Da varanda de minha avó

A varanda nunca é a mesma porque cada vez que estou nela sou um pouco diferente. As pessoas que vejo daqui tambem não são as mesmas, até as águas tem outro brilho, refletem o que antes não estava ali.

A mudança, como a morte, é inevitável. O tempo é imbatível. Nunca saberemos ao certo o que cada milésimo de segundo pode provocar nos próximos instantes, como não sabemos ao certo quando cada mudança começou e terminou de acontecer.

Lá embaixo as pessoas conversam, riem, cantam, algumas silenciam e falam sozinhas com quem guardam no pensamento. Saberiam elas dizer quanto tempo ainda são capazes de guardar os detalhes dessas memórias?
Muito antigamente vinha aqui como espectadora, via minhas tias falarem do Chico e da Bethania como quem lembra de amigos distantes. Elas riam de histórias que hoje talvez nem lembrem mais. Naquele tempo nem passava pela minha cabeça que estaria exatamente no lugar delas saboreando essas lembranças da minha infância. Não faço ideia de aonde estarei quando lembrar que hoje estive aqui.

Foram as mudanças que me levaram pra longe e as lembranças que me trouxeram. Hoje faço do tempo minha moeda para viver e reviver tudo o que faz sentido e me constrói pétala por pétala. Ah sim, hoje sou flor!

Se te permitires lembrar, não alcançavas algum espelho quando eras criança. Crianças não precisam de espelhos. Adultos, somos escravos deles. Também tinhas alguma dificuldade para abrir algum armário, medo de entrar no quarto de alguma tia ou uma curiosidade enorme para saber o que sua avó guardava nas gavetas. Enquanto penso nisso, vejo um garoto correndo e saltando entre pilastras, soltando gritos de conquista cada vez que acerta todas elas. O que te fazia gritante alegria que hoje já não tem mais importância?

Culpamos o tempo pelo que não volta mais, quando na verdade somos nós que mudamos e deixamos para trás o que já não nos serve.

Há ainda o olhar que lançamos sobre a mudança alheia, muitas vezes sem nenhuma piedade. Na faculdade aprendi um termo que jamais esqueci: etnocentrismo. Quando olhas alguém a partir do teu lugar, ponto de vista e conjunto de valores sem levar em consideração que aquela pessoa é um universo totalmente diferente. Não penses que é preciso respeitar apenas os sonhos de alguem: há que se guardar a língua diante das mudancas de uma pessoa.

Aqui embaixo da varanda tem uma árvore linda, cheia de flores amarelas. Eu não estava aqui para ver todo o sol e toda a chuva que ela tomou, nem tu estavas lá na vida da pessoa para medir as consequências da Natureza em sua vida.
Toda pessoa já tomou sol e chuva, já se fartou e jejuou, chorou e sorriu, escuta a história contada por ela, não o que outras pessoas falam sobre suas mudanças.

O tempo passa para todos nós.
Toda pessoa que tu conheces tem lembranças (umas doces, outras dolorosas).
Sol e chuva estão aí para todos.
Tolera, reconhece teu lugar, respeita e se fores grande o suficiente, aplaude de pés, porque mudar nunca é fácil.

Bato palmas para todas as flores que resistem ao verão e reverencio todas as que sobrevivem ao inverno! Em especial para uma grande árvore que hoje completa mais uma volta ao sol. Que haja sempre harmonia e serenidade em sua vida!

Do Porto de Lenha a Portuscale

Há algum tempo venho postergando esse tema por ainda não sentir segurança suficiente de trazê-lo aqui. Mas passados meus 3 primeiros meses no meu novo lar, acredito que já tenho argumentos suficientes para falar da escolha que fiz de vir morar em Portugal.

Aqui os homens não mexem com as mulheres nas ruas. Não há cantada de pedreiro, não há puxão de cabelo nas boates, muito menos mão boba no meio da multidão. Tanto em Lisboa quanto no Porto posso ir e vir a qualquer hora do dia (inclusive depois das 00h) e absolutamente nenhum homem me fez sentir um pedaço de carne, como é muito comum no Brasil. Não estou dizendo que isso não acontece em Portugal, mas pelo menos comigo não aconteceu e nenhuma das minhas amigas daqui tem alguma história de assédio para contar.

Aqui as pessoas que moram nos centros ou nas freguesias mais próximas utilizam com bastante frequência o transporte urbano (metrô e ônibus). Aliás, o metrô do Porto é a coisa mais linda que eu já vi na minha vida! Diferente do de Lisboa e do de São Paulo, por exemplo, NÃO HÁ CATRACAS! Finalmente eu pude ver um sistema de transporte que oferece o melhor serviço e conta com a colaboração e boa conduta das pessoas. Nós apenas validamos nosso cartão num leitor digital e seguimos em direção à plataforma de embarque. Claro que nas estações aonde pode-se fazer baldeação há muito movimento e portanto, seguranças de olho. Não estou dizendo que ninguém trapaceia, mas posso afirmar por observação que a maioria usa o serviço com respeito e honestidade, o que faz ele ser assim tão LINDO! Os ônibus não tem cobradores e circulam em faixas específicas na maior parte da cidade. Mesmo que o embarque de passageiros demore um pouco mais porque o motorista acaba tendo que dar o troco para as pessoas que pagam a passagem na hora (podemos usar o mesmo cartão – que é recarregável – do metrô nos ônibus), mas absolutamente ninguém xinga o motorista ou a senhora sua mãe.

O famoso BBB pode ser visto todos os dias quando o assunto é comida. Lembrando que estou falando do ponto de vista de moradora, não de turista! Já citei em outro texto aqui do Travessias a cultura de tascas. Pois além de menus deliciosos a preços baixíssimos temos acesso a supermercados low cost estrangeiros e locais, ambos com muita variedade e promoções (a carne aqui é mais cara que no Brasil, mas quando está próximo da data de validade tem desconto). Há também muitas quitandas e vendinhas espalhadas pela cidade, eu diria até que tem uma a cada esquina; não precisamos ir pra muito longe para comprar bons alimentos com ótimos preços.

Cultura de reciclagem e responsabilidade ambiental. Queridos, o hábito dos portugueses que tenho conhecido é um tapa na nossa cara… Além de separar todo o lixo de casa (em papel, plástico, vidro, metal e biológico) eles também usam o saco de lixo adequado e têm sua sacolinha de supermercado pessoal. Lembro do nervosismo que me dava em Manaus quando  colocavam uma sacola dentro da outra na hora de embalar as compras e de quando via outras clientes pedindo mais sacolas pois seriam usadas para pôr o lixo de casa. SENHOR, TEM PIEDADE! Infelizmente o pessoal aqui está muito mais avançado em relação à consciência ambiental. Tem exceções? Lógico que sim. Mas a grande maioria se importa muito com o descarte de lixo e uso de plástico.

Estou segura aonde quer que eu esteja (e a qualquer hora). É impressionante como as pessoas aqui se sentem seguras também. Isso inclui andar à noite sozinho (a) nas ruas, nos ônibus, usar o celular – USAR O CELULAR A NOITE SOZINHA NA RUA, etc. Há policiamento e com certeza há crime também, mas eu acredito que a pessoa precisa estar com muito azar pra ser assaltada aqui. Lógico que há áreas com maior risco de incidente de crime, mas é algo tão raro que a gente quase não fica sabendo quando acontece. Só de poder ir ao supermercado a pé à noite e voltar com meus dois rins intactos, celular na bolsa e compras na sacola sem nenhum arranhão sinto-me a pessoa mais abençoada do planeta.

Poderia me extender citando outras belas particularidades, mas no momento é o que eu gostaria de expressar. Meu lado brasileiro é amazonense de corpo e alma e morre de saudades do jaraqui com farinha d’água, do açaí de Codajás. Sinto saudades de Maués, da minha família, das minhas plantas que só existem aí, de banho de rio, de pôr-do-sol na beira do rio…

Mas tenho sonhos mais urgentes que minhas saudades. Enquanto vou realizando uma parte deles daqui de Portugal, vou guardando a saudade da minha terra e a esperança de que um dia meus descendentes possam viver felizes nela. Não sou pessimista, sou realista. Um lugar tão incrível como o Amazonas merece um futuro decente e infelizmente está muito longe disso. Força aos que estão aí e comam muito peixe por mim!

Eu te desejo

Alguém 

que te avise que, por estares distraído, teu cigarro já acabou e chegaste no filtro;
que te mande mensagens durante a noite desejando bom dia para que leias ao acordar;
que te lembre que o tempo que passa não volta, que às vezes te faça esquecer do tempo e que te incentive a ter paciência e espere o tempo que precisas esperar;
que te fale palavras duras e verdadeiras, doces e comoventes, que te escute falar;
que te garanta que estará ali pro que der e vier;
que goste de conversar contigo sobre teu dia, que te pergunte o que jantaste;
que lave a louça e busque um copo d'água pra te agradar;
que perca a paciência contigo de vez em quando e te ensine a ser tolerante também;
que chore, sinta medo e cansaço ao teu lado e te mostre o que há de mais humano em alguém, que te seja mestre e aluno sem que vocês estabeleçam esses papéis;
que te diga que sente tua falta ou saudade de estar contigo;
que queira ficar um bom tempo sem fazer nada contigo;
que te mostre as flores que gostas (estejam elas aonde estiverem, estejas tu aonde estiveres).
Amigos

que te peçam pra dormir mais tarde para jantar contigo depois do trabalho;
que te mostrem vídeos divertidos, jogos emocionantes, filmes que com certeza vais gostar;
que aceitem participar dos teus planos infalíveis e em momento algum te traiam;
que quando te decepcionarem, te peçam perdão e tu perdoes, porque a amizade é maior;
que quando os decepcionares, peças perdão e sejas perdoado, porque a amizade é maior;
que lembrem de ti; 
que te defendam e não tenham vergonha de te apoiar nas tempestades;
que te chamem no canto e te sugiram que você se atrase menos ou manere nos comentários;
que te perguntem se queres algo do supermercado, perdoem teu esquecimento e riam das tuas bobagens;
que te escutem e te digam o que precisas ouvir quando o mundo inteiro não lembrar que tu existes;
que te ofereçam colo, companhia e bebida;
que briguem contigo e façam as pazes depois;
que lembrem teu aniversário e telefonem pra te dar os parabéns;
que esqueçam teu aniversário e telefonem 1 semana depois pra dar parabéns mesmo assim;
que sumam, que reapareçam, que vivam na tua memória e tu na deles, que vocês sorriam;
que independente da localização geográfica continuem sendo teus amigos.
Uma varanda

pra onde voltas quando terminas tua saga diária,
aonde pões tuas plantas, luzes e cadeiras mais confortáveis,
com quem possas compartilhar o melhor da tua solidão, sonhos e esperanças,
de onde possas ver o céu, teu futuro com brilho nos olhos e teu passado com serenidade.
Uma cozinha 

aonde prepararás teus melhores banquetes, 
aonde afogarás tuas mais terríveis mágoas e ansiedades, 
aonde metaforicamente lavarás a louça da tua consciência e da tua alma.
Livros

que te falarão o que ninguém mais te fala, 
que te ensinarão o que ninguém poderia te ensinar,
que te ajudem a ser aquilo que teus sonhos precisas que sejas antes de torná-los realidade, 
que te levarão pro lugar aonde só poderias ir através da imaginação.
Músicas 

que te despertem saudade, alegria, questionamentos e reflexões, 
que te inspirem a adotar ou abandonar um hábito, 
que tenham o cheiro e a cor que precisares para acalmar o choro, 
que te façam sentir em casa.
Sossego

para planejares teus passos;
para lembrares dos teus passos;
para passeares teus sonhos;
para somente ser, somente estar.
Desejo que tenhas uma noite de sono revigorante, um amanhecer cheio de gratidão e paciência para o que tiveres de administrar o que acontece enquanto um acaba e o outro começa. 

Desejo que te sintas parte de um Universo enorme, abençoado, amado, importante, capaz, forte e frágil, sensível e sensato, que ajas como louco quando precisares. 

Desejo que tenhas tolerância com teus defeitos, que faças as pazes com o espelho, que tenhas piedade e amor-próprio antes de tomar qualquer decisão importante. Desejo que tenhas tempo para tomá-las. 

Que nada nem ninguém te impeça de ver beleza até aonde não há.
Desejo que desejes, mas que não te apegues nem te percas nas águas escuras da ambição desmedida. Que ames mas que não te esqueças que o amor precisa crescer junto contigo, que perdoes e que aprendas com os erros dos outros e com os teus. Desejo que possas voar para longe daquilo que te agride e diminui. Que sejas maior que que teus medos e menor que tua bondade. Desejo que tenhas sede de realizar teus sonhos e palavra para cumprires tuas promessas. 
Desejo que entendas que humildade vem antes de conta bancária e formação profissional, que saudade dói e nem por isso não podes sentí-la, que todo amor pode um dia acabar e nem por isso precisas evitá-lo. Que tua consciência seja teu guia e teu melhor travesseiro. Que tua boca seja instrumento da tua verdade.
Desejo muito, muito mesmo que sejas tua melhor versão, mesmo que de vez em quando precises ser o que as pessoas ao teu redor querem que sejas ou o que elas não gostariam que fosses. Que rias de ti, que rias dos bebês, dos animais, que rias com teus amigos e não deles. Desejo que sejas leve.

Que possas ter a vida que mereces, caminhar por onde queiras e fazer o que te fizer feliz. 

A importância de lavar sua louça suja

Lembro bem de como minha mãe me desafiava durante minha adolescência a ter um dia uma casa limpa e organizada. O motivo? Eu era aquela adolescente que um dia foi a criança que os pais não só não ensinou como não cobrou que lavasse a própria louça.

Foi durante a adolescência que a avó de um namorado da época me fez alguns comentários (de forma muito, muito doce e didática) e passei a refletir sobre a importância de lavar a louça que usasse, fosse na casa aonde eu morasse sozinha ou num lugar aonde coletivamente se usasse a cozinha.

Morando com mais estudantes na Irlanda (jovens da Espanha, República Tcheca, França, Bélgica…) passei dias e noites de fúria porque senti na pele como é desrespeitoso chegar em casa cansada e ainda ter que lavar a louça dos outros antes de poder fazer a própria comida e então matar uma fome de leão. Foi complicado mas conseguimos nos alinhar e lá em casa ficou definido que depois de usar tinha que lavar, e ponto final.

Morando sozinha senti o vento da liberdade sob minhas asas, e quando não estava afim eu simplesmente não lavava a louça! Já deixei uma pilha de pratos e panelas sim, mas eu sentia na hora de limpar tudo aquilo quão agradável seria se eu só precisasse lavar a metade. A minha procrastinação tinha um preço.

Lavar ou não a louça que você usa diz muito sobre você:

1- Você se responsabiliza pelos seus atos?

2- Você assina embaixo do que disse baixinho?

3- Você tem respeito pelas pessoas e pelo bem estar que elas merecem tanto quanto você?

4- Você leva a sério sua higiene pessoal, a higiene do local aonde você dorme e de onde passa a maior parte dos seus dias?

5- Você é humilde o suficiente para molhar/sujar suas mãos para lavar pratos que não são seus como símbolo de gratidão/caridade/serviço?

6- Você resolve a sujeira que faz na sua vida e na vida dos outros?

Espero que você possa ter respondido mais “sim” que “não”.

Ah, antes que eu me esqueça:

Sempre haverá louça para lavar, então evite perder seu tempo com você sabe o que!

Que seja leve

Querido amigo leitor, 

Se tua semana foi satisfatória, que bom, agradece!
Se poderia ter sido melhor, está tudo bem. Agradece pelas próximas que terás pela frente.
Se tudo foi por água abaixo, aproveita para nadar e refresca-te um pouco. Todo caos traz a chance da renovação. 

A dor tem o fim que construíres pra ela, o amor tem o tamanho do espaço que tens livre para ele, a vida tem a cor que teus olhos são capazes de ver. 

Que apesar de tudo o que te aconteça nunca te falte alimento para a alma e para o corpo. 
Que apesar das decepções nunca te falte amor próprio, compaixão e empatia. 
Que o sorriso de qualquer pessoa te desmanche e te ajude a sorrir também. 

Essa vida é teu presente. 
Escuta teu espírito, fecha os olhos e faz as pazes com ele.  
Semeia o melhor de ti, separa água e comida para os pássaros, lembra que fazes parte da mesma Natureza que eles. 
Aquilo que mais te incomoda é tua lição, aprende e segue em frente. 

Teu "melhor lugar do mundo" é aqui e agora. 
 
Com muito, muito, muito amor, 
Marília

 

A duras penas

Sinto pena de quem tem medo de olhar pra dentro, de atravessar os próprios desertos e buscar nas próprias entranhas um propósito e um grão de humanidade.

Sinto pena de quem se dá por vencido no primeiro coração-partido, na primeira guerra perdida, no interminável “não” de uma segunda-feira quente e cinza, de quem engole seco porque não se sente capaz de jogar tudo para o alto e ir em busca do sol.

Sinto pena de quem não é de verdade por excesso de maquiagem, de roupa e de mentiras; é deprimente ser um personagem, ainda que se bata no peito dizendo que foi criado por si, que tem vida própria. Sinto pena da mentira que contam para si mesmos antes de contar pros outros, da máscara de cílios que não sai da alma, da gravata que enforca a força da verdade.

Sinto pena de quem precisa de flashes por não saber lidar com a própria escuridão. 

Sinto pena de quem não se arrepende, não volta atrás da decisão e insiste num padrão de comportamento porque é o mais seguro. Sinto dó dos que sofrem calados mas não assumem que fariam diferente.

Sinto pena de quem devora a vida de alguém para tornar a própria vida menos amarga e insegura. De quem devora corações, pisa em sonhos e quando está de barriga cheia, cospe fogo em quem antes chamava de amor. Sinto pena de quem precisa sair com todo mundo porque tem medo de sair com uma pessoa só.

Sinto pena de quem põe armadilhas ao seu redor por medo do escuro. De quem não sabe que escuridão é só falta de luz própria, sinto uma pena que não cabe em mim.

Sinto pena de quem precisa de tudo e de todos, ao mesmo tempo e o tempo inteiro sem ter o privilégio de uma semana de solidão. Sinto pena de quem nunca fechou os olhos e conversou com o mar, sem medo algum de ser devorado ou molhado por ele.

Sinto pena de quem se corta, se sabota, se anestesia, se põe pra baixo, se desculpa e se priva de ar. As maiores prisões somos nós mesmos que construímos e trancamos por dentro.

Sinto pena de quem guarda mais dinheiro que recordações, de quem coleciona corações, de quem guarda rancor. Se pudesse chamaria pra um café e diria que o mundo é maior que qualquer conta bancária ou ego.

Sinto pena de quem fala muito e não diz nada, de quem não acredita no que fala e por isso é repetitivo, de quem não acredita no que ninguém fala, de quem não quer saber o que o mundo tem pra lhe dizer. Sinto muita, muita pena de quem acredita que comunica mas não passa de portador de verborragia crônica.

Sinto pena de quem vende a alma, os sonhos, o tempo livre. De quem não tem pena de si, dos outros, de quem não vê humanidade enquanto escova os dentes.

Sinto pena de quem assim como eu é eterno caçador de si mesmo. Sinto pena de você, escravo virtual. Sinto pena de todos nós que precisamos perder para reconhecer o que nos é valioso, sofrer depressões para valorizar sorrisos esporádicos e gratuitos, passar por um divórcio  para recuperar o amor-próprio.

Sinto pena de quem não ri de si mesmo, de quem tem medo de ter filhos e sonhos, de quem detesta natureza. Sinto pena de quem não se sente parte do Universo.

Sinto pena das paixões que nunca tiveram fim e que nunca foram reais, dos sonhos largados no canto da sala, das alianças que são de ouro mas não são de verdade, dos medos guardados no cofre como tesouros.

Hoje não queria sentir nada, mas sinto pena de mim mesma por ser capaz de falar de tanta coisa linda mas precisar dizer que sinto pena (mesmo sabendo que toda semente tem seu tempo).

É preciso florescer antes de morrer

Não sei qual era a sensação nos tempos de nossos avós, mas sinto-me numa roda gigante que não pára nem que eu peça “socorro”. O mundo não pára só porque queremos descer . Há como florescer sem cair?

Mudanças acontecem enquanto sorrimos, dormimos, quando estamos distraídos ou chorando de saudade. Porque a vida é como um pássaro que descansa num galho mas que uma hora terá de voar, há que se levantar da cama e tomar um banho pra que esse dia não seja perdido. Nem sempre há tempo para ver a vida passar.

O que me incomoda não é a fluidez da rotina, a velocidade da roda gigante ou estar nela sob o pretexto de ser “o dom da vida”, mas todas as imagens e acontecimentos que nos são jogados e que precisamos interpretar e absorver. É quando mais precisamos olhar para dentro que somos forçados a olhar para fora. Nessa corrida maluca de quem viu mais, quem falou mais, quem viveu mais que nossa viagem se confunde com história do mundo. Quem te garante que vives tua vida e não a dos outros que estão ao teu redor?

Preciso de calma pra sentir saudade, pra chorar de alegria e pra ver a própria alegria nos momentos mais simples. Mas com tanta imagem e tanto som desnecessário as mais belas experiências passam batido, e me afogo no oceano do qual nem sinto que é meu. Tens certeza de que és daí, que aí queres permanecer?

Respostas rápidas, impressões imediatas e ao final do dia não fomos nós mesmos. 

Quando consigo observar atentamente um idoso sentado na praça me transporto pros seus olhos e imagino o que estaria pensando, já que não parecemos estar na mesma roda gigante. Sou eu quem vai muito rápido ou ele que não tem pressa de chegar?

Eu quero, eu preciso, eu gosto, eu detesto, eu, eu, eu, eu… Só eu não vejo conforto nesse trono que o desejo nos faz imaginar, querer tanto o tempo todo? Somos mesmo senhores de nossas vidas?

Como um lençol branco usado (ainda que permanecendo branco) precisa ser lavado, sinto que periodicamente preciso respirar e voltar à minha essência. Acho que as freiras do colégio aonde estudei a vida inteira já sabiam disso e nos ensinavam através de retiros espirituais e momentos de introspecção (reflexões, meditação, etc) como voltar a nós mesmos. Não é sobre a religião que segues, é da tua individualidade, da minha essência que estou falando. Tens sido tu mesmo?

Às vezes preciso parar. Como a roda gigante não permite, aprendi que posso fechar os olhos, fazer silêncio e me transportar pelo vazio da mente pro meu lugar, que não está em lugar nenhum. Sabes aonde fica teu lugar?

A vida passa em silêncio porque vemos fotos, vídeos, concertos, vemos diferenças aonde elas não existem. Vemos o que não precisamos. Ouvimos o que não precisamos. Falamos o que não gostaríamos. Uma vida pra chamar de tua que usas como instrumento alheio. Querias mesmo fazer parte de histórias que não te convém?

Quem sou eu quando não me vês, quem és quando apagas todas as luzes do quarto e só escutas a própria respiração?

A Natureza é sábia, assim penso… e ao invés de morrer, ela disfarça e quando ninguém vê, floresce. Eu, tu e eles precisamos também florescer antes de morrer. E uma planta não floresce o que não é dela. Se macieiras não dão laranjas, deverias tu seguir um caminho que não é o teu?

Enquanto a roda gigante se diverte conosco, o que fazemos? Que verdades tuas tens semeado no mundo enquanto ele te carrega de uma vida pra outra? Não compramos os bilhetes pra estar aqui, mas escolhemos os destinos que queremos seguir enquanto neste lugar estamos. Vais por aí porque queres ou porque te levaram?

Não sei se cabe um conselho, mas acredito na partilha:  eu preciso florescer e para isso algumas folhas precisam cair. Não tenhas medo de dizer adeus, de fechar os olhos, de encarar o silêncio e desaparecer um pouco para tudo aquilo que não é teu. É preciso morrer para florescer e é preciso florescer antes de morrer. 

Carta à Paternidade: Pai é aquele que ama

Passado o domingo do pai, venho falar de uma experiência repleta de chegadas e partidas, de crescimento e reencontros, de amor e de perdão.

Ao invés de presentes, declarações e abraços decidi escrever uma carta e endereçar à você, Paternidade. Como toda pessoa, você é diversa em si mesma e foi quando te entendi, passei a te amar como filha.

Pela sua perseverança em sonhar, fazer planos e vibrar cada vitória como uma conquista olímpica; por imaginar que foi difícil pra você conter as lágrimas ao som do primeiro “papai” e como você se encheu de luz ao testemunhar os primeiros passsos de um ser que mesmo tão pequeno te fez sentir um amor muito maior que você, te envio um grande abraço.

Sabendo que você silencia, preserva a si e à cria, que engole o choro e o sofrimento a seco, que disfarça a tristeza e esconde o medo e, como quem não tem opção, atravessa um incêndio sem um gemido de dor sequer: aqui vai o meu abraço.

Sei que você, Paternidade,  também se confunde, se perde, se culpa e se arrepende. Não é fácil ser humano quando a vida e as pessoas nos tratam como animais. Acredite, tudo que te aconteceu até aqui te transformou numa paternidade mais sábia, amada e real. A maioria das pessoas não sabe que a paternidade também dói. Receba meu abraço, dessa vez mais demorado. E se precisar, pode chorar um pouco. Vai ficar tudo bem.

Por te admirar na sua história, na sua ausência justificada, pelo temor de te decepcionar e perder o seu amor e por sonhar em ter um dia uma pessoa como você na minha história, te peço um abraço que acalme minha ansiedade e meu medo. Céus, como te admiro e como fico sem chão quando imagino meu mundo sem sua existência!

Se a vida te deu esse papel muito cedo ou tarde demais, não importa.

Se ninguém te ensinou o que fazer com toda essa responsabilidade e por isso você às vezes não sabe se está agindo da maneira certa, não tem problema.

Se tudo isso aconteceu sem que você quisesse ou soubesse e por isso no começo você não agiu como gostaria (mas já sabe o que poderia ter feito), está tudo bem.

Se quem te deu essa missão foi a Natureza, a Ciência, a vida ou algum coração órfão, a sua importância não muda.

Muito além do dia de ontem e dos que te transformaram em quem você é hoje, mais que a responsabilidade de salvar e ensinar, você é muito importante. O mundo inteiro te admira e te quer bem.

Por fim e não menos importante te dedico minha gratidão pela maior lição: pai é aquele que ama. 

Parabéns, me perdoe, eu te amo e obrigada.

M de Mulher e de Medo

Ontem pela manhã li no Globo sobre uma universidade japonesa cuja administração do curso de medicina alterava notas para favorecer candidatos e alunos do sexo masculino com o argumento de que “mulheres podem engravidar e com isso abandonar o curso”. O que senti foi tristeza. Podia ser comigo, com você que está lendo esse texto, com suas amigas, com sua filha, com qualquer mulher.

Ainda nesta semana conversei com alguns amigos sobre o assassinato da paranaense que, vítima de inúmeras atitudes abusivas e opressoras por parte do marido, não foi socorrida quando esteve entre a vida e a morte. Imagino se ela própria não interpretou o comportamento do marido como machista, violento e maléfico a tempo; ou (um cenário ainda mais grave e comum) que quando se deu conta do pesadelo que vivia a dois não foi capaz de sair dele por alguma crença ou medo do julgamento moral-cristão que sofreria. 

Este foi só mais um de tantos casos que acontecem nos lares familiares do Brasil e do mundo afora. 

Ainda nesta semana soube dos números alarmantes de mulheres agredidas em Manaus. De Janeiro a Junho foram registrados 7.458 casos de violência doméstica na cidade, uma média de 41 casos por dia num período de 6 meses. Veja bem, esses números são de casos REGISTRADOS. Quantos outros não foram e nunca serão reportados? A notícia completa está aqui: https://www.acritica.com/channels/manaus/news/de-janeiro-a-junho-de-2018-manaus-registrou-7-458-casos-de-violencia-domestica

Senhores, é de partir o coração. 

Mas escolhi falar não somente da violência masculina sobre a mulher. Ainda mais espantoso é o ódio de uma mulher em relação à outra. Há quem diga que o machismo está aí por ser repetidamente praticado pelos homens. Atrevo-me a sugerir que é o reforço feminino que fortifica e também perpetua o machismo. Como? Basta lembrarmos da última vez em que estivemos entre amigos (incluindo mulheres) e o assunto foi a roupa provocativa de uma garota na festa, o comportamento da solteira que beija quem quiser sem nenhum pudor ou a menina que só quer jogar bola e os pais já não sabem mais o que fazer para “afastá-la das más companhias”. 

Consigo lembrar de amigas de infância debochando de alguma confidência  minha que “não era coisa de uma garota direita” e de um colega de trabalho duvidando da minha solitude durante uma viagem, afinal de contas “mulher não pode viajar sozinha”. 

Durante o verão, por exemplo, é impossível vestir roupas quentes e pesadas, mas ainda ouvimos e até pensamos comentários maldosos sobre mulheres que preferem bermudas curtas ou regatas mais cavadas. Somos incompreensivas e cruéis com aquelas que sentem o mesmo calor que nós e que são mais corajosas e seguras para fazer escolhas que o mundo desaprova. Nos odiamos, temos vergonha das curvas que nos identificam como mulheres e sentimos pavor de sermos descobertas em nossa mais profunda feminilidade. Logo, é mais fácil reforçar um comentário e atitude machista que aplaudir aquelas que nos abrem caminhos sem nos cobrar absolutamente nada, somente respeito.

Quando questionada sobre ser feminista ou não faço questão de pensar a melhor maneira de explicar meu posicionamento. Para cada pessoa há uma resposta adequada, visto que neste tipo de conversa o objetivo é trocar ideias, não é chocar. Quase sempre digo que não sinto orgulho do feminismo como não sinto orgulho de precisar usar um sutiã para disfarçar o que toda a humanidade sabe que tenho. Feminismo, feminazi, mimimi de mulherzinha e todas as outras formas de perceber a movimentação de uma minoria que só quer se defender de agressões e se colocar num lugar de plenitude e dignidade precisam não somente de adeptos, mas de respeito. Só existe feminismo porque existe machismo. Só existe machismo porque existe reforço. O feminismo não combate o machismo, mas o reforço de uma ideia que oprime as diferenças com base num determinismo ora religioso, ora moral-convencional.

Quantos de nós foram criados por seios envergonhados do próprio poder e ensinados a colocar-se no seu devido lugar (lugares diferentes para sexos diferentes) sem sequer aprender a criticar essa predestinação maléfica que insistem em chamar de divina? Quantas vezes reproduzimos falas e comportamentos que por alguns segundos sabemos que não são nossos, mas não vemos alternativa sobre eles?

Hoje não sinto vergonha de ser mulher. Principalmente por causa dos olhares femininos que julgam, condenam e ignoram minha humanidade; pela falta de solidariedade com o sofrimento que nos aflige numa briga “de casal”, pelo silêncio recebido das colegas de trabalho quando confidenciamos uma situação de assédio, pelo deboche inescrupuloso com que nossos maiores sonhos são recebidos dentro de nossas próprias famílias, o que sinto em relação à minha feminilidade é insegurança, ansiedade, impotência. Sinto medo de ser verdadeiramente mulher. 

Quanto vale uma consciência tranquila?

Primeiramente, parabéns por ter clicado nesse texto. Se você se interessou pelo tema significa que no mínimo está atento à importância de se ter uma consciência tranquila para viver em paz. Se você fez alguma bobagem ultimamente ou se tem uma lista impublicável de travessuras e maldades, proponho um passeio que  pode te fazer bem.

Muitas pessoas falam em felicidade, sucesso, saúde, conquistas e realização pessoal como bênçãos sempre lembradas em suas orações e metas diárias em suas vidas. Tudo isso é bacana, dá sentido e cor ao caminho da existência e tudo mais. Porém quase ninguém cita paz de espírito e consciência tranquila como objetivos diários. Faça o teste, pense nos últimos cinco dias da sua vida: por acaso você saiu de casa desejando voltar com paz de espírito e pela noite dormir com a consciência tranquila?

Muito além da tranquilidade/serenidade, a paz de espírito e a consciência tranquila são conquistas que na maioria das vezes requerem exercício de valores, cumprimento de regras e quase sempre sucedem uma bifurcação moral, aonde é colocado à prova o que fazemos na frente dos outros e quem realmente somos quando ninguém está olhando.

“Mas Marília, o que te fez escrever sobre isso?”. A minha sensação de consciência tranquila. Como ser humano, cidadã, mulher, profissional e tudo mais que sou, tenho um orgulho enorme de ter aprendido com minha mãe essa lição de ética, de ter entendido que mais vale sono tranquilo que se aproveitar da fraqueza de alguém. Recentemente numa conversa relembrei um episódio absurdo que vivenciei no ambiente profissional e que claramente dizia respeito a egos infelizes.

Ego, leitor, é o que você é. É a soma de sonhos, aprendizados, expectativas, frustrações, é tudo o que você já fez e pretende fazer. E o ego pode ser seu maior inimigo (você mesmo) quando te propõe caminhos que pelo aprendizado moral você sabe que não deveriam ser sequer pensados como possibilidades.

1- Se você precisa trapacear para ganhar, significa que você não é bom o suficiente para o que se propõe. Repense suas escolhas, melhore como pessoa e tente mais tarde.

2- Se você precisa de alianças secretas com propósitos destrutivos para ser querido, valorizado, ter o cargo ou a equipe de trabalho dos seus sonhos, você precisa antes de tudo de terapia. Lavando pratos ou dirigindo uma empresa, antes de ser um ótimo profissional você precisa ser uma pessoa segura e tranquila quanto ao seu potencial. Pessoas seguras de si não perdem tempo com trapaças, elas sabem que não precisam disso.

3- Se os valores da sociedade em que você vive não são interessantes para você, mude-se! Voce não é uma árvore e não precisa dormir e acordar cometendo erros e injustiças, acumulando grandes malfeitos com a desculpa de ter que “ser assim pra sobreviver ao sistema”. Não quer ser corrupto, mentiroso e falso? Tente ser ético ou vá morar em uma tribo que tenha valores similares aos seus. Você nasceu livre e cheio de direitos mas é sua obrigação conviver com a liberdade e direitos das pessoas ao seu redor.

4- Mudar de ideia e arrepender-se fazem parte do amadurecimento. Na mesma conversa que citei anteriormente recebi essa lição linda e quero repetí-la em pelo menos mais 10 textos meus. Gente que pede desculpas, que perdoa, que ajusta sua opinião após ter acesso a dados que não tinha antes, que fala que mudou de ideia sim e não nega o que fez/falou no passado, essa gente está caminhando para a direção da maturidade e cabe a todos nós incentivar esses comportamentos quando percebidos nas pessoas ao nosso redor!

5- Se você fez algo muito feio e não se arrepende, fica por sua conta se olhar no espelho e encarar quem você está se tornando. O sono é seu, a consciência é sua e só você poderá se consolar quando a bad da lei do retorno bater à sua porta. No caso de ter se arrependido, saiba que o remorso precisa vir acompanhado de mudança de comportamento para ser válido. Não dá para consertar o erro? Então assuma que errou, seja corajoso. Não consegue assumir por medo de punição e consequências? Conviva com a sua cruz e tente não repetir o malfeito. Todo mundo tem o direito de errar, mas é muito deselegante ser anti-ético e trapaceiro. Imagina só se as pessoas ao seu redor descobrissem o que você fez, será que elas continuariam sorrindo pra você todas as manhãs e confiariam que você é quem diz ser? E quando virasse as costas, o que acha que elas diriam a seu respeito?

Por último e não menos importante, compartilho as lições que dona Telma deixou e me livraram de muitos erros, além de me fazerem “cair pra cima” no último episódio de falta de ética que tive o desprazer de vivenciar. Não importa quão importante for o seu sonho, quão forte for o seu desejo e quão grande for o seu medo: seja quem seus pais e seus filhos gostariam que você fosse e pensam que você é. Depois dos aplausos e flashes somente sua consciência permanece com você. Faça o que você gostaria que fizessem a você. Suas escolhas são sementes, não adianta espremer pedra se você não cavou o poço direito. Todos os dias, antes de dormir, ela rezava em voz alta agradecendo pelo trabalho que tinha, pelo dinheiro que não tinha, pelo teto que abrigava seu descanso e pela noite de sono tranquila que já sabia que teria. Olhava pra mim e dizia: “não há melhor travesseiro que uma consciência tranquila”.

Um grande abraço e volte sempre!