Do Porto de Lenha a Portuscale

Há algum tempo venho postergando esse tema por ainda não sentir segurança suficiente de trazê-lo aqui. Mas passados meus 3 primeiros meses no meu novo lar, acredito que já tenho argumentos suficientes para falar da escolha que fiz de vir morar em Portugal.

Aqui os homens não mexem com as mulheres nas ruas. Não há cantada de pedreiro, não há puxão de cabelo nas boates, muito menos mão boba no meio da multidão. Tanto em Lisboa quanto no Porto posso ir e vir a qualquer hora do dia (inclusive depois das 00h) e absolutamente nenhum homem me fez sentir um pedaço de carne, como é muito comum no Brasil. Não estou dizendo que isso não acontece em Portugal, mas pelo menos comigo não aconteceu e nenhuma das minhas amigas daqui tem alguma história de assédio para contar.

Aqui as pessoas que moram nos centros ou nas freguesias mais próximas utilizam com bastante frequência o transporte urbano (metrô e ônibus). Aliás, o metrô do Porto é a coisa mais linda que eu já vi na minha vida! Diferente do de Lisboa e do de São Paulo, por exemplo, NÃO HÁ CATRACAS! Finalmente eu pude ver um sistema de transporte que oferece o melhor serviço e conta com a colaboração e boa conduta das pessoas. Nós apenas validamos nosso cartão num leitor digital e seguimos em direção à plataforma de embarque. Claro que nas estações aonde pode-se fazer baldeação há muito movimento e portanto, seguranças de olho. Não estou dizendo que ninguém trapaceia, mas posso afirmar por observação que a maioria usa o serviço com respeito e honestidade, o que faz ele ser assim tão LINDO! Os ônibus não tem cobradores e circulam em faixas específicas na maior parte da cidade. Mesmo que o embarque de passageiros demore um pouco mais porque o motorista acaba tendo que dar o troco para as pessoas que pagam a passagem na hora (podemos usar o mesmo cartão – que é recarregável – do metrô nos ônibus), mas absolutamente ninguém xinga o motorista ou a senhora sua mãe.

O famoso BBB pode ser visto todos os dias quando o assunto é comida. Lembrando que estou falando do ponto de vista de moradora, não de turista! Já citei em outro texto aqui do Travessias a cultura de tascas. Pois além de menus deliciosos a preços baixíssimos temos acesso a supermercados low cost estrangeiros e locais, ambos com muita variedade e promoções (a carne aqui é mais cara que no Brasil, mas quando está próximo da data de validade tem desconto). Há também muitas quitandas e vendinhas espalhadas pela cidade, eu diria até que tem uma a cada esquina; não precisamos ir pra muito longe para comprar bons alimentos com ótimos preços.

Cultura de reciclagem e responsabilidade ambiental. Queridos, o hábito dos portugueses que tenho conhecido é um tapa na nossa cara… Além de separar todo o lixo de casa (em papel, plástico, vidro, metal e biológico) eles também usam o saco de lixo adequado e têm sua sacolinha de supermercado pessoal. Lembro do nervosismo que me dava em Manaus quando  colocavam uma sacola dentro da outra na hora de embalar as compras e de quando via outras clientes pedindo mais sacolas pois seriam usadas para pôr o lixo de casa. SENHOR, TEM PIEDADE! Infelizmente o pessoal aqui está muito mais avançado em relação à consciência ambiental. Tem exceções? Lógico que sim. Mas a grande maioria se importa muito com o descarte de lixo e uso de plástico.

Estou segura aonde quer que eu esteja (e a qualquer hora). É impressionante como as pessoas aqui se sentem seguras também. Isso inclui andar à noite sozinho (a) nas ruas, nos ônibus, usar o celular – USAR O CELULAR A NOITE SOZINHA NA RUA, etc. Há policiamento e com certeza há crime também, mas eu acredito que a pessoa precisa estar com muito azar pra ser assaltada aqui. Lógico que há áreas com maior risco de incidente de crime, mas é algo tão raro que a gente quase não fica sabendo quando acontece. Só de poder ir ao supermercado a pé à noite e voltar com meus dois rins intactos, celular na bolsa e compras na sacola sem nenhum arranhão sinto-me a pessoa mais abençoada do planeta.

Poderia me extender citando outras belas particularidades, mas no momento é o que eu gostaria de expressar. Meu lado brasileiro é amazonense de corpo e alma e morre de saudades do jaraqui com farinha d’água, do açaí de Codajás. Sinto saudades de Maués, da minha família, das minhas plantas que só existem aí, de banho de rio, de pôr-do-sol na beira do rio…

Mas tenho sonhos mais urgentes que minhas saudades. Enquanto vou realizando uma parte deles daqui de Portugal, vou guardando a saudade da minha terra e a esperança de que um dia meus descendentes possam viver felizes nela. Não sou pessimista, sou realista. Um lugar tão incrível como o Amazonas merece um futuro decente e infelizmente está muito longe disso. Força aos que estão aí e comam muito peixe por mim!

A importância de lavar sua louça suja

Lembro bem de como minha mãe me desafiava durante minha adolescência a ter um dia uma casa limpa e organizada. O motivo? Eu era aquela adolescente que um dia foi a criança que os pais não só não ensinou como não cobrou que lavasse a própria louça.

Foi durante a adolescência que a avó de um namorado da época me fez alguns comentários (de forma muito, muito doce e didática) e passei a refletir sobre a importância de lavar a louça que usasse, fosse na casa aonde eu morasse sozinha ou num lugar aonde coletivamente se usasse a cozinha.

Morando com mais estudantes na Irlanda (jovens da Espanha, República Tcheca, França, Bélgica…) passei dias e noites de fúria porque senti na pele como é desrespeitoso chegar em casa cansada e ainda ter que lavar a louça dos outros antes de poder fazer a própria comida e então matar uma fome de leão. Foi complicado mas conseguimos nos alinhar e lá em casa ficou definido que depois de usar tinha que lavar, e ponto final.

Morando sozinha senti o vento da liberdade sob minhas asas, e quando não estava afim eu simplesmente não lavava a louça! Já deixei uma pilha de pratos e panelas sim, mas eu sentia na hora de limpar tudo aquilo quão agradável seria se eu só precisasse lavar a metade. A minha procrastinação tinha um preço.

Lavar ou não a louça que você usa diz muito sobre você:

1- Você se responsabiliza pelos seus atos?

2- Você assina embaixo do que disse baixinho?

3- Você tem respeito pelas pessoas e pelo bem estar que elas merecem tanto quanto você?

4- Você leva a sério sua higiene pessoal, a higiene do local aonde você dorme e de onde passa a maior parte dos seus dias?

5- Você é humilde o suficiente para molhar/sujar suas mãos para lavar pratos que não são seus como símbolo de gratidão/caridade/serviço?

6- Você resolve a sujeira que faz na sua vida e na vida dos outros?

Espero que você possa ter respondido mais “sim” que “não”.

Ah, antes que eu me esqueça:

Sempre haverá louça para lavar, então evite perder seu tempo com você sabe o que!

Que seja leve

Querido amigo leitor, 

Se tua semana foi satisfatória, que bom, agradece!
Se poderia ter sido melhor, está tudo bem. Agradece pelas próximas que terás pela frente.
Se tudo foi por água abaixo, aproveita para nadar e refresca-te um pouco. Todo caos traz a chance da renovação. 

A dor tem o fim que construíres pra ela, o amor tem o tamanho do espaço que tens livre para ele, a vida tem a cor que teus olhos são capazes de ver. 

Que apesar de tudo o que te aconteça nunca te falte alimento para a alma e para o corpo. 
Que apesar das decepções nunca te falte amor próprio, compaixão e empatia. 
Que o sorriso de qualquer pessoa te desmanche e te ajude a sorrir também. 

Essa vida é teu presente. 
Escuta teu espírito, fecha os olhos e faz as pazes com ele.  
Semeia o melhor de ti, separa água e comida para os pássaros, lembra que fazes parte da mesma Natureza que eles. 
Aquilo que mais te incomoda é tua lição, aprende e segue em frente. 

Teu "melhor lugar do mundo" é aqui e agora. 
 
Com muito, muito, muito amor, 
Marília

 

A duras penas

Sinto pena de quem tem medo de olhar pra dentro, de atravessar os próprios desertos e buscar nas próprias entranhas um propósito e um grão de humanidade.

Sinto pena de quem se dá por vencido no primeiro coração-partido, na primeira guerra perdida, no interminável “não” de uma segunda-feira quente e cinza, de quem engole seco porque não se sente capaz de jogar tudo para o alto e ir em busca do sol.

Sinto pena de quem não é de verdade por excesso de maquiagem, de roupa e de mentiras; é deprimente ser um personagem, ainda que se bata no peito dizendo que foi criado por si, que tem vida própria. Sinto pena da mentira que contam para si mesmos antes de contar pros outros, da máscara de cílios que não sai da alma, da gravata que enforca a força da verdade.

Sinto pena de quem precisa de flashes por não saber lidar com a própria escuridão. 

Sinto pena de quem não se arrepende, não volta atrás da decisão e insiste num padrão de comportamento porque é o mais seguro. Sinto dó dos que sofrem calados mas não assumem que fariam diferente.

Sinto pena de quem devora a vida de alguém para tornar a própria vida menos amarga e insegura. De quem devora corações, pisa em sonhos e quando está de barriga cheia, cospe fogo em quem antes chamava de amor. Sinto pena de quem precisa sair com todo mundo porque tem medo de sair com uma pessoa só.

Sinto pena de quem põe armadilhas ao seu redor por medo do escuro. De quem não sabe que escuridão é só falta de luz própria, sinto uma pena que não cabe em mim.

Sinto pena de quem precisa de tudo e de todos, ao mesmo tempo e o tempo inteiro sem ter o privilégio de uma semana de solidão. Sinto pena de quem nunca fechou os olhos e conversou com o mar, sem medo algum de ser devorado ou molhado por ele.

Sinto pena de quem se corta, se sabota, se anestesia, se põe pra baixo, se desculpa e se priva de ar. As maiores prisões somos nós mesmos que construímos e trancamos por dentro.

Sinto pena de quem guarda mais dinheiro que recordações, de quem coleciona corações, de quem guarda rancor. Se pudesse chamaria pra um café e diria que o mundo é maior que qualquer conta bancária ou ego.

Sinto pena de quem fala muito e não diz nada, de quem não acredita no que fala e por isso é repetitivo, de quem não acredita no que ninguém fala, de quem não quer saber o que o mundo tem pra lhe dizer. Sinto muita, muita pena de quem acredita que comunica mas não passa de portador de verborragia crônica.

Sinto pena de quem vende a alma, os sonhos, o tempo livre. De quem não tem pena de si, dos outros, de quem não vê humanidade enquanto escova os dentes.

Sinto pena de quem assim como eu é eterno caçador de si mesmo. Sinto pena de você, escravo virtual. Sinto pena de todos nós que precisamos perder para reconhecer o que nos é valioso, sofrer depressões para valorizar sorrisos esporádicos e gratuitos, passar por um divórcio  para recuperar o amor-próprio.

Sinto pena de quem não ri de si mesmo, de quem tem medo de ter filhos e sonhos, de quem detesta natureza. Sinto pena de quem não se sente parte do Universo.

Sinto pena das paixões que nunca tiveram fim e que nunca foram reais, dos sonhos largados no canto da sala, das alianças que são de ouro mas não são de verdade, dos medos guardados no cofre como tesouros.

Hoje não queria sentir nada, mas sinto pena de mim mesma por ser capaz de falar de tanta coisa linda mas precisar dizer que sinto pena (mesmo sabendo que toda semente tem seu tempo).

É preciso florescer antes de morrer

Não sei qual era a sensação nos tempos de nossos avós, mas sinto-me numa roda gigante que não pára nem que eu peça “socorro”. O mundo não pára só porque queremos descer . Há como florescer sem cair?

Mudanças acontecem enquanto sorrimos, dormimos, quando estamos distraídos ou chorando de saudade. Porque a vida é como um pássaro que descansa num galho mas que uma hora terá de voar, há que se levantar da cama e tomar um banho pra que esse dia não seja perdido. Nem sempre há tempo para ver a vida passar.

O que me incomoda não é a fluidez da rotina, a velocidade da roda gigante ou estar nela sob o pretexto de ser “o dom da vida”, mas todas as imagens e acontecimentos que nos são jogados e que precisamos interpretar e absorver. É quando mais precisamos olhar para dentro que somos forçados a olhar para fora. Nessa corrida maluca de quem viu mais, quem falou mais, quem viveu mais que nossa viagem se confunde com história do mundo. Quem te garante que vives tua vida e não a dos outros que estão ao teu redor?

Preciso de calma pra sentir saudade, pra chorar de alegria e pra ver a própria alegria nos momentos mais simples. Mas com tanta imagem e tanto som desnecessário as mais belas experiências passam batido, e me afogo no oceano do qual nem sinto que é meu. Tens certeza de que és daí, que aí queres permanecer?

Respostas rápidas, impressões imediatas e ao final do dia não fomos nós mesmos. 

Quando consigo observar atentamente um idoso sentado na praça me transporto pros seus olhos e imagino o que estaria pensando, já que não parecemos estar na mesma roda gigante. Sou eu quem vai muito rápido ou ele que não tem pressa de chegar?

Eu quero, eu preciso, eu gosto, eu detesto, eu, eu, eu, eu… Só eu não vejo conforto nesse trono que o desejo nos faz imaginar, querer tanto o tempo todo? Somos mesmo senhores de nossas vidas?

Como um lençol branco usado (ainda que permanecendo branco) precisa ser lavado, sinto que periodicamente preciso respirar e voltar à minha essência. Acho que as freiras do colégio aonde estudei a vida inteira já sabiam disso e nos ensinavam através de retiros espirituais e momentos de introspecção (reflexões, meditação, etc) como voltar a nós mesmos. Não é sobre a religião que segues, é da tua individualidade, da minha essência que estou falando. Tens sido tu mesmo?

Às vezes preciso parar. Como a roda gigante não permite, aprendi que posso fechar os olhos, fazer silêncio e me transportar pelo vazio da mente pro meu lugar, que não está em lugar nenhum. Sabes aonde fica teu lugar?

A vida passa em silêncio porque vemos fotos, vídeos, concertos, vemos diferenças aonde elas não existem. Vemos o que não precisamos. Ouvimos o que não precisamos. Falamos o que não gostaríamos. Uma vida pra chamar de tua que usas como instrumento alheio. Querias mesmo fazer parte de histórias que não te convém?

Quem sou eu quando não me vês, quem és quando apagas todas as luzes do quarto e só escutas a própria respiração?

A Natureza é sábia, assim penso… e ao invés de morrer, ela disfarça e quando ninguém vê, floresce. Eu, tu e eles precisamos também florescer antes de morrer. E uma planta não floresce o que não é dela. Se macieiras não dão laranjas, deverias tu seguir um caminho que não é o teu?

Enquanto a roda gigante se diverte conosco, o que fazemos? Que verdades tuas tens semeado no mundo enquanto ele te carrega de uma vida pra outra? Não compramos os bilhetes pra estar aqui, mas escolhemos os destinos que queremos seguir enquanto neste lugar estamos. Vais por aí porque queres ou porque te levaram?

Não sei se cabe um conselho, mas acredito na partilha:  eu preciso florescer e para isso algumas folhas precisam cair. Não tenhas medo de dizer adeus, de fechar os olhos, de encarar o silêncio e desaparecer um pouco para tudo aquilo que não é teu. É preciso morrer para florescer e é preciso florescer antes de morrer. 

Carta à Paternidade: Pai é aquele que ama

Passado o domingo do pai, venho falar de uma experiência repleta de chegadas e partidas, de crescimento e reencontros, de amor e de perdão.

Ao invés de presentes, declarações e abraços decidi escrever uma carta e endereçar à você, Paternidade. Como toda pessoa, você é diversa em si mesma e foi quando te entendi, passei a te amar como filha.

Pela sua perseverança em sonhar, fazer planos e vibrar cada vitória como uma conquista olímpica; por imaginar que foi difícil pra você conter as lágrimas ao som do primeiro “papai” e como você se encheu de luz ao testemunhar os primeiros passsos de um ser que mesmo tão pequeno te fez sentir um amor muito maior que você, te envio um grande abraço.

Sabendo que você silencia, preserva a si e à cria, que engole o choro e o sofrimento a seco, que disfarça a tristeza e esconde o medo e, como quem não tem opção, atravessa um incêndio sem um gemido de dor sequer: aqui vai o meu abraço.

Sei que você, Paternidade,  também se confunde, se perde, se culpa e se arrepende. Não é fácil ser humano quando a vida e as pessoas nos tratam como animais. Acredite, tudo que te aconteceu até aqui te transformou numa paternidade mais sábia, amada e real. A maioria das pessoas não sabe que a paternidade também dói. Receba meu abraço, dessa vez mais demorado. E se precisar, pode chorar um pouco. Vai ficar tudo bem.

Por te admirar na sua história, na sua ausência justificada, pelo temor de te decepcionar e perder o seu amor e por sonhar em ter um dia uma pessoa como você na minha história, te peço um abraço que acalme minha ansiedade e meu medo. Céus, como te admiro e como fico sem chão quando imagino meu mundo sem sua existência!

Se a vida te deu esse papel muito cedo ou tarde demais, não importa.

Se ninguém te ensinou o que fazer com toda essa responsabilidade e por isso você às vezes não sabe se está agindo da maneira certa, não tem problema.

Se tudo isso aconteceu sem que você quisesse ou soubesse e por isso no começo você não agiu como gostaria (mas já sabe o que poderia ter feito), está tudo bem.

Se quem te deu essa missão foi a Natureza, a Ciência, a vida ou algum coração órfão, a sua importância não muda.

Muito além do dia de ontem e dos que te transformaram em quem você é hoje, mais que a responsabilidade de salvar e ensinar, você é muito importante. O mundo inteiro te admira e te quer bem.

Por fim e não menos importante te dedico minha gratidão pela maior lição: pai é aquele que ama. 

Parabéns, me perdoe, eu te amo e obrigada.

M de Mulher e de Medo

Ontem pela manhã li no Globo sobre uma universidade japonesa cuja administração do curso de medicina alterava notas para favorecer candidatos e alunos do sexo masculino com o argumento de que “mulheres podem engravidar e com isso abandonar o curso”. O que senti foi tristeza. Podia ser comigo, com você que está lendo esse texto, com suas amigas, com sua filha, com qualquer mulher.

Ainda nesta semana conversei com alguns amigos sobre o assassinato da paranaense que, vítima de inúmeras atitudes abusivas e opressoras por parte do marido, não foi socorrida quando esteve entre a vida e a morte. Imagino se ela própria não interpretou o comportamento do marido como machista, violento e maléfico a tempo; ou (um cenário ainda mais grave e comum) que quando se deu conta do pesadelo que vivia a dois não foi capaz de sair dele por alguma crença ou medo do julgamento moral-cristão que sofreria. 

Este foi só mais um de tantos casos que acontecem nos lares familiares do Brasil e do mundo afora. 

Ainda nesta semana soube dos números alarmantes de mulheres agredidas em Manaus. De Janeiro a Junho foram registrados 7.458 casos de violência doméstica na cidade, uma média de 41 casos por dia num período de 6 meses. Veja bem, esses números são de casos REGISTRADOS. Quantos outros não foram e nunca serão reportados? A notícia completa está aqui: https://www.acritica.com/channels/manaus/news/de-janeiro-a-junho-de-2018-manaus-registrou-7-458-casos-de-violencia-domestica

Senhores, é de partir o coração. 

Mas escolhi falar não somente da violência masculina sobre a mulher. Ainda mais espantoso é o ódio de uma mulher em relação à outra. Há quem diga que o machismo está aí por ser repetidamente praticado pelos homens. Atrevo-me a sugerir que é o reforço feminino que fortifica e também perpetua o machismo. Como? Basta lembrarmos da última vez em que estivemos entre amigos (incluindo mulheres) e o assunto foi a roupa provocativa de uma garota na festa, o comportamento da solteira que beija quem quiser sem nenhum pudor ou a menina que só quer jogar bola e os pais já não sabem mais o que fazer para “afastá-la das más companhias”. 

Consigo lembrar de amigas de infância debochando de alguma confidência  minha que “não era coisa de uma garota direita” e de um colega de trabalho duvidando da minha solitude durante uma viagem, afinal de contas “mulher não pode viajar sozinha”. 

Durante o verão, por exemplo, é impossível vestir roupas quentes e pesadas, mas ainda ouvimos e até pensamos comentários maldosos sobre mulheres que preferem bermudas curtas ou regatas mais cavadas. Somos incompreensivas e cruéis com aquelas que sentem o mesmo calor que nós e que são mais corajosas e seguras para fazer escolhas que o mundo desaprova. Nos odiamos, temos vergonha das curvas que nos identificam como mulheres e sentimos pavor de sermos descobertas em nossa mais profunda feminilidade. Logo, é mais fácil reforçar um comentário e atitude machista que aplaudir aquelas que nos abrem caminhos sem nos cobrar absolutamente nada, somente respeito.

Quando questionada sobre ser feminista ou não faço questão de pensar a melhor maneira de explicar meu posicionamento. Para cada pessoa há uma resposta adequada, visto que neste tipo de conversa o objetivo é trocar ideias, não é chocar. Quase sempre digo que não sinto orgulho do feminismo como não sinto orgulho de precisar usar um sutiã para disfarçar o que toda a humanidade sabe que tenho. Feminismo, feminazi, mimimi de mulherzinha e todas as outras formas de perceber a movimentação de uma minoria que só quer se defender de agressões e se colocar num lugar de plenitude e dignidade precisam não somente de adeptos, mas de respeito. Só existe feminismo porque existe machismo. Só existe machismo porque existe reforço. O feminismo não combate o machismo, mas o reforço de uma ideia que oprime as diferenças com base num determinismo ora religioso, ora moral-convencional.

Quantos de nós foram criados por seios envergonhados do próprio poder e ensinados a colocar-se no seu devido lugar (lugares diferentes para sexos diferentes) sem sequer aprender a criticar essa predestinação maléfica que insistem em chamar de divina? Quantas vezes reproduzimos falas e comportamentos que por alguns segundos sabemos que não são nossos, mas não vemos alternativa sobre eles?

Hoje não sinto vergonha de ser mulher. Principalmente por causa dos olhares femininos que julgam, condenam e ignoram minha humanidade; pela falta de solidariedade com o sofrimento que nos aflige numa briga “de casal”, pelo silêncio recebido das colegas de trabalho quando confidenciamos uma situação de assédio, pelo deboche inescrupuloso com que nossos maiores sonhos são recebidos dentro de nossas próprias famílias, o que sinto em relação à minha feminilidade é insegurança, ansiedade, impotência. Sinto medo de ser verdadeiramente mulher. 

Quanto vale uma consciência tranquila?

Primeiramente, parabéns por ter clicado nesse texto. Se você se interessou pelo tema significa que no mínimo está atento à importância de se ter uma consciência tranquila para viver em paz. Se você fez alguma bobagem ultimamente ou se tem uma lista impublicável de travessuras e maldades, proponho um passeio que  pode te fazer bem.

Muitas pessoas falam em felicidade, sucesso, saúde, conquistas e realização pessoal como bênçãos sempre lembradas em suas orações e metas diárias em suas vidas. Tudo isso é bacana, dá sentido e cor ao caminho da existência e tudo mais. Porém quase ninguém cita paz de espírito e consciência tranquila como objetivos diários. Faça o teste, pense nos últimos cinco dias da sua vida: por acaso você saiu de casa desejando voltar com paz de espírito e pela noite dormir com a consciência tranquila?

Muito além da tranquilidade/serenidade, a paz de espírito e a consciência tranquila são conquistas que na maioria das vezes requerem exercício de valores, cumprimento de regras e quase sempre sucedem uma bifurcação moral, aonde é colocado à prova o que fazemos na frente dos outros e quem realmente somos quando ninguém está olhando.

“Mas Marília, o que te fez escrever sobre isso?”. A minha sensação de consciência tranquila. Como ser humano, cidadã, mulher, profissional e tudo mais que sou, tenho um orgulho enorme de ter aprendido com minha mãe essa lição de ética, de ter entendido que mais vale sono tranquilo que se aproveitar da fraqueza de alguém. Recentemente numa conversa relembrei um episódio absurdo que vivenciei no ambiente profissional e que claramente dizia respeito a egos infelizes.

Ego, leitor, é o que você é. É a soma de sonhos, aprendizados, expectativas, frustrações, é tudo o que você já fez e pretende fazer. E o ego pode ser seu maior inimigo (você mesmo) quando te propõe caminhos que pelo aprendizado moral você sabe que não deveriam ser sequer pensados como possibilidades.

1- Se você precisa trapacear para ganhar, significa que você não é bom o suficiente para o que se propõe. Repense suas escolhas, melhore como pessoa e tente mais tarde.

2- Se você precisa de alianças secretas com propósitos destrutivos para ser querido, valorizado, ter o cargo ou a equipe de trabalho dos seus sonhos, você precisa antes de tudo de terapia. Lavando pratos ou dirigindo uma empresa, antes de ser um ótimo profissional você precisa ser uma pessoa segura e tranquila quanto ao seu potencial. Pessoas seguras de si não perdem tempo com trapaças, elas sabem que não precisam disso.

3- Se os valores da sociedade em que você vive não são interessantes para você, mude-se! Voce não é uma árvore e não precisa dormir e acordar cometendo erros e injustiças, acumulando grandes malfeitos com a desculpa de ter que “ser assim pra sobreviver ao sistema”. Não quer ser corrupto, mentiroso e falso? Tente ser ético ou vá morar em uma tribo que tenha valores similares aos seus. Você nasceu livre e cheio de direitos mas é sua obrigação conviver com a liberdade e direitos das pessoas ao seu redor.

4- Mudar de ideia e arrepender-se fazem parte do amadurecimento. Na mesma conversa que citei anteriormente recebi essa lição linda e quero repetí-la em pelo menos mais 10 textos meus. Gente que pede desculpas, que perdoa, que ajusta sua opinião após ter acesso a dados que não tinha antes, que fala que mudou de ideia sim e não nega o que fez/falou no passado, essa gente está caminhando para a direção da maturidade e cabe a todos nós incentivar esses comportamentos quando percebidos nas pessoas ao nosso redor!

5- Se você fez algo muito feio e não se arrepende, fica por sua conta se olhar no espelho e encarar quem você está se tornando. O sono é seu, a consciência é sua e só você poderá se consolar quando a bad da lei do retorno bater à sua porta. No caso de ter se arrependido, saiba que o remorso precisa vir acompanhado de mudança de comportamento para ser válido. Não dá para consertar o erro? Então assuma que errou, seja corajoso. Não consegue assumir por medo de punição e consequências? Conviva com a sua cruz e tente não repetir o malfeito. Todo mundo tem o direito de errar, mas é muito deselegante ser anti-ético e trapaceiro. Imagina só se as pessoas ao seu redor descobrissem o que você fez, será que elas continuariam sorrindo pra você todas as manhãs e confiariam que você é quem diz ser? E quando virasse as costas, o que acha que elas diriam a seu respeito?

Por último e não menos importante, compartilho as lições que dona Telma deixou e me livraram de muitos erros, além de me fazerem “cair pra cima” no último episódio de falta de ética que tive o desprazer de vivenciar. Não importa quão importante for o seu sonho, quão forte for o seu desejo e quão grande for o seu medo: seja quem seus pais e seus filhos gostariam que você fosse e pensam que você é. Depois dos aplausos e flashes somente sua consciência permanece com você. Faça o que você gostaria que fizessem a você. Suas escolhas são sementes, não adianta espremer pedra se você não cavou o poço direito. Todos os dias, antes de dormir, ela rezava em voz alta agradecendo pelo trabalho que tinha, pelo dinheiro que não tinha, pelo teto que abrigava seu descanso e pela noite de sono tranquila que já sabia que teria. Olhava pra mim e dizia: “não há melhor travesseiro que uma consciência tranquila”.

Um grande abraço e volte sempre!

Mais autoconfiança, menos espelho!

“Quando verdadeiramente não ligas pro que qualquer pessoa pensa sobre ti, alcançaste um perigoso (para as pessoas) nível de liberdade”.  Jim Carrey

Há um demônio atrás de cada espelho. Como os vendedores de lojas do shopping que ao captar um olhar já ganha e quase aprisiona o cliente, o espelho nos envolve na primeira mirada.

Se por um lado a proposta do espelho é nos mostrar nossa imagem real, fica para o cérebro o trabalho de interpretar com base nas experiências vividas e nos padrões assimilados o reflexo visto. Aqui começo a falar sobre a prisão da beleza, it’s shocking!

Um espelho mal usado pode arruinar anos de autoestima. Os comentários das amigas podem abalar qualquer autoimagem bem elaborada… uma vez participante de uma sociedade em que é preciso ser linda 20 horas por dia, não há tempo para estar fora do padrão.

“Nobody wants to be lonely, nobody wants to cry”, já dizia o ídolo da minha adolescência Rock Martin. Enquanto formos ensinados a ser obsessivamente queridos e desejados pelo outro, não há espaço para sentir-mo-nos à vontade, felizes, satisfeitos. Tudo bem ter uma sobra de gordura abdominal, mas que isso não apareça na roupa pra ninguém ver!!! E seguimos vestindo contas no corpo, nas ideias e na alma.

Somos escravos do que gostaríamos que as pessoas pensassem que somos. 

Respeito todas as mulheres com seus procedimentos estéticos, eu mesma já fiz botox e sou defensora da depilação a laser. Mas TUDO na natureza e na vida tem um limite e um preço. Não somente precisamos estar dispostos a pagar o valor material e moral como precisamos de muita maturidade para arcar com as consequências de possíveis complicações dum procedimento estético, principalmente quando nos tornamos dependentes dele. É a velha história da faca que corta o pão e o irmão: ficamos lindas mas há dinheiro, tempo e paciência envolvidos… às vezes muito mais que isso. 

Uma vertente do tema “padrão estético” que sempre me deixa em crise com meus parafusos é o peso. Aos 21 anos eu pesava X. Hoje, vaaaaaaaarios anos depois, peso X ao quadrado mais a hipotenusa do cateto de Bhaskara. Isso significa (pra mim) que engordei. Mas minha natureza está tentando me dizer de todas as formas que isso faz parte dos meus genes, que minha saúde independe do meu peso adolescente, que estou gata SIM, que peso é relativo, etc etc etc. Minha terapeuta também me envia alguns sinais, mas minha prisão é mais forte, minha dependência de “atenção” é muito maior. A sua também. Oi? Não entendeu? Sim, você também se arruma para as pessoas gostarem da sua imagem, não somente porque se sente bem com o resultado. 

“Mas Marília, eu me amo eu me adoro, eu sou lindo!”. Calma, jovem. Tem muito aprendizado social nessa frase…

O que você e muitos coleguinhas ainda não sabem (porque não são ensinados a saber e confrontar mesmo na infância e nas escolas) é que muito do que nós achamos que pensamos e gostamos “de nascença” é na verdade aprendizado. Poderia citar várias referências da Psicologia e Antropologia aqui mas não estou afim, perdão! Apenas confia em mim e lê esse texto até o final! 

O que eu dizia é que você é, além de tudo o que você acha que é, produto do seu meio. Você é tudo aquilo que já foi, que é aos olhos dos outros, aos olhos de si mesmo, “tudo aquilo que poderia ter sido se a maré das circunstâncias não tivessem te banhado nas águas do equívoco”… isso vale pra estética, pra personalidade, pra alma da pessoa em si. Somos doutrinados desde muito novos a preencher espaços sociais essenciais para a manutenção da comunidade; devemos seguir os padrões que darão continuidade ao funcionamento equilibrado e previsível da sociedade. Eu, você e nossos vizinhos somos sim (também) produtos do meio e poucos de nós tem a oportunidade de descobrir que há outros caminhos além do “obrigatório”, também conhecido como “é o que gente normal faz” ou “isso não é coisa de mulher direita”. Faz parte de um ideal de sanidade mental se libertar dessa prisão do padrão social ao entender que não precisamos viver de espelho ou engolir todos os dias aquele comprimido da FÓRMULA DE SUCESSO.

Não seguir um padrão não significa ser anarquista ou estranho. Tudo bem que às vezes ser você mesmo pode ser caro, mas não há nada mais libertador que florescer num jardim de ideias próprias! Das pessoas que conheço, acho que sou um dos exemplos mais intensos de desabrochar a própria essência em águas desconhecidas. Só eu e meus amigos mais queridos sabemos quantas lágrimas derramei pela maldade/ingenuidade alheia que já interpretou muito equivocadamente minhas escolhas. Nunca fiz nada demais, mas por não ter feito o que todo mundo faz, me senti a própria Jeni do Chico. 

O que eu adoraria dizer para minhas amigas, leitoras, pros homens que com elas convivem e pra todos os demais que ainda não sabem exatamente aonde pisar é que não precisamos ser perfeitos. Não ser o que a sua família quer que você seja não é o fim do mundo. Não ser a esposa ideal, como você mesma um dia quis ser, não é uma falha no seu caráter. Não ter emagrecido depois do ultimo bebê não é preguiça. Não ser o macho alfa que seus amigos “são” não é exatamente um problema a ser resolvido, nem problema é (talvez você seja o príncipe de muita menina e ainda não saiba disso!). 

“Belezas são coisas acesas por dentro”. O resto é vaidade. O que sobra, o que é preciso comprar, pintar, pagar, moldar, apertar e disfarçar é SARNA PRA SE COÇAR! 

Saia dessa… deixa essa pessoa linda que você é encantar quem está pronto pra ser encantado, faça mudanças porque você realmente quer que sejam feitas e se alguém falar que você tá com a mesma roupa do último casamento, faça de conta que não é com você e continue se divertindo. 

Temos pouco tempo para viver o que vale a pena. Desejo que seu espelho seja seu cúmplice e amigo, que seus amigos sejam seus amigos mesmo e que a sua autoconfiança seja somente sua, de mais ninguém! 

A menina e o silêncio

Ela odiava a voz das pessoas: podendo fazer silêncio, insistiam em falar pelos cotovelos. Se não eram conversas fúteis sobre os signos, davam gargalhadas forçadas (que ela sabia serem máscaras de proteção conta os monstros Carêncio e Solhudão).

Se havia instrumentos musicais, por que esses humanos insistiam em contar lorotas, fofocas e vantagens? Que som poderia ser mais poderoso e relaxante que uma tempestade tropical?

Não sentia necessidade de falar com as pessoas todos os dias e às vezes custava-lhe a paz estar entre amigos (frequentemente questionava-se sobre amizades que lhe despertavam sensações desconfortáveis nos primeiros 5 minutos de conversa).

Sentia que o universo do som era degredado a cada espirro, a cada ronco e a cada peido. Além disso machucava-lhe o âmago aquilo que aos outros parecia banal, mas era mais grave que o som de um trovão: o insulto.

Gritos de raiva e até de alegria faziam seus tímpanos arderem em chamas. Conversas sobre trabalho e brigas de família que subscreviam diálogos de insatisfação matrimonial lhe causavam náuseas e por pouco não avançou agressivamente como um bicho selvagem num humano que opinava sobre qualquer tema relevante munido do mantra “isso não é coisa de mulher direita”.

Falando em direita, a menina adorava placas de trânsito por serem uma linguagem muda e cheia de conteúdo. “Vire à esquerda”, “atenção”, “crianças no perímetro” e outras informações tão importantes para a locomoção de uma comunidade compartilhadas sem qualquer palavra falada, que alívio!

Recentemente conheceu um menino que assim como a maioria dos humanos falava duas línguas: Verdaderês e Mentirês. A segunda ele aprendera muito bem, mas por ela nunca ter se sentido à vontade com esse idioma era difícil ouvi-lo em Mentirês e traduzir mentalmente pro Verdaderês. Ele precisava de alguém para conversar e praticar o Verdaderês, visto que fora cruelmente repreendido pela professora por ter falado nesta língua com pessoas que não estavam capacitadas para ouvi-la. Além disso estava num recesso público em que precisava interagir com o máximo de humanos possíveis para despistar o monstro Carêncio, que lhe perseguia como punição por ter usado a língua errada com a pessoa errada. É desrespeitoso na sociedade deles falar uma língua que não seria entendida ou bem recebida por um dos interlocutores da conversa – gera até rompimento de laços humanos! Dele ela não tinha raiva, sentia dó. Via nele um potencial enorme para silenciar e produzir grandes obras primas(ele era aprendiz de escultor).

Diversas vezes a menina fugiu de casa e se escondeu num monastério abandonado aonde se ouvia pássaros, folhas e vento. Não tinha certeza se Deus existia, mas se existisse ele com certeza morava ali, no silêncio que o passado deixou.

A menina não tinha medo do silêncio dos humanos, nem se incomodava quando ele acontecia. Quando era quebrado por ela ou por alguém, sentia como se tivesse acabado de acordar de um sono renovador. Ela deitava os pensamentos na ausência da voz e deixava que tudo ao seu redor lhe abraçasse e lhe acariciasse a alma: fosse imagem, fosse som, fosse pensamento.

O sino da igreja era um pouco desconfortável de se ouvir, não pelo som ou volume, mas porque mergulhava a menina em lembranças que ela não guardara por querer. Mas mesmo assim permitia que o som vibrasse dentro dela; viajava em pensamento para tão longe que nenhum humano a alcançaria. Certas lembranças são Torres sem porta, você nunca sabe como foi parar lá e tampouco consegue sair.

Quando observava árvores imaginava o que se perguntavam enquanto o vento esfregava suas folhas umas nas outras: seriam questões de gênero ou de cor? Estariam elas discutindo minorias?

Depois de várias crises de otite ela começou a se isolar com mais frequência, recomendação médica: “Diagnóstico: a menina tem intolerância acústica. Prognóstico: a menina deve habitar espaços com pouco barulho. Em paralelo fazer terapia.”

Ao contrário do que o médico entendia por barulho, ela classificava toda sorte de som como apenas som, até o da britadeira. Barulho é o que os humanos faziam, desorganizando tudo com suas falas egoístas, totalitárias, fúteis e cheias de desfarces (eufemismos e convenções sociais). Terapia ela já fazia, mas o médico não ouviu quando ela falou, talvez sua voz estivesse muito baixa naquele dia.

Quando pensava em futuro ela ouvia os passos do monstro Medo no corredor de casa. Quando pensava em cobras, aranhas e sapos também. O futuro de uma menina como ela parecia muito infeliz, era como se no futuro da humanidade não houvesse espaço para a vida que ela queria para si. Pessoa não bem-vinda, que não se encaixa. Como não sentir medo de ser uma mulher que adoraria ter filhos mas que não conseguiria ouvi-los chorar e chamar pela mamãe? Como participar de reuniões, ir ao banco e ao médico, como atender ligações dos familiares distantes e dizer que estava tudo bem? Era morrer ou transmutar a realidade para o que ela entendia como tolerável e admirável.

Ouviu falar de uma ponte e do rio que corria ali. Quem passasse por ela 7 vezes e em seguida mergulhasse as pernas até os joelhos nas águas do Tâmisa podia fazer um pedido: prontamente algum Deus mestiço atenderia. Fez as malas com tudo o que considerava importante e arrumou o pensamento também – precisava das palavras e do volume de voz certo para ter seu pedido atendido.

Andou muito. Tomou cafés e vinhos, banhos de rio e de mar. Comeu doces, peixes e pães. Viu gente, bicho e planta. Chorou e cantou, sorriu sem perceber. A menina viveu tanto que esqueceu do que procurava, mas nunca se conformou com a fala dos homens. Num verão qualquer chegou a uma cidadezinha e viu a ponte com o tal rio. Lembrou do que quis com todas as forças. Parou o que estava fazendo e como quem conversa com Deus, perguntou a todas as meninas que já tinha sido “se estavam prontas pra atravessar a ponte com ela, se ainda queriam o silêncio dos homens e se estavam dispostas a deixar o conforto da conformação para alcançar o sonhado paraíso sônico.

Elas deram as mãos (não disseram nada) e sem que a menina pudesse reagir, dispuseram-se todas em fileira, de frente pra um dos lados da ponte. Não ouvia nem entendia nada. Pavor. O que querem elas? Atordoada por descobrir justamente agora que não tinha controle algum sobre seu passado e que ele lhe impulsionava pra o futuro, fechou os olhos e inspirou todo o ar que foi capaz de recolher.

Dias e noites passaram. Foi primavera e sem que os humanos percebessem foi verão. Teve guerra, diversão e paz.

Um dia veio um anjo e tirou de todos os homens o dom da voz. Foi feito um silêncio inesperado e aterrorizante.  Perdidos, eles ensaiavam sinais nunca usados, pareciam mais desesperados que vivos.

 

De algum lugar a menina podia enfim escutar a água batendo na pedra, a madeira da cadeira rangendo com o peso da velhota exausta, a nuvem de pássaros que voava em arabescos como se seguissem um mapa ancestral rumo ao paraíso dela. Assim como eles, ela já sabia aonde ficava esse lugar: na imaginação.

Abriu os olhos, pediu a conta e deixando alguns euros na borda da mesa sorriu em agradecimento à jovem senhora que lhe atendera com indiscutível gentileza. Tinha um concerto para assistir, precisava correr para não se atrasar. Ao menos ali todos ficariam calados e somente com palmas falariam a verdades: “parabéns”, “obrigado” e “continuem, vocês são brilhantes”.

Foi embora ansiosa para ouvir música e silêncio.