Que seja leve

Querido amigo leitor, 

Se tua semana foi satisfatória, que bom, agradece!
Se poderia ter sido melhor, está tudo bem. Agradece pelas próximas que terás pela frente.
Se tudo foi por água abaixo, aproveita para nadar e refresca-te um pouco. Todo caos traz a chance da renovação. 

A dor tem o fim que construíres pra ela, o amor tem o tamanho do espaço que tens livre para ele, a vida tem a cor que teus olhos são capazes de ver. 

Que apesar de tudo o que te aconteça nunca te falte alimento para a alma e para o corpo. 
Que apesar das decepções nunca te falte amor próprio, compaixão e empatia. 
Que o sorriso de qualquer pessoa te desmanche e te ajude a sorrir também. 

Essa vida é teu presente. 
Escuta teu espírito, fecha os olhos e faz as pazes com ele.  
Semeia o melhor de ti, separa água e comida para os pássaros, lembra que fazes parte da mesma Natureza que eles. 
Aquilo que mais te incomoda é tua lição, aprende e segue em frente. 

Teu "melhor lugar do mundo" é aqui e agora. 
 
Com muito, muito, muito amor, 
Marília

 

É preciso florescer antes de morrer

Não sei qual era a sensação nos tempos de nossos avós, mas sinto-me numa roda gigante que não pára nem que eu peça “socorro”. O mundo não pára só porque queremos descer . Há como florescer sem cair?

Mudanças acontecem enquanto sorrimos, dormimos, quando estamos distraídos ou chorando de saudade. Porque a vida é como um pássaro que descansa num galho mas que uma hora terá de voar, há que se levantar da cama e tomar um banho pra que esse dia não seja perdido. Nem sempre há tempo para ver a vida passar.

O que me incomoda não é a fluidez da rotina, a velocidade da roda gigante ou estar nela sob o pretexto de ser “o dom da vida”, mas todas as imagens e acontecimentos que nos são jogados e que precisamos interpretar e absorver. É quando mais precisamos olhar para dentro que somos forçados a olhar para fora. Nessa corrida maluca de quem viu mais, quem falou mais, quem viveu mais que nossa viagem se confunde com história do mundo. Quem te garante que vives tua vida e não a dos outros que estão ao teu redor?

Preciso de calma pra sentir saudade, pra chorar de alegria e pra ver a própria alegria nos momentos mais simples. Mas com tanta imagem e tanto som desnecessário as mais belas experiências passam batido, e me afogo no oceano do qual nem sinto que é meu. Tens certeza de que és daí, que aí queres permanecer?

Respostas rápidas, impressões imediatas e ao final do dia não fomos nós mesmos. 

Quando consigo observar atentamente um idoso sentado na praça me transporto pros seus olhos e imagino o que estaria pensando, já que não parecemos estar na mesma roda gigante. Sou eu quem vai muito rápido ou ele que não tem pressa de chegar?

Eu quero, eu preciso, eu gosto, eu detesto, eu, eu, eu, eu… Só eu não vejo conforto nesse trono que o desejo nos faz imaginar, querer tanto o tempo todo? Somos mesmo senhores de nossas vidas?

Como um lençol branco usado (ainda que permanecendo branco) precisa ser lavado, sinto que periodicamente preciso respirar e voltar à minha essência. Acho que as freiras do colégio aonde estudei a vida inteira já sabiam disso e nos ensinavam através de retiros espirituais e momentos de introspecção (reflexões, meditação, etc) como voltar a nós mesmos. Não é sobre a religião que segues, é da tua individualidade, da minha essência que estou falando. Tens sido tu mesmo?

Às vezes preciso parar. Como a roda gigante não permite, aprendi que posso fechar os olhos, fazer silêncio e me transportar pelo vazio da mente pro meu lugar, que não está em lugar nenhum. Sabes aonde fica teu lugar?

A vida passa em silêncio porque vemos fotos, vídeos, concertos, vemos diferenças aonde elas não existem. Vemos o que não precisamos. Ouvimos o que não precisamos. Falamos o que não gostaríamos. Uma vida pra chamar de tua que usas como instrumento alheio. Querias mesmo fazer parte de histórias que não te convém?

Quem sou eu quando não me vês, quem és quando apagas todas as luzes do quarto e só escutas a própria respiração?

A Natureza é sábia, assim penso… e ao invés de morrer, ela disfarça e quando ninguém vê, floresce. Eu, tu e eles precisamos também florescer antes de morrer. E uma planta não floresce o que não é dela. Se macieiras não dão laranjas, deverias tu seguir um caminho que não é o teu?

Enquanto a roda gigante se diverte conosco, o que fazemos? Que verdades tuas tens semeado no mundo enquanto ele te carrega de uma vida pra outra? Não compramos os bilhetes pra estar aqui, mas escolhemos os destinos que queremos seguir enquanto neste lugar estamos. Vais por aí porque queres ou porque te levaram?

Não sei se cabe um conselho, mas acredito na partilha:  eu preciso florescer e para isso algumas folhas precisam cair. Não tenhas medo de dizer adeus, de fechar os olhos, de encarar o silêncio e desaparecer um pouco para tudo aquilo que não é teu. É preciso morrer para florescer e é preciso florescer antes de morrer. 

Segunda-feira tem dica de leitura (larga um pouco o celular)

Segunda-feira é o dia mundial do recomeço (para quem trabalha e faz tudo certo de seg-sex mas deixa tudo pra lá no final de semana). Também é o dia em que prometemos começar um hábito ou continuar aquele projeto que precisa ser finalizado. Não é à toa que seja um dia tão hostilizado! 

Aproveitando a onda de promessas e overdose de determinação, quero indicar um livro toda segunda-feira aqui no Travessias. Lê quem quiser e tiver tempo, quem não gostar apenas segue em frente. Se você tiver algum livro pra me indicar também, fique à vontade!

Hoje vou falar de um livro que estou terminando de ler. É uma espécie de transcrição da conversa entre os autores Leandro Karnal e Monja Cohen. A leitura é muito fácil, saborosa e nos convida a uma reflexão que não dói, mas que nos desperta. Tópicos como Cultura de Violência e Medo, Disciplina libertadora, Coerção e Consenso, Tolerância e Limite são abordados pelos autores, dois grandes estudiosos sobre a história da humanidade em suas áreas de atuação.

O título “O Inferno somos nós”  brinca com a icônica e irônica frase de Jean Paul Sartre ‘O inferno são os outros’ (para conhecer um pouco esse filósofo clique aqui). A obra versa sobre a possibilidade de se produzir uma atitude menos agressiva e mais acolhedora a partir do momento em que o conhecimento de si e do outro substituem a cultura do medo e do preconceito.

Duas potências abordando a possível travessia do ódio à cultura de paz, Leandro é historiador e Monja Cohen é fundadora da comunidade Zen-budista do Brasil. Você não precisa ser budista ou professor de História pra se aventurar nessa obra, ela dá a impressão de que foi feita justamente pra quem não é especialista nesses temas. Aliás tanto Karnal quanto Monja Cohen se tornaram populares pela linguagem acessível e versátil que adotam em suas palestras e obras. Boa leitura!

Mudanças nossas de cada dia

Minha prática torta do budismo tem me revelado um mundo que sempre esteve aí, mas era sutil demais pra ser percebido. Assim como aconteceu com essa planta, tenho morrido várias vezes, perdido folhas e pétalas; a razão é minha força de transformação. Hoje entendo o motivo de sempre estar aberta a mudanças e de nunca ter tido medo de tentar o difícil, até quando parecia impossível.

Junto com a aceitação tenho aprendido a morrer sem dor, a decidir com a razão e a deixar ir tudo o que já não faz mais sentido. A ansiedade vai embora quando vejo essas folhas novas brotando numa planta que vi secar. A certeza de que aceitar mudanças é necessário me afasta da culpa que um dia senti por ser assim desbravadora, aparentemente inconsequente.

Aqui quero compartilhar minha verdade, coisa que nos dias de hoje nem sempre a gente pode fazer. Desejo que você, leitor (a), possa passar por mudanças muito boas, mesmo que um pouco turbulentas. Que depois delas você desfrute das flores e frutos e que um dia você perca o medo do que ainda está por vir.

Apesar de cíclica a Natureza precisa ser também misteriosa, só assim temos o privilégio da surpresa e do encanto. Se você achar necessário, ande no escuro, mude de emprego, abra mão do que não te faz melhor do que você já é. Abra as portas e janelas e deixe o sol entrar! Namastê.