Seja gentil com as palavras, elas são maiores que você

Primeiramente, esse título não é meu. A frase costumava ser a assinatura de email de um amigo meu (na época meu namorado) em 2009. “Segundamente”, tenho orgulho por ter mantido esse contato, que pessoa DO BEM! Em terceiro lugar, resgatei essa informação durante uma das minhas tentativas de organizar emails antigos nas minhas lindas pastas (já falei aqui sobre minha idolatria por listas,mas também sou adepta à cultura das pastas!). Tão alinhada com uma conversa que tive mais cedo é esta frase que me senti inspirada para falar sobre o assunto. CUIDADO COM AS PALAVRAS! Ou, na linguagem da internet, “Meça suas palavras, parça“.

Lembro bem de duas sementes em mim plantadas sobre a importância de pensar antes de falar durante minha vida escolar pelas freiras do colégio aonde estudei. Uma delas era um conteúdo socrático, o Conto das Três Peneiras (que você pode ler clicando AQUI ). Essa primeira lição me marcou de um jeito tão forte que desde muito nova tive horror a fofoca. Horror mesmo, a ponto de me afastar inclusive de amigos de longa data. Já repensei equipes de trabalho, relacionamentos e lazer só pra não viver o desprazer de alguém começar a contar uma “ingênua” história sobre alguém que não estaria ali para esclarecer os fatos ou se defender. Também aprendi aí que certas informações podem não ter nada demais em serem compartilhadas mas… “pra quê mesmo eu preciso falar sobre algo”, ou “será que alguém precisa mesmo saber disso”?

A outra lição vinha de um dito bem conhecido, algo como Palavra é que nem pedra. Dessa metáfora entendi que com as coisas que eu dizia poderia construir castelos ou masmorras, poderia atira-las e nunca mais conseguir trazê-las de volta, poderia matar ou defender alguém de um monstro perverso. Nem sempre conseguimos pensar bem antes de falar, é quando as pedras rolam soltas de um lado para o outro e depois, cheios de feridas, tentamos nos recompor. Mas as pedras lançadas não voltam mais.

Com budismo e meditação tenho aprendido a valorizar cada tensão, ansiedade, medo, frustração e dúvida. São, muito além de desconfortáveis, oportunidades de praticar o que tanto se fala, lê e acredita. Só se doma leões visíveis. E é tocando esses momentos que tenho aprendido a medir, inclusive, minhas palavras. Longe de mim querer ser perfeita, mas acredite no que vou dizer: quanto mais humana você for com uma pessoa, mais humana ela será com você. Quanto mais tranquila for sua voz, mais tranquila ficará a outra voz. É medindo suas palavras que muitas vezes você ajudará alguém a medir as dela também. Mas, se não der pra ser cirúrgico, desabafe e fale o que precisa. Palavra vira veneno se não for bem digerida e excretada.

O que meu amigo dizia na frase era exatamente isso. O poder do que você fala é maior do que você. O insulto que você faz é maior do que o abraço que você pode ou não conseguir dar pra pedir desculpas. Pois o que você fala pode ter um peso que você conhece, mas o que o ouvinte processa pode ter um peso que nem mesmo você seria capaz de carregar, perdoar, esquecer…

Por outro lado, quantas vezes nos sentimos muito melhor depois de ouvir um “Obrigada” sincero e despretensioso? Depois de recebermos um elogio no meio do turbilhão da rotina, de ouvirmos que somos amados ao acordar ou antes de dormir?

As palavras que você usa são maiores que você, parça… Ainda que você se sinta no direito de usa-las, talvez você não esteja preparado nem seja capaz de arcar com as consequências do poder que elas têm. Por isso, escolha as mais leves. E se precisar usar as pesadas, use as leves antes pra avisar que usará as pesadas. Procure sinônimos. Permita-se eufemismos se for o caso. Respire, pense, tenha certeza do que vai dizer, do que quer ouvir.

Seja gentil com as palavras. Elas são maiores que você.

O Calabouço da Alma

Hoje vim falar de Depressão. Além disso quero contar como vejo o lugar que ela habita dentro de nós. A conversa é entre os que sabem quão escura uma sala pode ficar por mais luz que ela receba. Quando falo de sala quero conduzi-los metaforicamente ao cômodo de onde ela vem, aonde ela come, adormece e de onde ela surge com uma força tremenda que nos faz pensar que a morte pode ser a única solução. Respire fundo, vamos falar de Depressão.

A ideia de escrever sobre Depressão veio de um amigo que tem passado por essa experiência em seu convívio familiar. Confesso que já havia pensado em trazer o tema, mas exatamente por já ter experimentado bem de perto preferi não tocar no assunto/ferida. Quem já passou por uma crise e viveu seus pormenores (automutilação, vícios, tentativa de suicídio, baixo rendimento profissional e escolar, etc) já visitou o calabouço da sua alma ou foi sugado por ele, como acontece na maioria das vezes. Apesar de ter formação em Psicologia não quero falar em termos técnicos justamente por não serem tão compreensíveis. Falarei como ser humano mesmo, ok?

Ao contrário do que muita gente pensa, uma pessoa não “se entrega” à doença, ela lida com as melhores ferramentas que tem e nem sempre são suficientemente eficazes. Depressão acontece com seres humanos, não tem cor nem conta bancária que proteja ninguém. As crises seguem periodicidade própria do indivíduo, intensidade relativa, acontece diferente porque as pessoas são diferentes. A única coisa igual é que todos se sentem trancados no calabouço da alma.

Quando falo em calabouço quero que você imagine aquele cômodo característico de casarões e castelos. É o andar mais profundo, geralmente utilizado como prisão, armazém ou porão. Atualmente ainda possuímos esse espaço em nossas casas: aquele porão, aquele armário atrás da cozinha, o quartinho dos fundos ou mesmo aquele canto da garagem. Na alma/mente também temos esse lugar e é pra lá que vão os medos, traumas,  excessos, alguns sonhos, desejos, segredos, mentiras, amarguras, arrependimentos, etc. Seu calabouço pode estar organizado ou não, mas sempre terá esses conteúdos que são seus, e que você não quer/precisa ver pela casa no dia-a-dia. O que quero dizer é que assim como você não sabe se livrar facilmente de uma tralha há muito tempo em desuso na sua casa também não sabe como se livrar da tralha que está oculta na sua alma. Primeiro porque você nem sempre sabe o que tem no calabouço porque não o visita todos os dias. Segundo porque das vezes em que teve contato com esses conteúdos ou se sentiu muito fraco pra lidar com ele e joga-los fora ou se apegou porque de alguma forma achou que um dia poderia ser necessário e achou melhor deixar lá mesmo.

Tralhas no calabouço são alimento pra Depressão. Não estou dizendo que o segredo pra cura dessa condição é limpar ou tocar fogo no calabouço, até porque lá é também um local seguro pra algumas memórias importantes. Mas a forma como lidamos com esse compartimento da alma vai orientar as crises que podemos vir a ter.

Quando o calabouço da alma está em crise, tudo é escuridão. Somos feios, sem importância, tudo é dor e sofrimento. Por favor, nada de culpa. Depressão não é castigo, não é karma, é uma condição. Acredito que mesmo depois de uma crise terminar essa condição se torna uma constante na sua vida e é você quem vai determinar o peso que ela vai ter. Porque assim como ninguém passa pelo mesmo rio duas vezes por ser outra pessoa na segunda vez, quem supera uma crise nunca mais é o mesmo. E digo isso de forma positiva, porque na superação de uma crise de Depressão encontramos também novos sentidos: sentido pra própria vida, pro próprio sofrimento, pra tudo. Depois de um longo deserto aprendemos a valorizar cada gota de chuva que cai do céu.

Aprendi como ser humano que é normal ficar triste, sentir-se frágil diante de grandes problemas, incapaz diante de desafios e sonhos. É exatamente esse sentimento que pode nos impulsionar além do desejo de solucionar essas questões. A partir do momento em que preferimos ficar em casa, no quarto, dormindo pra não ter que enfrentar nossos problemas e evitar toda forma de convívio social por sentir vergonha dessa fraqueza é porque algo suga toda nossa essência. E passo a passo, arranjando desculpas e mentindo pra nós mesmos chegamos ao calabouço da alma. Nunca saberemos se caminhamos até ele ou se fomos sugados sem perceber.

Não tenho uma receita pra sair desse lugar. Não tenho um mantra poderoso pra não deixar que aquela porta se abra. Mas aprendi que quanto mais eu for verdadeira, racional, carinhosa e paciente com minhas tralhas, menos escuro e sujo fica meu calabouço. E cada vez que preciso descer até lá é menos doloroso, às vezes é até normal: desço, acendo uma lanterna, pego alguma coisa numa caixa e saio. Também jogo fora o que não é mais útil sempre que posso, assim ele fica menos amontoado e diminui ácaro e cupim.

Num mundo aonde “precisamos” ser perfeitos seres saídos de uma foto do Instagram fica muito difícil lidar com calabouços e tralhas. Acredito que o alarmante número de incidências de Depressão é também consequência de uma enorme incapacidade de lidar com a própria essência humana. Somos ensinados e cobrados para sermos qualquer coisa, menos nós mesmos. E quando não vemos sentido nisso ou não conseguimos bater a meta da vida de mentira, o calabouço chama. Então, se você também já passou por uma crise depressiva, parabéns. Você teve a chance de dar um significado diferente à sua vida. Espero que você possa, assim como muitas pessoas, chorar e sorrir.

Emoções são dádivas. Saiba aproveita-las e ao invés de controla-las, prepare-se para não ser controlado por elas.

Um beijo e um abraço bem apertado em todos os queridos “blues”.

Namastê

Para curar um Coração Partido

Hoje pela manhã vi uma postagem que despertou minha solidariedade, ainda que por um motivo “bobo”: um coração apaixonado e partido. Bobo porque o amor é bobo quando está totalmente entregue, sem domínio de si e sem noção de limites para sofrer. Lembrei de todas as vezes em que meu coração foi ao chão, partiu-se em pedaços e depois tornou-se meu tesouro.

Para curar um coração partido é necessário um copo, uma garrafa ou qualquer coisa que te permita se entregar ao sofrimento no momento mais importante da dor: quando ela vem junto com uma verdade que você daria a própria vida pra ser mentira. O dom do álcool é de baixar nossa guarda e raciocínio, então a gente sofre de verdade, fala o que tem pra falar, chora o que tem pra chorar. Algumas pessoas precisam de somente de uma garrafa, outras de um senhor porre. Há ainda quem se entregue a uma fase inteira de sofrimento regado a álcool e que ingenuamente tenta disfarçar cantando refrões como “Tô solteiro em Salvador”, mas quem está bem percebe quem está mal, e é por isso que essa pessoa sempre volta pra casa sozinha ou acorda insatisfeita na manhã seguinte.

Coração partido que se preze tem uma playlist pronta pra escutar quando alguém joga a toalha. Se você não tem, recomendo essa aqui (não é minha mas acho que é do gosto da grande maioria). Não tem nada melhor que chorar 2 horas seguidas ouvindo a mesma música programada pra repetir até o mundo acabar. Poderia citar as minhas aqui.. Mas aí seria revelar demais da minha intimidade e o Travessias não é pra isso! Mas libero aqui alguma coisa que já me ajudou a botar a tristeza pra fora:

Still Loving You- SCORPIONS , 
Hello- ADELE, 
My Immortal - EVANESCENCEEqualize - Pitty, 
Everybody Hurts - REM, 
Nothing Compares 2U - Sinéad O'Connor, (essa é forte!)
Beware of Darkness - George Harisson, 
Fields of Gold - Eva Cassidy,
etc etc etc

Um coração partido precisa de amigos de verdade. Aqui cito como exemplo uma amiga que estava super bem mas me acompanhou em cada degrau da dolorosa descida ao poço que vivi uma vez. Amigos de verdade reservam um espaço no coração deles pra sentir com você o que quer que você esteja sentindo. Então não custa nada ligar pra eles, visita-los ou aceitar os convites mais sem graça que eles possam fazer a você nessa fase: eles podem ser aquela corda que você precisa pra sair dessa, meu chapa.

Uma vez em cacos, um coração partido precisa de cola, tempo e carinho. Não deu certo? Paciência. Se você perdeu um grande amor, saiba que você não perdeu a capacidade de amar novamente, porque seu coração pode estar aos pedaços, mas ele ainda está aí dentro de você! Arregace as mangas, mãos à obra. Vamos colar os pedacinhos.

Quando um amor se vai, há que se fazer uma faxina e colocar numa caixa tudo o que ele esqueceu de levar consigo e dar um jeito de tirar de perto de você. O sofrimento não vai passar ao final do dia, mas uma faxina na casa, na vida e na alma com certeza vai te permitir respirar um ar mais limpo, livre da escuridão que o amor que foi embora deixou na sua vida. Vai amenizar a dor, eu prometo. E se você estiver precisando perder peso, olhe-se no espelho. Bingo, mais magra! Hahahah sim, eu sempre vi isso como algo bom quando esse tipo de coisa me acontece e aproveito pra usar todas as roupas que os quilinhos a mais não me permitiam. Vista sua roupa preferida e vá dar uma volta, vá comprar pão, pagar uma conta. Apenas vá viver um pouco(mais leve depois da faxina).

Coração partido tem boa memória. Então, se você automaticamente vai se lembrar daquela pessoa quase sempre (sem eufemismo sempre no intervalo entre um pensamento e outro), evite redes sociais. Abra mão das desculpas que podem surgir pra você ver o perfil dele (a), do amigo dela (e), apenas PARE. O que acontece com quem está tentando parar de fumar toda vez que vê um cigarro? Pois não queremos que isso aconteça com você. Então respira fundo e apaga esses aplicativos. SE quiser, ponha uma meta. No máximo você vai ficar até menos dependente do seu celular e de memórias que não te farão bem agora.

Filmes, livros, amigos, Tv, tudo o que puder preencher sua cabeça de forma a te fazer pensar em outras coisas, CONSUMA. Mas seja prudente, jovem. Lembra daquele curso de inglês que você queria fazer e não tinha tempo? E a academia, era no mês passado que você ia voltar, não era? Cadê aquele seu amigo que você não visita há tanto tempo, e aquela cidade que você sempre quis conhecer … Por que não AGORA? O presente é tudo o que você tem, então use-o a seu favor. Encha esse coração com novos sonhos, desejos SEUS, semeie interesse e amor por hábitos, causas, plantas, pela sua vida. Que tal voltar a viver um pouco?

FAÇA LISTAS! Senhores, eu AMO listas. Todas as minhas listas tem um propósito e nunca me deixaram na mão. Por isso considero altamente recomendável, principalmente AGORA:

  1. Lugares que eu quero conhecer
  2. Comidas que ainda não provei
  3. Livros que quero ler
  4. Filmes que preciso assistir
  5. Pessoas de quem preciso pedir desculpas
  6. Pendências na faculdade
  7. Pendências no trabalho
  8. Pendências em casa
  9. Hábitos que quero ter
  10. Hábitos que quero abandonar 
  11. Listas listas LISTAAAAASSSSSSS (perdão, sempre me empolgo com listas).

Talvez pare de doer no mês que vem, talvez só em 2019. Mas o que vai fazer diferença é o que você vai estar fazendo com sua vida enquanto seu coração se recupera. Continuar sofrendo e alimentando essa dor, transformando essa perda numa causa pro resto da sua vida não é saudável. Simplesmente encare o sofrimento, mas não se entregue. Se você tem alguma crença, abrace-a. Se você é como eu e gosta de ficar num monastério imaginário em silêncio total, dane-se o mundo, tranque a porta. Mas não se permita um coração remendado, não aceite sobras nem fantasmas na sua vida. Essa é a única chance que você tem pra viver tudo o que puder. Aproveite cada segundo, seja ele de dor ou de alegria.

No fim as coisas se ajeitam. Todo término é também o encerramento de um ciclo, e todo ciclo traz renovação e continuidade. Não deu certo? Paciência. Mas você viveu uma história que te tornou mais forte e experiente, mais consciente da sua capacidade de ferir e ser ferido, de amar e ser amado. Podem bater o pé e dizer que só dá pra amar uma vez na vida. Eu prefiro dizer que sua única obrigação nessa vida é aprender a SE AMAR. Todo o resto vem no combo!

Namastê!

 

Quantas vezes você já sentiu MEDO hoje?

Posterguei ao máximo escrever aqui sobre minha saída do Brasil. Além de fazer questão de preservar minha privacidade, não é fácil falar daquilo que me frustra, angustia e causa medo. Então esse texto será o relato de uma jovem que por sentir muito medo resolveu sair de onde estava e hoje só tem medo de precisar voltar.

falei sobre quão chocada estou com o momento que o Brasil está vivendo. Em paralelo minha amiga Vivi falou também sobre como se sente estando no Brasil mas sonhando em procurar seu lugar ao sol um pouco longe dele. Leitores, o que não escrevi nesse parágrafo mas está explicitamente implícito é que sentimos medo, muito medo.

Quando ainda morava com minha mãe numa area da cidade que não me fazia sentir segura, vivi situações que me marcaram pra sempre. Acho que o desespero e a raiva estão enraizados no comportamento criminoso de um jeito que só umas 5 décadas de educação poderiam amenizar esse grave problema social. Entendi que não conseguiria ter tranquilidade pra realizar minhas tarefas se a todo momento precisasse olhar pra todos os lados, andar acompanhada, evitar ônibus e ruas depois das 19h e estar sempre disposta a viver o último dia da minha vida. Se você nunca precisou voltar de ônibus da Ufam até a Cidade Nova de segunda à sexta às 22h, você dificilmente vai entender o que estou falando. Sei que muitos leitores já tiveram uma rotina parecida, então talvez não seja tão difícil de imaginar quão acelerado batia meu coração na hora de voltar pra casa. Eu vivia com medo.

Todas as vezes em que viajei escolhi lugares aonde eu pudesse andar sozinha, usar o transporte público e me sentir segura. Quando voltava pra minha cidade sempre sentia um peso enorme no pescoço, uma sensação de perigo iminente. O que muitos chamariam síndrome do pânico eu chamo de senso de realidade mesmo. Minha sensibilidade a manchetes sangrentas aumentava conforme eu conhecia outros países. Lembro bem de certa vez estar no Uruguai durante meu sabático e ouvir no rádio que o país inteiro estava aflito com o sequestro de uma médica. Perguntei a uma pessoa se ela tinha algum cargo público importante ou se era esposa de alguém da alta sociedade. A pessoa me olhou com espanto e perguntou “se precisava ser alguém importante pra que um sequestro fosse grave”. “Aqui não se sequestra pessoas! Isso é muito sério!”. Pausa para o leitor repensar seu conceito de sensibilidade ao crime.

Quantas vezes li no jornal que alguém foi morto a facadas e simplesmente virei a página do jornal? Quantas vezes você soube que fulano foi assaltado enquanto voltava do trabalho e continuou suas atividades como se não tivesse escutado nada?

Ao contrário do que uma leitora comentou no texto sobre concursos de beleza, que “não é porque o mundo é cheio de problemas que não devemos ter um pouco de felicidade“, é exatamente essa cegueira social que desenvolvemos pra sofrer menos com as condições sociais do Brasil que nos torna menos sensíveis, menos humanos! Nos enganamos pagando condomínios caríssimos, vigias, blindando carros e chamando de “chique” ter casas com monitoramento por câmeras.

Desde quando é motivo de felicidade gastar tanto? Quando Felicidade passou significar enclausurar-se com elegância pra se sentir seguro?

A cegueira emocional, moral, a insensibilidade e a falta de senso de realidade nos amortece pro que de fato é importante. Foi quando eu acordei pra minha realidade que tive a consciência de que meu salário poderia aumentar com o passar dos anos, mas eu nunca estaria livre pra andar de casa ao supermercado sozinha. Eu poderia frequentar os melhores restaurantes, estar cercada das pessoas mais brilhantes da cidade, mas eu jamais teria a oportunidade de voltar pra casa sozinha com os vidros do carro abertos. Ainda que eu falasse língua dos anjos, um homem que cruzasse meu caminho numa rua escura dificilmente me deixaria passar sem fazer um comentário ofensivo (é elogio que fala, senhores?) ou mesmo estampar no meu corpo a marca da sua “masculinidade”. Não é exagero, é a realidade.

Morei fora do Brasil duas vezes, mas foi em 2018 que o Universo alinhou suas forças e pude sonhar, planejar e realizar minha travessia até o outro lado do hemisfério. Bem aqui aonde estou finalmente ando de lá pra cá sem medo.

Aqui comecei a perceber quantas vezes sinto medo por dia e quais temas me despertam esse sentimento. Sinto muito pelo que vou dizer, mas meu único medo hoje é de precisar voltar e com isso perder a sensibilidade que conquistei, de ter que abrir mão da qualidade de vida que encontrei aqui. Apesar de todas as dificuldades que qualquer mudança de país traz, me sinto muito mais feliz que quando possuía todo tipo de “segurança” no meu país (profissional, financeira, social, afetiva). O respeito que vejo as pessoas terem umas pelas outras aqui sei que só em muitas décadas poderia ver com frequência no Brasil.

Muitos podem achar minha visão do Brasil muito pessimista. Reafirmo: é senso de realidade. Quer ver como eu tenho razão?

Sem pensar muito, responda a seguinte pergunta: você deixaria seu filho voltar pra casa de ônibus sozinho sem sentir medo?

Repensar o medo e seus conceitos de segurança não vai custar caro, eu prometo.

Minimalismo: um estilo de vida que faz bem ao bolso e ao coração.

O documentário “Minimalismo” (Minimalism em inglês) surgiu a partir do livro The Minimalists, de Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus. Ryan inicia o documentário falando que tinha êxito na vida, que era reconhecido pelo sucesso alcançado MAS era infeliz: “Na verdade tentava preencher um vazio na minha vida, assim como fazem muitas pessoas: com um monte de COISAS.” Ao contar que gastava mais do que ganhava e que trabalhava para comprar as coisas que  preencheriam seu vazio, afirma que isso não era viver de verdade.  Quantas e que coisas preenchem seus vazios?

Jesse Jacobs dá o exemplo do hábito de trocar de carro. GERALMENTE o primeiro carro gera a sensação de incrível satisfação pela utilidade, pelo sentido de crescimento financeiro, pela conquista de uma liberdade maior. O segundo carro surge porque o primeiro já não nos parece mais interessante. É mais um vício que uma real necessidade. Quantas vezes você já ouviu de um amigo (ou você mesmo ja disse) que precisava vender seu iphone 7 pra comprar o 8? O aparelho está em perfeitas condições, mas o vazio dentro de nós precisa ser preenchido com a nova versão de qualquer coisa. Já pensou em investir numa versão melhor de você mesmo?

O documentário reúne profissionais que de alguma forma estão relacionados com a indústria do consumo e relatam de que forma o minimalismo afetou suas escolhas pessoais e profissionais. Um deles é Graham Hill, fundador do LifeEdited, uma consultoria para projetar espaços inteligentes com qualidade, eficiência e custo justo. Ele começou a transformar seu pequeno apartamento num espaço aonde pudesse morar e trabalhar, ficar só ou receber 10 pessoas. Graham fala da ideia de ser feliz com menos tendo em vista o custo, estresse e espaço necessários pra armazenar coisas. Aqui você pode assisti-lo num TEDTalk falando da quantidade de espaço que geralmente temos em casa e qual o espaço que realmente habitamos nela. E você, já usou todas as roupas e sapatos que ocupam um terço do seu quarto?

Um tema importante abordado nessa obra é a influência que a propaganda tem na vida das pessoas. Além de transformar as pessoas em puppets, a propaganda dita padrões totalmente forjados. A ilusão de como a vida deve ser está presente em todas as formas de mídia: seja pela publicidade, pelo Instagram ou pela TV. O neurocientista Sam Harris comenta que é natural ousar a vida das outras pessoas, mesmo vidas imaginárias, como referências para nossas vidas. É completamente comum que hoje em dia as pessoas tenham como projeto de vida se tornar tão bem sucedidas como Fulano, magras como Ciclana, divertidas e bem relacionadas como Beltrano. Quantas vezes a gente comprar uma peça de roupa porque vimos alguém no Instagram usando? Não temos coragem de assumir nas nossas redes sociais que odiamos nosso trabalho, que nosso casamento acabou ou que não estamos satisfeitos com o que nossos amigos tem feito conosco. Você pode até argumentar que a vida já é dura demais pra compartilhar tristeza, mas desde quando é saudável publicar mentiras?

Minimalismo trata dessa invenção de necessidade material (que na verdade é um escape pra constante busca de sentido e satisfação naturais do ser humano) e de como vamos acumulando coisas e necessidades que se postas à prova, não fazem a menor diferença na vida das pessoas. O que a obra propõe é que as pessoas prestem atenção em quais são seus reais desejos e necessidades, que assim descubram outras alternativas para preencher seus vazios que não sejam o consumismo ou satisfação material. Um deles inclusive alerta para uma atenção ao que realmente tem valor para cada pessoa: seus melhores momentos ou suas melhores coisas.

Espero que seja vantajoso pra você assistir a esse documentário. Permita-se refletir sobre o que de fato você precisa pra viver, até aonde vai sua necessidade de compra e armazenamento e qual importância você tem dado pra esse vazio que não diminui nem para de aumentar.

  • Você também poderá conferir uma reportagem sobre o documentário feita pelo canal Repórter Eco aqui.
  • Trailer oficial do documentário aqui. Você pode assistir no Netflix.
  • Website que deu origem ao livro The Minimalists aqui.

“É o sonho de toda garota”: as mentiras que as mulheres contam

Nunca gostei de concursos de beleza. Sempre achei injusto comparar (só pelo corpo) uma mulher com outra e não me vejo aplaudindo essa natureza de competições. Soube que ontem uma amazonense ganhou o concurso de Miss Brasil e esse título vinha sendo muito esperado nas últimas décadas. Confesso, estou chocada com a comoção pública por conta dessa conquista. É isso mesmo, podem me julgar, mas eu esperava mais de vocês, mulheres.

Com todo o respeito do mundo, tenho mil razões pra discordar de quem gosta e se dedica a de concursos de beleza. Sendo uma mulher do séc 21 consciente de todos os problemas que inúmeras mulheres ao meu redor enfrentam e mesmo assim tendo escolhido um estilo de vida impossível pra minha avó na juventude dela, faço questão de expressar minha profunda decepção com nossa última “conquista”.

  1. Um concurso de beleza avalia sua capacidade de se adequar a padrões de beleza. Não sei como era no passado, mas é completamente injusta e insensata uma competição em que pessoas com cirurgias estéticas competem com pessoas sem cirurgias. Ou seja, a menina que mais se adequar ao padrão estético do momento ganha (independente de ser toda modificada ou não).
  2. Um concurso que avalia o corpo de uma mulher num momento em que se discute o amor próprio feminino, a liberdade desse corpo e inúmeros crimes de estupro, abuso sexual infantil e assédio sexual no ambiente profissional com certeza está de olhos fechados pro que realmente é importante ser discutido, avaliado e premiado a nível nacional. Não tenho estômago pra ver 15 meninas em vestido de festa competirem entre si pra ver quem é mais bonita enquanto outras 15 mil são violentadas, assassinadas e tem a juventude roubada. Com todo o respeito, não consigo. Perdão, sociedade. Sei que muitas das participantes até tem esse tipo de preocupação, mas precisam focar na dieta e no cronograma de eventos, estar sempre LINDA e mostrar o melhor sorriso nas fotos. Não importa o que elas pensam, importa se são fotogênicas ou não.
  3. Qual a relevância social dessa natureza de concurso? De que forma isso impacta na vida de mulheres que não têm acesso educação, por exemplo? Quantos homens deixam de agredir mulheres depois que a miss do seu Estado vence a competição nacional? Por favor, me ajudem a encontrar uma razão relevante pro desenvolvimento humano e eu com certeza não me oponho mais aos 6 meses de preparo pra por uma coroa, uma faixa e sentir orgulho de … nada. Ok, de ser a linda que representa seu país no meio de outras lindas. O que mais??? Acabou?
  4. Anorexia. Bulimia. Compulsão alimentar. Todo anúncio de beleza tem um objetivo, qual é o do Miss Brasil? Ser linda, perfeita. Se vocês homens soubessem do que uma mulher é capaz de fazer pra ser linda e perfeita, ficariam chocados. Nós temos um histórico de adequação a padrões de beleza e não é de hoje que vivemos nessa prisão caladas. Aquelas meninas tem saúde? Conseguem passar pelos meses de preparação sem tomar remédios ou parar tudo na vida pra conseguir manter o foco? Respeito todas elas, mas também tenho muita pena.
  5. O mundo que sonho pros meus filhos tem aplausos pra amazonenses descobrindo a cura de alguma doença grave, tem jovens sendo premiados por envolvimento social com projetos do 3o setor, tem homens repreendendo os amigos que fazem um comentário maldoso de uma mulher pra se sentirem mais machos do que realmente são. O futuro que eu quero tem ruas desertas com homens que vão me abordar pra perguntar as horas e só, tem campanhas publicitárias da nike com gordura aparecendo e garotas se sentindo lindas como realmente são. Mas infelizmente o mundo em que vivemos está repleto de mulheres LINDAS se transformando em bonecos, em mentiras e ensinando as outras aonde ir pra ser uma mentira ambulante também.

Pronto, desabafei. Aceito todas as pedras e palmas, pois estou ciente de que opinião é algo individual. Só peço pra não ouvir comentários como “ela é mal amada, por isso tá criticando a mulherada bonita”, “isso aí é falta de sexo”, “isso aí é inveja”, “se fosse bonita não tava defendendo as feias” e o campeão “só pode ser sapatão”.

Caríssimos, não é o sonho desta garota que vos fala e de muitas outras ser perfeita, melhor que outras e se adequar a padrão nenhum. Quando ouvirem alguém justificar seu desejo de ser miss dizendo que “é o sonho de toda garota”, saibam que é uma grande mentira.

Quando os espelhos dão conselhos: a idade chega para todos

“A mulher quando é moça e bonita nunca acredita poder tropeçar. Quando os espelhos lhes dão conselhos é que procuram em quê se agarrar.” Castigo – Lupicínio Rodrigues 

Mais da metade das vezes que alguma mulher de mais idade me falou que a beleza acaba não entendi a motivação do conselho e o que de fato ele abarcava com conceitos de beleza e juventude. Ainda não me considero tão experiente quanto aquelas senhoras, mas acho que comecei a entender o que elas queriam dizer com “Beleza acaba, menina”.

Beleza é um conceito muito amplo e gosto de pensar que está presente em várias fases da vida, inclusive na juventude. Mas pele de pêssego e corpinho no lugar passam num estalar de dedos, vão embora de foguete se você não se ligar. Por juventude podemos entender tudo aquilo que existe numa proporção característica daquele momento, por um propósito específico. Queridos, não faz sentido nenhum pra Natureza qualquer ser vivo ser jovem pra sempre. É agora que começa o texto de hoje.

Beleza e juventude passam. Ainda bem!!!

Nem vou começar a criticar as imposições e gaiolas douradas que nos cercam desde a mais tenra idade. Padrões em geral tornam a vida mais difícil e castram qualquer natureza selvagem, o que é muito bom pra organizar uma sociedade e péssimo pro desenvolvimento de indivíduos (pessoas diferentes, autênticas, unicas). Com o advento da tecnologia a humanidade vem adotando novas referências e reformulando padrões, o que pode ser bom ou ruim. Se há 100 anos uma mulher farta era sinônimo de saúde e beleza, hoje é motivo de preocupação e horas de academia. Ficou clara a relatividade e mudança de padrão?

Pois o objeto juventude (e com ela a beleza) de hoje parece-me um bem de consumo. Temos cada vez mais medo de perde-la, gastamos cada vez mais com sua manutenção e não nos sentimos bem quando nossos esforços para mante-la não são reconhecidos (e dizem que parecemos mais velhos ou que estamos “meio acabadinhos”). É um terrorismo essa propaganda do Forever Young, minha gente!

Sem hipocrisia alguma, adoro a ideia de parecer mais jovem ou conservar uma beleza juvenil, pago botox se me der vontade sim! A pergunta importante que deve ser feita aqui é: A partir de que momento esse desejo de esconder uma linha de expressão me liberta do desconforto de te-la e me escraviza a um padrão que eu nem sei se realmente serve pra mim? POR QUE essa linha de expressão me incomoda, por que eu preciso esconde-la de mim mesma pra continuar me sentindo bem comigo mesma?

Que bom que a juventude passa, ainda bem que passamos por mudanças: elas nos possibitam novas sinapses, corpos mais adaptados, menos sofrimento pelas coisas desimportantes, mais tempo investido nas coisas certas. Envelhecer é uma atitude, vai acontecer diferente pra cada pessoa e trás os resultados do plantio feito na juventude. Então, ao olhar-se no espelho, não é só um corpo que está jovem e bonito ou não que vemos. É o reflexo de quem nos tornamos e de quem poderíamos ter sido que os espelhos revelam.

Acredito estar em 45% do meu trajeto por essa vida. Com a minha juventude tive e ainda tenho grandes conquistas e aprendizados inesquecíveis. É maravilhoso sertir mais segurança e autonomia inclusive sobre si mesma! Dos conselhos que meu espelho tem me dado, ou seja, dos resultados das minhas vivências, posso citar os mais signiticativos pra mim:

  1. Pra me qualificar não preciso desqualificar ninguém.
  2. Se está tudo bem, ótimo. Se não está, posso tentar resolver. Se não conseguir, paciência.
  3. Tudo passa, tudo muda. Não há motivos pra se fixar a qualquer coisa que provavelmente vá passar também.
  4. O apego só vale a pena se você for bom em desapegar.
  5. Comer é muito bom, mas andar rápido, subir escadas e não precisar de comida pra se sentir bem é ainda melhor.
  6. Não existe vilão nem mocinho. Todo mundo já fez mal pra alguém um dia.
  7. Relacionamento não precisa ser uma meta, mas um meio. Relacionamento é um dos meios pra se ter uma vida bacana. Há outros também!!! Ninguém precisa de alguém pra ser feliz.
  8. É melhor decidir no dia seguinte. Se puder ter uma noite de sono pra resetar o cérebro e organizar as emoções, permite-se.
  9. Tudo vai fazer sentindo em algum momento, não precisa se desesperar. Opção “a” não deu certo? Pois gora você tem todas as outras letras do alfabeto.
  10. Conhecimento não se adquire por osmose. São necessárias muitas horas com a bunda na cadeira pra se pensar em dar uma opinião sensata, interessante e relevante. Do contrário, o silêncio sempre será o pretinho básico (vai bem em qualquer ocasião).
  11. Todo dia temos a chance de aprender alguma coisa. Não existe verdade absoluta. Todo mundo tem sua razão. O seu espaço começa aonde o meu termina e discutir ideias sempre será mais interessante que falar da vida de alguém.

E você, gosta da juventude que tem/teve? O que aprendeu até hoje?

 

O preço da Liberdade

Imagem de mosaicotidiano

Já nascemos morrendo, e mesmo sabendo que isso é um fato, temos a liberdade de escolher como viver. Nascemos com a chance de aproveitar o tempo que nos foi dado, o crédito da Vida. A ânsia pela liberdade é uma constante, a decisão de consegui-la é um marco. A conquista da liberdade é… ainda não sei.

 

Aceitei o desafio de escrever sobre o preço da liberdade. Esse tema me dá arrepios, pois sei bem quão cara ela pode custar. Pra não me perder pelas palavras, formas de liberdade surgirão em tópicos. Talvez eu esqueça de algo ou de muita coisa. Paciência, escrevo como se estjvesse numa conversa, tudo surge naturalmente.

Tentando lembrar das minhas libertações encontro nos primeiros capítulos uma silenciosa desbravadora escolhendo os livros como caminho pra uma liberdade que imaginava existir, mas não tinha ideia de como era e de quanto custaria.

  1. Essa liberdade de pensamento que tanta gente criticou no passado hoje é oferta de 1,99 na palma da mão. Mas ela precisa de senhas, fórmulas, palavras-chave que a mente mergulhada no senso comum não consegue facilmente. É triste, mas de um total de pessoas com acesso aos fatos, menos da metade sabe o que é um fato e menos ainda chegará nele. Motivos? Outras prisões. Quem vai procurar pelos fatos quando a vida pessoal dos artistas é mais interessante? Mais preocupante é que algumas de nossas opiniões são na verdade fruto da falta de opinião própria (seja por falta de oportunidade de desenvolve-la ou  preguiça de pensar mesmo). Tenho horror a isso, nem consigo continuar o parágrafo.
  2. Nossas crenças nos libertam ou nos aprisionam. Às vezes as duas coisas. Seja produto do que for, aquilo que você tem certeza ‘absoluta’ que está certo te distancia do que está errado (do seu ponto de vista) e… os anos sempre ensinam que ter certeza demais não é nada sábio. Sempre há algo a se descobrir, a ser melhor entendido, mais adequadamente elaborado. Isso se aplica aos sentimentos, acredito eu. Libertar -se dos nossos monstros infantis, dogmas religiosos e amarras ideológicas nunca é fácil, pode custar até uma vida. Aliás, até que ponto os seus sonhos te impedem de viver o aqui-agora?
  3. E dos desejos, quem tem coragem de falar? A palavra dieta, por exemplo, faz minha boca doer toda vez que pronuncio. Dieta fala de padrões, de autoestima, de autodestruição. Libertar -se dos desejos é tão difícil que quase todos nós passamos a vida inteira lutando contra algum vício, seja o de trancar a porta duas vezes ou de comer doces. Há quem consiga pagar, há quem arranje desculpas pra viver com juros. E por desejos leia-se todo tipo de desejo. Até que ponto algo te dá prazer sem te escravizar?
  4. Passado, lembranças, lutos. Nossas memórias nos identificam, dizem muito de nós. Abrir mão daquilo que também nos formou não é facil. Viver num calabouço preso a memórias que magoam mais que alegram pode ser um fardo pra uns, mas livrar-se dele pode ser a própria morte pra outros. Não podemos julgar, mas há quem precise sofrer pra viver. Não sei dizer o que sai mais caro pra essas pessoas, a eterna goteira ou o recomeço e seus desafios.
  5. Liberdade financeira queremos ter desde que descobrimos as funcionalidades do dinheiro. Tem que o atribua ao poder, há quem prefira a segurança e quem só queira qualidade de vida. Mas pra qualquer tipo de vida, aprendemos que precisamos de dinheiro. Trabalhar cedo, tirar vantagem dos ingênuos, abrir mão de tudo pra trabalhar e ganhar mais, até de comer ervilha no Ano Novo pra ganhar rios de dinheiro somos capazes tão grande é nosso desespero pela sonhada tranquilidade financeira. Mas alerto você pra uma prisão que se configura aqui: até que ponto precisamos de tudo isso? Quando é que deixa de ser o sonho da casa própria e passa a ser uma escravidão, uma submissão? Pense nisso antes de achar normal ganhar mais pra comprar o carro do ano. Pense nisso antes de vender sua alma e deixar a vida passar pelos seus olhos e não poder abraça-la.
  6. Tem uma liberdade mais sutil que não  sei explicar. Definiria como “libertar-se de si mesmo”. Você se motiva e se sabota (faz escolhas incoerentes). Se respeita e se destrói (põe uma roupa nova pra se sentir bonito mas se alimenta do que faz mal).  Se ama e se odeia. Se aceita e se rejeita. Até que ponto somos livres das nossas próprias contradições? Quando é que criticar a si mesmo deixa de ser um exercício de crescimento e vira baixa auto-estima?

O que me sinto capacitada pra dizer é que não é fácil libertar-se de estigmas, de problemas familiares, traumas juvenis, amores mal resolvidos, relações abusivas, círculos viciosos, muito menos de si mesmo. Às vezes pra conquistar a liberdade a gente tem que se entregar e confiar. Soltar. Fechar os olhos, apertar o botão. Ir embora sem olhar pra trás. Escrever e enviar, decidir e agir.

Finalizo com algo do Bukowiski que sempre me fez bem e mal. Fala da gaiola que você tem na cabeça, na essência… no coração. Obrigada por ter chegado até aqui, um abraço!

 

Segunda-feira tem dica de leitura (larga um pouco o celular)

Segunda-feira é o dia mundial do recomeço (para quem trabalha e faz tudo certo de seg-sex mas deixa tudo pra lá no final de semana). Também é o dia em que prometemos começar um hábito ou continuar aquele projeto que precisa ser finalizado. Não é à toa que seja um dia tão hostilizado! 

Aproveitando a onda de promessas e overdose de determinação, quero indicar um livro toda segunda-feira aqui no Travessias. Lê quem quiser e tiver tempo, quem não gostar apenas segue em frente. Se você tiver algum livro pra me indicar também, fique à vontade!

Hoje vou falar de um livro que estou terminando de ler. É uma espécie de transcrição da conversa entre os autores Leandro Karnal e Monja Cohen. A leitura é muito fácil, saborosa e nos convida a uma reflexão que não dói, mas que nos desperta. Tópicos como Cultura de Violência e Medo, Disciplina libertadora, Coerção e Consenso, Tolerância e Limite são abordados pelos autores, dois grandes estudiosos sobre a história da humanidade em suas áreas de atuação.

O título “O Inferno somos nós”  brinca com a icônica e irônica frase de Jean Paul Sartre ‘O inferno são os outros’ (para conhecer um pouco esse filósofo clique aqui). A obra versa sobre a possibilidade de se produzir uma atitude menos agressiva e mais acolhedora a partir do momento em que o conhecimento de si e do outro substituem a cultura do medo e do preconceito.

Duas potências abordando a possível travessia do ódio à cultura de paz, Leandro é historiador e Monja Cohen é fundadora da comunidade Zen-budista do Brasil. Você não precisa ser budista ou professor de História pra se aventurar nessa obra, ela dá a impressão de que foi feita justamente pra quem não é especialista nesses temas. Aliás tanto Karnal quanto Monja Cohen se tornaram populares pela linguagem acessível e versátil que adotam em suas palestras e obras. Boa leitura!

Precisamos falar sobre empatia

Sujeito de Sorte – Belchior

“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro

Hoje tive a alegria de conhecer a história de mais gente que já trilhou meus caminhos de agora. A melhor parte disso foi saber que se alguém conseguiu passar pelos momentos difíceis e hoje está na plenitude, eu também posso. Nós, brasileiros (acredito eu) já temos na nossa inscrição genética esse dom de tolerar/superar adversidades geográficas/culturais/emocionais. O tal do complexo de de vira-lata tem seu lado bom, pois nos faz acreditar num ingrediente que nos diferencia positivamente justamente por nos “depreciar” na escalada da classificação cultural humana.

Sem dizer muito mas já contando um pouco, não é fácil ser imigrante. Não é fácil estar longe de casa, da família e dos amigos. Não é agradável trocar a certeza de um futuro relativamente previsível pela possibilidade de uma chance de paz e qualidade de vida. Não é, nunca será indolor abrir mão de um grande amor. A coragem tem um preço. É nesse momento da minha vida que tenho sentido empatia em relação a um tema que nunca foi um problema na minha vida: preconceito. Perdão, não gostaria de me alongar sobre isso, mas garanto a vocês que nada como o Turismo e suas vertentes pra gente minimizar drasticamente várias formas de preconceitos.

Não quero desmotivar ninguém. Por mim, todo ser humano teria a obrigação de correr atrás dos seus sonhos e desejos. Dificuldade a gente encontra todo dia, seja pra acordar ou pra entender o que a população inteira de um país está falando pra você.

Nobres leitores, hoje pode ter sido um dia DAQUELES. Mas estejam certos de que o Universo/Deus/o que quer que você acredite ser a razão da sua existência tem bons motivos pra nos testar, desafiar e lapidar.

Hoje aprendi a valorizar as pessoas que já estiveram no meu lugar. Que empatia a gente desenvolve todo dia, basta enxergar o outro alguém que a gente já foi, quem a gente também é e quem gostaríamos de ser um dia.