Quanto vale uma consciência tranquila?

Primeiramente, parabéns por ter clicado nesse texto. Se você se interessou pelo tema significa que no mínimo está atento à importância de se ter uma consciência tranquila para viver em paz. Se você fez alguma bobagem ultimamente ou se tem uma lista impublicável de travessuras e maldades, proponho um passeio que  pode te fazer bem.

Muitas pessoas falam em felicidade, sucesso, saúde, conquistas e realização pessoal como bênçãos sempre lembradas em suas orações e metas diárias em suas vidas. Tudo isso é bacana, dá sentido e cor ao caminho da existência e tudo mais. Porém quase ninguém cita paz de espírito e consciência tranquila como objetivos diários. Faça o teste, pense nos últimos cinco dias da sua vida: por acaso você saiu de casa desejando voltar com paz de espírito e pela noite dormir com a consciência tranquila?

Muito além da tranquilidade/serenidade, a paz de espírito e a consciência tranquila são conquistas que na maioria das vezes requerem exercício de valores, cumprimento de regras e quase sempre sucedem uma bifurcação moral, aonde é colocado à prova o que fazemos na frente dos outros e quem realmente somos quando ninguém está olhando.

“Mas Marília, o que te fez escrever sobre isso?”. A minha sensação de consciência tranquila. Como ser humano, cidadã, mulher, profissional e tudo mais que sou, tenho um orgulho enorme de ter aprendido com minha mãe essa lição de ética, de ter entendido que mais vale sono tranquilo que se aproveitar da fraqueza de alguém. Recentemente numa conversa relembrei um episódio absurdo que vivenciei no ambiente profissional e que claramente dizia respeito a egos infelizes.

Ego, leitor, é o que você é. É a soma de sonhos, aprendizados, expectativas, frustrações, é tudo o que você já fez e pretende fazer. E o ego pode ser seu maior inimigo (você mesmo) quando te propõe caminhos que pelo aprendizado moral você sabe que não deveriam ser sequer pensados como possibilidades.

1- Se você precisa trapacear para ganhar, significa que você não é bom o suficiente para o que se propõe. Repense suas escolhas, melhore como pessoa e tente mais tarde.

2- Se você precisa de alianças secretas com propósitos destrutivos para ser querido, valorizado, ter o cargo ou a equipe de trabalho dos seus sonhos, você precisa antes de tudo de terapia. Lavando pratos ou dirigindo uma empresa, antes de ser um ótimo profissional você precisa ser uma pessoa segura e tranquila quanto ao seu potencial. Pessoas seguras de si não perdem tempo com trapaças, elas sabem que não precisam disso.

3- Se os valores da sociedade em que você vive não são interessantes para você, mude-se! Voce não é uma árvore e não precisa dormir e acordar cometendo erros e injustiças, acumulando grandes malfeitos com a desculpa de ter que “ser assim pra sobreviver ao sistema”. Não quer ser corrupto, mentiroso e falso? Tente ser ético ou vá morar em uma tribo que tenha valores similares aos seus. Você nasceu livre e cheio de direitos mas é sua obrigação conviver com a liberdade e direitos das pessoas ao seu redor.

4- Mudar de ideia e arrepender-se fazem parte do amadurecimento. Na mesma conversa que citei anteriormente recebi essa lição linda e quero repetí-la em pelo menos mais 10 textos meus. Gente que pede desculpas, que perdoa, que ajusta sua opinião após ter acesso a dados que não tinha antes, que fala que mudou de ideia sim e não nega o que fez/falou no passado, essa gente está caminhando para a direção da maturidade e cabe a todos nós incentivar esses comportamentos quando percebidos nas pessoas ao nosso redor!

5- Se você fez algo muito feio e não se arrepende, fica por sua conta se olhar no espelho e encarar quem você está se tornando. O sono é seu, a consciência é sua e só você poderá se consolar quando a bad da lei do retorno bater à sua porta. No caso de ter se arrependido, saiba que o remorso precisa vir acompanhado de mudança de comportamento para ser válido. Não dá para consertar o erro? Então assuma que errou, seja corajoso. Não consegue assumir por medo de punição e consequências? Conviva com a sua cruz e tente não repetir o malfeito. Todo mundo tem o direito de errar, mas é muito deselegante ser anti-ético e trapaceiro. Imagina só se as pessoas ao seu redor descobrissem o que você fez, será que elas continuariam sorrindo pra você todas as manhãs e confiariam que você é quem diz ser? E quando virasse as costas, o que acha que elas diriam a seu respeito?

Por último e não menos importante, compartilho as lições que dona Telma deixou e me livraram de muitos erros, além de me fazerem “cair pra cima” no último episódio de falta de ética que tive o desprazer de vivenciar. Não importa quão importante for o seu sonho, quão forte for o seu desejo e quão grande for o seu medo: seja quem seus pais e seus filhos gostariam que você fosse e pensam que você é. Depois dos aplausos e flashes somente sua consciência permanece com você. Faça o que você gostaria que fizessem a você. Suas escolhas são sementes, não adianta espremer pedra se você não cavou o poço direito. Todos os dias, antes de dormir, ela rezava em voz alta agradecendo pelo trabalho que tinha, pelo dinheiro que não tinha, pelo teto que abrigava seu descanso e pela noite de sono tranquila que já sabia que teria. Olhava pra mim e dizia: “não há melhor travesseiro que uma consciência tranquila”.

Um grande abraço e volte sempre!

Mais autoconfiança, menos espelho!

“Quando verdadeiramente não ligas pro que qualquer pessoa pensa sobre ti, alcançaste um perigoso (para as pessoas) nível de liberdade”.  Jim Carrey

Há um demônio atrás de cada espelho. Como os vendedores de lojas do shopping que ao captar um olhar já ganha e quase aprisiona o cliente, o espelho nos envolve na primeira mirada.

Se por um lado a proposta do espelho é nos mostrar nossa imagem real, fica para o cérebro o trabalho de interpretar com base nas experiências vividas e nos padrões assimilados o reflexo visto. Aqui começo a falar sobre a prisão da beleza, it’s shocking!

Um espelho mal usado pode arruinar anos de autoestima. Os comentários das amigas podem abalar qualquer autoimagem bem elaborada… uma vez participante de uma sociedade em que é preciso ser linda 20 horas por dia, não há tempo para estar fora do padrão.

“Nobody wants to be lonely, nobody wants to cry”, já dizia o ídolo da minha adolescência Rock Martin. Enquanto formos ensinados a ser obsessivamente queridos e desejados pelo outro, não há espaço para sentir-mo-nos à vontade, felizes, satisfeitos. Tudo bem ter uma sobra de gordura abdominal, mas que isso não apareça na roupa pra ninguém ver!!! E seguimos vestindo contas no corpo, nas ideias e na alma.

Somos escravos do que gostaríamos que as pessoas pensassem que somos. 

Respeito todas as mulheres com seus procedimentos estéticos, eu mesma já fiz botox e sou defensora da depilação a laser. Mas TUDO na natureza e na vida tem um limite e um preço. Não somente precisamos estar dispostos a pagar o valor material e moral como precisamos de muita maturidade para arcar com as consequências de possíveis complicações dum procedimento estético, principalmente quando nos tornamos dependentes dele. É a velha história da faca que corta o pão e o irmão: ficamos lindas mas há dinheiro, tempo e paciência envolvidos… às vezes muito mais que isso. 

Uma vertente do tema “padrão estético” que sempre me deixa em crise com meus parafusos é o peso. Aos 21 anos eu pesava X. Hoje, vaaaaaaaarios anos depois, peso X ao quadrado mais a hipotenusa do cateto de Bhaskara. Isso significa (pra mim) que engordei. Mas minha natureza está tentando me dizer de todas as formas que isso faz parte dos meus genes, que minha saúde independe do meu peso adolescente, que estou gata SIM, que peso é relativo, etc etc etc. Minha terapeuta também me envia alguns sinais, mas minha prisão é mais forte, minha dependência de “atenção” é muito maior. A sua também. Oi? Não entendeu? Sim, você também se arruma para as pessoas gostarem da sua imagem, não somente porque se sente bem com o resultado. 

“Mas Marília, eu me amo eu me adoro, eu sou lindo!”. Calma, jovem. Tem muito aprendizado social nessa frase…

O que você e muitos coleguinhas ainda não sabem (porque não são ensinados a saber e confrontar mesmo na infância e nas escolas) é que muito do que nós achamos que pensamos e gostamos “de nascença” é na verdade aprendizado. Poderia citar várias referências da Psicologia e Antropologia aqui mas não estou afim, perdão! Apenas confia em mim e lê esse texto até o final! 

O que eu dizia é que você é, além de tudo o que você acha que é, produto do seu meio. Você é tudo aquilo que já foi, que é aos olhos dos outros, aos olhos de si mesmo, “tudo aquilo que poderia ter sido se a maré das circunstâncias não tivessem te banhado nas águas do equívoco”… isso vale pra estética, pra personalidade, pra alma da pessoa em si. Somos doutrinados desde muito novos a preencher espaços sociais essenciais para a manutenção da comunidade; devemos seguir os padrões que darão continuidade ao funcionamento equilibrado e previsível da sociedade. Eu, você e nossos vizinhos somos sim (também) produtos do meio e poucos de nós tem a oportunidade de descobrir que há outros caminhos além do “obrigatório”, também conhecido como “é o que gente normal faz” ou “isso não é coisa de mulher direita”. Faz parte de um ideal de sanidade mental se libertar dessa prisão do padrão social ao entender que não precisamos viver de espelho ou engolir todos os dias aquele comprimido da FÓRMULA DE SUCESSO.

Não seguir um padrão não significa ser anarquista ou estranho. Tudo bem que às vezes ser você mesmo pode ser caro, mas não há nada mais libertador que florescer num jardim de ideias próprias! Das pessoas que conheço, acho que sou um dos exemplos mais intensos de desabrochar a própria essência em águas desconhecidas. Só eu e meus amigos mais queridos sabemos quantas lágrimas derramei pela maldade/ingenuidade alheia que já interpretou muito equivocadamente minhas escolhas. Nunca fiz nada demais, mas por não ter feito o que todo mundo faz, me senti a própria Jeni do Chico. 

O que eu adoraria dizer para minhas amigas, leitoras, pros homens que com elas convivem e pra todos os demais que ainda não sabem exatamente aonde pisar é que não precisamos ser perfeitos. Não ser o que a sua família quer que você seja não é o fim do mundo. Não ser a esposa ideal, como você mesma um dia quis ser, não é uma falha no seu caráter. Não ter emagrecido depois do ultimo bebê não é preguiça. Não ser o macho alfa que seus amigos “são” não é exatamente um problema a ser resolvido, nem problema é (talvez você seja o príncipe de muita menina e ainda não saiba disso!). 

“Belezas são coisas acesas por dentro”. O resto é vaidade. O que sobra, o que é preciso comprar, pintar, pagar, moldar, apertar e disfarçar é SARNA PRA SE COÇAR! 

Saia dessa… deixa essa pessoa linda que você é encantar quem está pronto pra ser encantado, faça mudanças porque você realmente quer que sejam feitas e se alguém falar que você tá com a mesma roupa do último casamento, faça de conta que não é com você e continue se divertindo. 

Temos pouco tempo para viver o que vale a pena. Desejo que seu espelho seja seu cúmplice e amigo, que seus amigos sejam seus amigos mesmo e que a sua autoconfiança seja somente sua, de mais ninguém! 

A menina e o silêncio

Ela odiava a voz das pessoas: podendo fazer silêncio, insistiam em falar pelos cotovelos. Se não eram conversas fúteis sobre os signos, davam gargalhadas forçadas (que ela sabia serem máscaras de proteção conta os monstros Carêncio e Solhudão).

Se havia instrumentos musicais, por que esses humanos insistiam em contar lorotas, fofocas e vantagens? Que som poderia ser mais poderoso e relaxante que uma tempestade tropical?

Não sentia necessidade de falar com as pessoas todos os dias e às vezes custava-lhe a paz estar entre amigos (frequentemente questionava-se sobre amizades que lhe despertavam sensações desconfortáveis nos primeiros 5 minutos de conversa).

Sentia que o universo do som era degredado a cada espirro, a cada ronco e a cada peido. Além disso machucava-lhe o âmago aquilo que aos outros parecia banal, mas era mais grave que o som de um trovão: o insulto.

Gritos de raiva e até de alegria faziam seus tímpanos arderem em chamas. Conversas sobre trabalho e brigas de família que subscreviam diálogos de insatisfação matrimonial lhe causavam náuseas e por pouco não avançou agressivamente como um bicho selvagem num humano que opinava sobre qualquer tema relevante munido do mantra “isso não é coisa de mulher direita”.

Falando em direita, a menina adorava placas de trânsito por serem uma linguagem muda e cheia de conteúdo. “Vire à esquerda”, “atenção”, “crianças no perímetro” e outras informações tão importantes para a locomoção de uma comunidade compartilhadas sem qualquer palavra falada, que alívio!

Recentemente conheceu um menino que assim como a maioria dos humanos falava duas línguas: Verdaderês e Mentirês. A segunda ele aprendera muito bem, mas por ela nunca ter se sentido à vontade com esse idioma era difícil ouvi-lo em Mentirês e traduzir mentalmente pro Verdaderês. Ele precisava de alguém para conversar e praticar o Verdaderês, visto que fora cruelmente repreendido pela professora por ter falado nesta língua com pessoas que não estavam capacitadas para ouvi-la. Além disso estava num recesso público em que precisava interagir com o máximo de humanos possíveis para despistar o monstro Carêncio, que lhe perseguia como punição por ter usado a língua errada com a pessoa errada. É desrespeitoso na sociedade deles falar uma língua que não seria entendida ou bem recebida por um dos interlocutores da conversa – gera até rompimento de laços humanos! Dele ela não tinha raiva, sentia dó. Via nele um potencial enorme para silenciar e produzir grandes obras primas(ele era aprendiz de escultor).

Diversas vezes a menina fugiu de casa e se escondeu num monastério abandonado aonde se ouvia pássaros, folhas e vento. Não tinha certeza se Deus existia, mas se existisse ele com certeza morava ali, no silêncio que o passado deixou.

A menina não tinha medo do silêncio dos humanos, nem se incomodava quando ele acontecia. Quando era quebrado por ela ou por alguém, sentia como se tivesse acabado de acordar de um sono renovador. Ela deitava os pensamentos na ausência da voz e deixava que tudo ao seu redor lhe abraçasse e lhe acariciasse a alma: fosse imagem, fosse som, fosse pensamento.

O sino da igreja era um pouco desconfortável de se ouvir, não pelo som ou volume, mas porque mergulhava a menina em lembranças que ela não guardara por querer. Mas mesmo assim permitia que o som vibrasse dentro dela; viajava em pensamento para tão longe que nenhum humano a alcançaria. Certas lembranças são Torres sem porta, você nunca sabe como foi parar lá e tampouco consegue sair.

Quando observava árvores imaginava o que se perguntavam enquanto o vento esfregava suas folhas umas nas outras: seriam questões de gênero ou de cor? Estariam elas discutindo minorias?

Depois de várias crises de otite ela começou a se isolar com mais frequência, recomendação médica: “Diagnóstico: a menina tem intolerância acústica. Prognóstico: a menina deve habitar espaços com pouco barulho. Em paralelo fazer terapia.”

Ao contrário do que o médico entendia por barulho, ela classificava toda sorte de som como apenas som, até o da britadeira. Barulho é o que os humanos faziam, desorganizando tudo com suas falas egoístas, totalitárias, fúteis e cheias de desfarces (eufemismos e convenções sociais). Terapia ela já fazia, mas o médico não ouviu quando ela falou, talvez sua voz estivesse muito baixa naquele dia.

Quando pensava em futuro ela ouvia os passos do monstro Medo no corredor de casa. Quando pensava em cobras, aranhas e sapos também. O futuro de uma menina como ela parecia muito infeliz, era como se no futuro da humanidade não houvesse espaço para a vida que ela queria para si. Pessoa não bem-vinda, que não se encaixa. Como não sentir medo de ser uma mulher que adoraria ter filhos mas que não conseguiria ouvi-los chorar e chamar pela mamãe? Como participar de reuniões, ir ao banco e ao médico, como atender ligações dos familiares distantes e dizer que estava tudo bem? Era morrer ou transmutar a realidade para o que ela entendia como tolerável e admirável.

Ouviu falar de uma ponte e do rio que corria ali. Quem passasse por ela 7 vezes e em seguida mergulhasse as pernas até os joelhos nas águas do Tâmisa podia fazer um pedido: prontamente algum Deus mestiço atenderia. Fez as malas com tudo o que considerava importante e arrumou o pensamento também – precisava das palavras e do volume de voz certo para ter seu pedido atendido.

Andou muito. Tomou cafés e vinhos, banhos de rio e de mar. Comeu doces, peixes e pães. Viu gente, bicho e planta. Chorou e cantou, sorriu sem perceber. A menina viveu tanto que esqueceu do que procurava, mas nunca se conformou com a fala dos homens. Num verão qualquer chegou a uma cidadezinha e viu a ponte com o tal rio. Lembrou do que quis com todas as forças. Parou o que estava fazendo e como quem conversa com Deus, perguntou a todas as meninas que já tinha sido “se estavam prontas pra atravessar a ponte com ela, se ainda queriam o silêncio dos homens e se estavam dispostas a deixar o conforto da conformação para alcançar o sonhado paraíso sônico.

Elas deram as mãos (não disseram nada) e sem que a menina pudesse reagir, dispuseram-se todas em fileira, de frente pra um dos lados da ponte. Não ouvia nem entendia nada. Pavor. O que querem elas? Atordoada por descobrir justamente agora que não tinha controle algum sobre seu passado e que ele lhe impulsionava pra o futuro, fechou os olhos e inspirou todo o ar que foi capaz de recolher.

Dias e noites passaram. Foi primavera e sem que os humanos percebessem foi verão. Teve guerra, diversão e paz.

Um dia veio um anjo e tirou de todos os homens o dom da voz. Foi feito um silêncio inesperado e aterrorizante.  Perdidos, eles ensaiavam sinais nunca usados, pareciam mais desesperados que vivos.

 

De algum lugar a menina podia enfim escutar a água batendo na pedra, a madeira da cadeira rangendo com o peso da velhota exausta, a nuvem de pássaros que voava em arabescos como se seguissem um mapa ancestral rumo ao paraíso dela. Assim como eles, ela já sabia aonde ficava esse lugar: na imaginação.

Abriu os olhos, pediu a conta e deixando alguns euros na borda da mesa sorriu em agradecimento à jovem senhora que lhe atendera com indiscutível gentileza. Tinha um concerto para assistir, precisava correr para não se atrasar. Ao menos ali todos ficariam calados e somente com palmas falariam a verdades: “parabéns”, “obrigado” e “continuem, vocês são brilhantes”.

Foi embora ansiosa para ouvir música e silêncio.

As fases de uma Travessia

Assisti o vídeo que aparece ao final deste texto há menos de um minuto (é assim que a vontade e inspiração pra escrever aparecem, é assim que tento pegar a oportunidade quando ela ainda está no ar). A idéia dele é apresentar as fases pelas quais uma mulher passa e seu processo de autocrítica e aceitação durante a vida. Mas eu também vi uma pessoa qualquer passando por uma calçada e fazendo sua travessia (pela vida). Minha calçada, minha travessia, minha vida tem capítulos reveladores, trágicos, inspiradores, incríveis. Acho que já tenho coragem de compartilhar um pouco da minha travessia.

Às vezes encaro meu presente incrédula. Se cruzei esquinas e troquei de calçadas, não lembro de todas. Muitas vezes passei por lugares importantes desatenta. Várias vezes passei por pessoas importantes desatenta. A questão aqui é que as mudanças acontecem gradativamente, sem que a gente tenha consciência. O motivo? Enquanto vivemos, a vida acontece, e isso pode ser muito bom ou muito ruim.

Se passei por lugares desatenta, não foi sempre. Lembro exatamente dos nãos que dei e que me foram dados, dos sins que forcei, dos que tive medo de dizer, dos que disse do fundo do meu coração. Sei exatamente de alguns dos momentos chaves da minha travessia, ahhh sei. Me arrependo de alguns, tenho muita saudade de outros. Mas faria quase tudo outra vez.

Espalhei flores e atirei pedras. Até dei alguns passos pra trás na tentativa de recolher as pedras ingenuamente atiradas, mas era tarde demais. Acabei reencontrando as mesmas pedras quando eu menos esperava um pouco mais à frente: chorei, reclamei, lembrei, calei. E depois de ter seguido em frente sabendo o peso de uma pedra, dei o melhor de mim no semeio de plantas. E passei a literalmente me apaixonar por plantas (aqui lê-se seres vivos que nada pedem a não ser carinho e cuidado).

Passei noites e dias inteiros trabalhando, perdi festas estudando, também perdi aulas por ter exagerado em festas. Nunca utilizei uma regra muito restrita para balancear atividades muito diferentes, apenas deixei bem claro pra mim mesma qual era meu objetivo e fui dosando conforme a idade permitia. De ônibus, caminhando, de carona e dirigindo fui cruzando limites, fronteiras, entradas e bandeiras. Vim parar aqui!

      Capa do “The Endless River”, Pink Floyd

Recebi solidariedade, paguei com solidariedade. Recebi desprezo, paguei com desprezo. Mas depois de alguns quilômetros entendi que não é bem assim que funciona. Só se pode pagar uma conta se o saldo estiver azul, e pagar uma dívida fazendo outra não é nada inteligente. Em paralelo aprendi a equilibrar minhas finanças, emoções e energia. Tive muita sorte ou o Universo realmente estava alinhado pra mim, pois aprendi essas e outras grandes lições do gênero exatamente quando precisava aprender. Poderia ter recebido essas lições antes, mas talvez não teria dado tanto valor a elas.

Amei, odiei. Fui traída, traí. Perdoei e não perdoei, me arrependi e me orgulhei. Senti saudades, senti remorso, pedi pra voltar, pedi perdão. Tive medo, senti dor, senti vergonha. Quis fugir, quis gritar, quis morrer. Quis viver tudo de novo, recomecei, suei e senti muita fome. Pedi dinheiro emprestado, pedi colo, pedi desculpas em silêncio. Falei mal, falaram mal de mim, contei a verdade, contei que era mentira, contei as horas pra minha vida voltar ao normal. Contei meus segredos.

Guardei segredos, escrevi histórias e estórias. Sofri calada com histórias e fingi não sentir nada (era minha obrigação, infelizmente). Chorei baixinho no banho e perdi noites de sono sentindo uma dor que não era minha. Aprendi que pra ser uma boa profissional não precisava ser um robô, mas principalmente não sofrer tanto, senão não conseguiria ajudar ninguém. Aprendi a ajudar, ensinei a ajudar, testemunhei lindas alianças solidárias e sinto saudades de algumas delas. Descobri uma psicóloga muito humana dentro de mim.

Sonhei, alcancei, me frustrei. Parei, pensei, jejuei, caminhei, dosei e exagerei, fiz tudo de novo do jeito certo e do jeito errado. Me virei do avesso pra me enxergar melhor, depois aprendi que conseguiria fazer o mesmo fechando os olhos e respirando. Fui yogui, guerreira, marombeira, cozinheira, turista, diretora, fui dona e capataz de mim mesma. No último momento mais difícil que tive, fui filha de uma pessoa que precisava partir. Fui tudo, mas não foi o suficiente, ela foi e eu fiquei. Hoje somos nossa história.

Nunca tive um mapa. Quando me perdia, tentava lembrar do percurso que vinha fazendo pra saber aonde errei. Muitas vezes pedi ajuda, informação ou mesmo segui alguém que parecia mais voar que andar. Também mudei de idéia, deixei de seguir quem caminhava por onde eu não queria passar. Segui alguns sinais, me escondi de chuvas mas também me molhei em muitas delas. Passei por cada tempestade… Depois do GPS, idiomas e passaporte desbravei meus tão sonhados caminhos (que nem eu sabia que eram meus e me aguardavam). Não sei ler mãos, mas trago nas minhas vários calos de malas…

Topei com tanta gente bacana, bonita, inspiradora! Também esbarrei em monstros, sacos de areia e sacos vazios (esses aprendi a evitar). Fui carregada por anjos, enfeitiçada por demônios, decepcionada por ídolos e resgatadas por humanos (detesto pessoas, adoro gente). Aprendi muito, compartilhei o que pude, ainda tenho livros que comprei e não consegui tempo pra ler. Passei por cinemas e entrei em quase todos, das igrejas acabei desistindo de conhecer porque entendi que tinha outra parte da história pra estudar. Misturei minha vida com outras, levei tanta memória comigo que algumas delas acabaram caindo da mochila e ficaram nalgum lugar.

Ainda estou atravessando. Os caminhos são imprevisíveis, eles mudam de acordo com o que o seu coração precisa sentir. Um dia você está aqui, quando vê já está lá do outro lado e a roda viva do Chico vai carregando seu destino pra lá. Mesmo assim, a travessia não para de acontecer. Quando escuto a história de alguém me pergunto como seria se estivesse no seu lugar. Aí me lembro que já passei por algo parecido ou passei por alguém que já passou por algo similar. Que filme!

Não sei bem como terminar esse texto e essa vida. Não queria terminar esse texto nem essa vida. Quero continuar sentindo, vivendo, escrevendo, caminhando, fazendo minha travessia. Da vida o que mais quero é sempre poder passar, ver as coisas como elas são, imaginar como elas poderiam ser, pôr uma flor aqui ou um curry ali… e atravessar!