A duras penas

Sinto pena de quem tem medo de olhar pra dentro, de atravessar os próprios desertos e buscar nas próprias entranhas um propósito e um grão de humanidade.

Sinto pena de quem se dá por vencido no primeiro coração-partido, na primeira guerra perdida, no interminável “não” de uma segunda-feira quente e cinza, de quem engole seco porque não se sente capaz de jogar tudo para o alto e ir em busca do sol.

Sinto pena de quem não é de verdade por excesso de maquiagem, de roupa e de mentiras; é deprimente ser um personagem, ainda que se bata no peito dizendo que foi criado por si, que tem vida própria. Sinto pena da mentira que contam para si mesmos antes de contar pros outros, da máscara de cílios que não sai da alma, da gravata que enforca a força da verdade.

Sinto pena de quem precisa de flashes por não saber lidar com a própria escuridão. 

Sinto pena de quem não se arrepende, não volta atrás da decisão e insiste num padrão de comportamento porque é o mais seguro. Sinto dó dos que sofrem calados mas não assumem que fariam diferente.

Sinto pena de quem devora a vida de alguém para tornar a própria vida menos amarga e insegura. De quem devora corações, pisa em sonhos e quando está de barriga cheia, cospe fogo em quem antes chamava de amor. Sinto pena de quem precisa sair com todo mundo porque tem medo de sair com uma pessoa só.

Sinto pena de quem põe armadilhas ao seu redor por medo do escuro. De quem não sabe que escuridão é só falta de luz própria, sinto uma pena que não cabe em mim.

Sinto pena de quem precisa de tudo e de todos, ao mesmo tempo e o tempo inteiro sem ter o privilégio de uma semana de solidão. Sinto pena de quem nunca fechou os olhos e conversou com o mar, sem medo algum de ser devorado ou molhado por ele.

Sinto pena de quem se corta, se sabota, se anestesia, se põe pra baixo, se desculpa e se priva de ar. As maiores prisões somos nós mesmos que construímos e trancamos por dentro.

Sinto pena de quem guarda mais dinheiro que recordações, de quem coleciona corações, de quem guarda rancor. Se pudesse chamaria pra um café e diria que o mundo é maior que qualquer conta bancária ou ego.

Sinto pena de quem fala muito e não diz nada, de quem não acredita no que fala e por isso é repetitivo, de quem não acredita no que ninguém fala, de quem não quer saber o que o mundo tem pra lhe dizer. Sinto muita, muita pena de quem acredita que comunica mas não passa de portador de verborragia crônica.

Sinto pena de quem vende a alma, os sonhos, o tempo livre. De quem não tem pena de si, dos outros, de quem não vê humanidade enquanto escova os dentes.

Sinto pena de quem assim como eu é eterno caçador de si mesmo. Sinto pena de você, escravo virtual. Sinto pena de todos nós que precisamos perder para reconhecer o que nos é valioso, sofrer depressões para valorizar sorrisos esporádicos e gratuitos, passar por um divórcio  para recuperar o amor-próprio.

Sinto pena de quem não ri de si mesmo, de quem tem medo de ter filhos e sonhos, de quem detesta natureza. Sinto pena de quem não se sente parte do Universo.

Sinto pena das paixões que nunca tiveram fim e que nunca foram reais, dos sonhos largados no canto da sala, das alianças que são de ouro mas não são de verdade, dos medos guardados no cofre como tesouros.

Hoje não queria sentir nada, mas sinto pena de mim mesma por ser capaz de falar de tanta coisa linda mas precisar dizer que sinto pena (mesmo sabendo que toda semente tem seu tempo).

6 thoughts on “A duras penas

  1. Sinto pena mesmo quem não investe tempo lendo um texto brilhante, sinto pena muita pena de quem acha que comanda o tempo aprendendo a medir valores alem de palavras futeis que entram olhos adentro.

    Perfeitas palavras bem dispostas enroladas porem de significados e sons leves.

    Parabéns.

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