É preciso florescer antes de morrer

Não sei qual era a sensação nos tempos de nossos avós, mas sinto-me numa roda gigante que não pára nem que eu peça “socorro”. O mundo não pára só porque queremos descer . Há como florescer sem cair?

Mudanças acontecem enquanto sorrimos, dormimos, quando estamos distraídos ou chorando de saudade. Porque a vida é como um pássaro que descansa num galho mas que uma hora terá de voar, há que se levantar da cama e tomar um banho pra que esse dia não seja perdido. Nem sempre há tempo para ver a vida passar.

O que me incomoda não é a fluidez da rotina, a velocidade da roda gigante ou estar nela sob o pretexto de ser “o dom da vida”, mas todas as imagens e acontecimentos que nos são jogados e que precisamos interpretar e absorver. É quando mais precisamos olhar para dentro que somos forçados a olhar para fora. Nessa corrida maluca de quem viu mais, quem falou mais, quem viveu mais que nossa viagem se confunde com história do mundo. Quem te garante que vives tua vida e não a dos outros que estão ao teu redor?

Preciso de calma pra sentir saudade, pra chorar de alegria e pra ver a própria alegria nos momentos mais simples. Mas com tanta imagem e tanto som desnecessário as mais belas experiências passam batido, e me afogo no oceano do qual nem sinto que é meu. Tens certeza de que és daí, que aí queres permanecer?

Respostas rápidas, impressões imediatas e ao final do dia não fomos nós mesmos. 

Quando consigo observar atentamente um idoso sentado na praça me transporto pros seus olhos e imagino o que estaria pensando, já que não parecemos estar na mesma roda gigante. Sou eu quem vai muito rápido ou ele que não tem pressa de chegar?

Eu quero, eu preciso, eu gosto, eu detesto, eu, eu, eu, eu… Só eu não vejo conforto nesse trono que o desejo nos faz imaginar, querer tanto o tempo todo? Somos mesmo senhores de nossas vidas?

Como um lençol branco usado (ainda que permanecendo branco) precisa ser lavado, sinto que periodicamente preciso respirar e voltar à minha essência. Acho que as freiras do colégio aonde estudei a vida inteira já sabiam disso e nos ensinavam através de retiros espirituais e momentos de introspecção (reflexões, meditação, etc) como voltar a nós mesmos. Não é sobre a religião que segues, é da tua individualidade, da minha essência que estou falando. Tens sido tu mesmo?

Às vezes preciso parar. Como a roda gigante não permite, aprendi que posso fechar os olhos, fazer silêncio e me transportar pelo vazio da mente pro meu lugar, que não está em lugar nenhum. Sabes aonde fica teu lugar?

A vida passa em silêncio porque vemos fotos, vídeos, concertos, vemos diferenças aonde elas não existem. Vemos o que não precisamos. Ouvimos o que não precisamos. Falamos o que não gostaríamos. Uma vida pra chamar de tua que usas como instrumento alheio. Querias mesmo fazer parte de histórias que não te convém?

Quem sou eu quando não me vês, quem és quando apagas todas as luzes do quarto e só escutas a própria respiração?

A Natureza é sábia, assim penso… e ao invés de morrer, ela disfarça e quando ninguém vê, floresce. Eu, tu e eles precisamos também florescer antes de morrer. E uma planta não floresce o que não é dela. Se macieiras não dão laranjas, deverias tu seguir um caminho que não é o teu?

Enquanto a roda gigante se diverte conosco, o que fazemos? Que verdades tuas tens semeado no mundo enquanto ele te carrega de uma vida pra outra? Não compramos os bilhetes pra estar aqui, mas escolhemos os destinos que queremos seguir enquanto neste lugar estamos. Vais por aí porque queres ou porque te levaram?

Não sei se cabe um conselho, mas acredito na partilha:  eu preciso florescer e para isso algumas folhas precisam cair. Não tenhas medo de dizer adeus, de fechar os olhos, de encarar o silêncio e desaparecer um pouco para tudo aquilo que não é teu. É preciso morrer para florescer e é preciso florescer antes de morrer. 

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