Da varanda de minha avó

A varanda nunca é a mesma porque cada vez que estou nela sou um pouco diferente. As pessoas que vejo daqui tambem não são as mesmas, até as águas tem outro brilho, refletem o que antes não estava ali.

A mudança, como a morte, é inevitável. O tempo é imbatível. Nunca saberemos ao certo o que cada milésimo de segundo pode provocar nos próximos instantes, como não sabemos ao certo quando cada mudança começou e terminou de acontecer.

Lá embaixo as pessoas conversam, riem, cantam, algumas silenciam e falam sozinhas com quem guardam no pensamento. Saberiam elas dizer quanto tempo ainda são capazes de guardar os detalhes dessas memórias?
Muito antigamente vinha aqui como espectadora, via minhas tias falarem do Chico e da Bethania como quem lembra de amigos distantes. Elas riam de histórias que hoje talvez nem lembrem mais. Naquele tempo nem passava pela minha cabeça que estaria exatamente no lugar delas saboreando essas lembranças da minha infância. Não faço ideia de aonde estarei quando lembrar que hoje estive aqui.

Foram as mudanças que me levaram pra longe e as lembranças que me trouxeram. Hoje faço do tempo minha moeda para viver e reviver tudo o que faz sentido e me constrói pétala por pétala. Ah sim, hoje sou flor!

Se te permitires lembrar, não alcançavas algum espelho quando eras criança. Crianças não precisam de espelhos. Adultos, somos escravos deles. Também tinhas alguma dificuldade para abrir algum armário, medo de entrar no quarto de alguma tia ou uma curiosidade enorme para saber o que sua avó guardava nas gavetas. Enquanto penso nisso, vejo um garoto correndo e saltando entre pilastras, soltando gritos de conquista cada vez que acerta todas elas. O que te fazia gritante alegria que hoje já não tem mais importância?

Culpamos o tempo pelo que não volta mais, quando na verdade somos nós que mudamos e deixamos para trás o que já não nos serve.

Há ainda o olhar que lançamos sobre a mudança alheia, muitas vezes sem nenhuma piedade. Na faculdade aprendi um termo que jamais esqueci: etnocentrismo. Quando olhas alguém a partir do teu lugar, ponto de vista e conjunto de valores sem levar em consideração que aquela pessoa é um universo totalmente diferente. Não penses que é preciso respeitar apenas os sonhos de alguem: há que se guardar a língua diante das mudancas de uma pessoa.

Aqui embaixo da varanda tem uma árvore linda, cheia de flores amarelas. Eu não estava aqui para ver todo o sol e toda a chuva que ela tomou, nem tu estavas lá na vida da pessoa para medir as consequências da Natureza em sua vida.
Toda pessoa já tomou sol e chuva, já se fartou e jejuou, chorou e sorriu, escuta a história contada por ela, não o que outras pessoas falam sobre suas mudanças.

O tempo passa para todos nós.
Toda pessoa que tu conheces tem lembranças (umas doces, outras dolorosas).
Sol e chuva estão aí para todos.
Tolera, reconhece teu lugar, respeita e se fores grande o suficiente, aplaude de pés, porque mudar nunca é fácil.

Bato palmas para todas as flores que resistem ao verão e reverencio todas as que sobrevivem ao inverno! Em especial para uma grande árvore que hoje completa mais uma volta ao sol. Que haja sempre harmonia e serenidade em sua vida!

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