trailer oficial do documentário aqui. Você pode assistir no Netflix.
  • Website que deu origem ao livro The Minimalists aqui.

Cuidado com minhas malas (sonhos)!

Há uma frase do Drummond que diz “Cuidado por onde andas, que é sobre os meus sonhos que caminhas”. Ela me veio à memória enquanto deixava minhas malas num locker aqui no Porto. Durante a vinda do Brasil minha bagagem passou por 2 companhias aéreas e 3 aeronaves. Eram novas, usei duas vezes cada uma. Pensei na frase do Drummond porque era o que eu deveria ter dito quando as despachei ainda em Manaus: “Cuidado com as minhas malas, que são meus sonhos que despachas”. Também deveria ter dito em cada conexão, em todos os idiomas possíveis, mas quem tem conhece  a experiência de despachar grandes bagagens sabe que esse tipo de pedido seria em vão. Assim como na pressa da vida, na logística aérea a eficácia é sempre mais importante que qualquer subjetividade. Nem preciso dizer que cheguei a Portugal com malas muito maltratadas, preciso?

Quantas vezes jogamos nossos próprios sonhos de qualquer jeito pelo chão, somos descuidados com os sonhos daqueles que precisam cruzar nosso caminho pra realizá-los ou simplesmente debochamos dos famosos ‘sonhos impossíveis’ ? Quem é você nos contos de fada da vida, o gênio da lâmpada ou o inquisitor sem alma?

Gosto de pensar que carrego sonhos quando começa a ficar difícil carregar minha bagagem durante alguma mudança. Isso me ajuda a não desistir ou deixar pra depois. Na vida a gente tem essa mania feia de postergar ou abrir mão do que é mais difícil, pesado, doloroso. Pois quanto maior o sonho ou desafio, mais energia e dedicação serão cobrados de você! Pense nisso na próxima vez em que estiver com preguiça de estudar ou ir pra academia. Até mesmo de fazer aquela super faxina em casa ou juntar dinheiro.

Sonhar pode parecer mais fácil que realizar, mas essas ações dependem uma da outra pra existir (você realiza algo que imaginou/ sonhou/ planejou e sonha algo que gostaria de realizar/ executar). Então chega de pensar que sonhos são coisa da sua cabeça e que a vida não passa de uma repetição dos passos alheios. E se alguém ousar te convencer do contrário, finja que não é com você e siga em frente.

Ah, antes que eu me esqueça: às vezes a gente senta e chora porque os agentes do destino nem sempre ajudam. Mas é preciso lembrar (principalmente nessas horas) que foi você quem fez sua mala. Foi você quem sonhou seus sonhos, foi você quem decidiu realizá-los. Eu diria ainda que é preciso ser realista pra realizar os próprios sonhos, por mais paradoxal que seja a idéia. O ideal é não reclamar do peso da mala, mas é essencial jamais desistir de carregá-la até aonde ela deve chegar.

Sonhe. Quando acordar, realize!

(E se tudo der errado, no mínimo você será mais forte)

Mudanças nossas de cada dia

Minha prática torta do budismo tem me revelado um mundo que sempre esteve aí, mas era sutil demais pra ser percebido. Assim como aconteceu com essa planta, tenho morrido várias vezes, perdido folhas e pétalas; a razão é minha força de transformação. Hoje entendo o motivo de sempre estar aberta a mudanças e de nunca ter tido medo de tentar o difícil, até quando parecia impossível.

Junto com a aceitação tenho aprendido a morrer sem dor, a decidir com a razão e a deixar ir tudo o que já não faz mais sentido. A ansiedade vai embora quando vejo essas folhas novas brotando numa planta que vi secar. A certeza de que aceitar mudanças é necessário me afasta da culpa que um dia senti por ser assim desbravadora, aparentemente inconsequente.

Aqui quero compartilhar minha verdade, coisa que nos dias de hoje nem sempre a gente pode fazer. Desejo que você, leitor (a), possa passar por mudanças muito boas, mesmo que um pouco turbulentas. Que depois delas você desfrute das flores e frutos e que um dia você perca o medo do que ainda está por vir.

Apesar de cíclica a Natureza precisa ser também misteriosa, só assim temos o privilégio da surpresa e do encanto. Se você achar necessário, ande no escuro, mude de emprego, abra mão do que não te faz melhor do que você já é. Abra as portas e janelas e deixe o sol entrar! Namastê.