Mais autoconfiança, menos espelho!

“Quando verdadeiramente não ligas pro que qualquer pessoa pensa sobre ti, alcançaste um perigoso (para as pessoas) nível de liberdade”.  Jim Carrey

Há um demônio atrás de cada espelho. Como os vendedores de lojas do shopping que ao captar um olhar já ganha e quase aprisiona o cliente, o espelho nos envolve na primeira mirada.

Se por um lado a proposta do espelho é nos mostrar nossa imagem real, fica para o cérebro o trabalho de interpretar com base nas experiências vividas e nos padrões assimilados o reflexo visto. Aqui começo a falar sobre a prisão da beleza, it’s shocking!

Um espelho mal usado pode arruinar anos de autoestima. Os comentários das amigas podem abalar qualquer autoimagem bem elaborada… uma vez participante de uma sociedade em que é preciso ser linda 20 horas por dia, não há tempo para estar fora do padrão.

“Nobody wants to be lonely, nobody wants to cry”, já dizia o ídolo da minha adolescência Rock Martin. Enquanto formos ensinados a ser obsessivamente queridos e desejados pelo outro, não há espaço para sentir-mo-nos à vontade, felizes, satisfeitos. Tudo bem ter uma sobra de gordura abdominal, mas que isso não apareça na roupa pra ninguém ver!!! E seguimos vestindo contas no corpo, nas ideias e na alma.

Somos escravos do que gostaríamos que as pessoas pensassem que somos. 

Respeito todas as mulheres com seus procedimentos estéticos, eu mesma já fiz botox e sou defensora da depilação a laser. Mas TUDO na natureza e na vida tem um limite e um preço. Não somente precisamos estar dispostos a pagar o valor material e moral como precisamos de muita maturidade para arcar com as consequências de possíveis complicações dum procedimento estético, principalmente quando nos tornamos dependentes dele. É a velha história da faca que corta o pão e o irmão: ficamos lindas mas há dinheiro, tempo e paciência envolvidos… às vezes muito mais que isso. 

Uma vertente do tema “padrão estético” que sempre me deixa em crise com meus parafusos é o peso. Aos 21 anos eu pesava X. Hoje, vaaaaaaaarios anos depois, peso X ao quadrado mais a hipotenusa do cateto de Bhaskara. Isso significa (pra mim) que engordei. Mas minha natureza está tentando me dizer de todas as formas que isso faz parte dos meus genes, que minha saúde independe do meu peso adolescente, que estou gata SIM, que peso é relativo, etc etc etc. Minha terapeuta também me envia alguns sinais, mas minha prisão é mais forte, minha dependência de “atenção” é muito maior. A sua também. Oi? Não entendeu? Sim, você também se arruma para as pessoas gostarem da sua imagem, não somente porque se sente bem com o resultado. 

“Mas Marília, eu me amo eu me adoro, eu sou lindo!”. Calma, jovem. Tem muito aprendizado social nessa frase…

O que você e muitos coleguinhas ainda não sabem (porque não são ensinados a saber e confrontar mesmo na infância e nas escolas) é que muito do que nós achamos que pensamos e gostamos “de nascença” é na verdade aprendizado. Poderia citar várias referências da Psicologia e Antropologia aqui mas não estou afim, perdão! Apenas confia em mim e lê esse texto até o final! 

O que eu dizia é que você é, além de tudo o que você acha que é, produto do seu meio. Você é tudo aquilo que já foi, que é aos olhos dos outros, aos olhos de si mesmo, “tudo aquilo que poderia ter sido se a maré das circunstâncias não tivessem te banhado nas águas do equívoco”… isso vale pra estética, pra personalidade, pra alma da pessoa em si. Somos doutrinados desde muito novos a preencher espaços sociais essenciais para a manutenção da comunidade; devemos seguir os padrões que darão continuidade ao funcionamento equilibrado e previsível da sociedade. Eu, você e nossos vizinhos somos sim (também) produtos do meio e poucos de nós tem a oportunidade de descobrir que há outros caminhos além do “obrigatório”, também conhecido como “é o que gente normal faz” ou “isso não é coisa de mulher direita”. Faz parte de um ideal de sanidade mental se libertar dessa prisão do padrão social ao entender que não precisamos viver de espelho ou engolir todos os dias aquele comprimido da FÓRMULA DE SUCESSO.

Não seguir um padrão não significa ser anarquista ou estranho. Tudo bem que às vezes ser você mesmo pode ser caro, mas não há nada mais libertador que florescer num jardim de ideias próprias! Das pessoas que conheço, acho que sou um dos exemplos mais intensos de desabrochar a própria essência em águas desconhecidas. Só eu e meus amigos mais queridos sabemos quantas lágrimas derramei pela maldade/ingenuidade alheia que já interpretou muito equivocadamente minhas escolhas. Nunca fiz nada demais, mas por não ter feito o que todo mundo faz, me senti a própria Jeni do Chico. 

O que eu adoraria dizer para minhas amigas, leitoras, pros homens que com elas convivem e pra todos os demais que ainda não sabem exatamente aonde pisar é que não precisamos ser perfeitos. Não ser o que a sua família quer que você seja não é o fim do mundo. Não ser a esposa ideal, como você mesma um dia quis ser, não é uma falha no seu caráter. Não ter emagrecido depois do ultimo bebê não é preguiça. Não ser o macho alfa que seus amigos “são” não é exatamente um problema a ser resolvido, nem problema é (talvez você seja o príncipe de muita menina e ainda não saiba disso!). 

“Belezas são coisas acesas por dentro”. O resto é vaidade. O que sobra, o que é preciso comprar, pintar, pagar, moldar, apertar e disfarçar é SARNA PRA SE COÇAR! 

Saia dessa… deixa essa pessoa linda que você é encantar quem está pronto pra ser encantado, faça mudanças porque você realmente quer que sejam feitas e se alguém falar que você tá com a mesma roupa do último casamento, faça de conta que não é com você e continue se divertindo. 

Temos pouco tempo para viver o que vale a pena. Desejo que seu espelho seja seu cúmplice e amigo, que seus amigos sejam seus amigos mesmo e que a sua autoconfiança seja somente sua, de mais ninguém! 

2 thoughts on “Mais autoconfiança, menos espelho!

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