Quantas vezes você já sentiu MEDO hoje?

Posterguei ao máximo escrever aqui sobre minha saída do Brasil. Além de fazer questão de preservar minha privacidade, não é fácil falar daquilo que me frustra, angustia e causa medo. Então esse texto será o relato de uma jovem que por sentir muito medo resolveu sair de onde estava e hoje só tem medo de precisar voltar.

falei sobre quão chocada estou com o momento que o Brasil está vivendo. Em paralelo minha amiga Vivi falou também sobre como se sente estando no Brasil mas sonhando em procurar seu lugar ao sol um pouco longe dele. Leitores, o que não escrevi nesse parágrafo mas está explicitamente implícito é que sentimos medo, muito medo.

Quando ainda morava com minha mãe numa area da cidade que não me fazia sentir segura, vivi situações que me marcaram pra sempre. Acho que o desespero e a raiva estão enraizados no comportamento criminoso de um jeito que só umas 5 décadas de educação poderiam amenizar esse grave problema social. Entendi que não conseguiria ter tranquilidade pra realizar minhas tarefas se a todo momento precisasse olhar pra todos os lados, andar acompanhada, evitar ônibus e ruas depois das 19h e estar sempre disposta a viver o último dia da minha vida. Se você nunca precisou voltar de ônibus da Ufam até a Cidade Nova de segunda à sexta às 22h, você dificilmente vai entender o que estou falando. Sei que muitos leitores já tiveram uma rotina parecida, então talvez não seja tão difícil de imaginar quão acelerado batia meu coração na hora de voltar pra casa. Eu vivia com medo.

Todas as vezes em que viajei escolhi lugares aonde eu pudesse andar sozinha, usar o transporte público e me sentir segura. Quando voltava pra minha cidade sempre sentia um peso enorme no pescoço, uma sensação de perigo iminente. O que muitos chamariam síndrome do pânico eu chamo de senso de realidade mesmo. Minha sensibilidade a manchetes sangrentas aumentava conforme eu conhecia outros países. Lembro bem de certa vez estar no Uruguai durante meu sabático e ouvir no rádio que o país inteiro estava aflito com o sequestro de uma médica. Perguntei a uma pessoa se ela tinha algum cargo público importante ou se era esposa de alguém da alta sociedade. A pessoa me olhou com espanto e perguntou “se precisava ser alguém importante pra que um sequestro fosse grave”. “Aqui não se sequestra pessoas! Isso é muito sério!”. Pausa para o leitor repensar seu conceito de sensibilidade ao crime.

Quantas vezes li no jornal que alguém foi morto a facadas e simplesmente virei a página do jornal? Quantas vezes você soube que fulano foi assaltado enquanto voltava do trabalho e continuou suas atividades como se não tivesse escutado nada?

Ao contrário do que uma leitora comentou no texto sobre concursos de beleza, que “não é porque o mundo é cheio de problemas que não devemos ter um pouco de felicidade“, é exatamente essa cegueira social que desenvolvemos pra sofrer menos com as condições sociais do Brasil que nos torna menos sensíveis, menos humanos! Nos enganamos pagando condomínios caríssimos, vigias, blindando carros e chamando de “chique” ter casas com monitoramento por câmeras.

Desde quando é motivo de felicidade gastar tanto? Quando Felicidade passou significar enclausurar-se com elegância pra se sentir seguro?

A cegueira emocional, moral, a insensibilidade e a falta de senso de realidade nos amortece pro que de fato é importante. Foi quando eu acordei pra minha realidade que tive a consciência de que meu salário poderia aumentar com o passar dos anos, mas eu nunca estaria livre pra andar de casa ao supermercado sozinha. Eu poderia frequentar os melhores restaurantes, estar cercada das pessoas mais brilhantes da cidade, mas eu jamais teria a oportunidade de voltar pra casa sozinha com os vidros do carro abertos. Ainda que eu falasse língua dos anjos, um homem que cruzasse meu caminho numa rua escura dificilmente me deixaria passar sem fazer um comentário ofensivo (é elogio que fala, senhores?) ou mesmo estampar no meu corpo a marca da sua “masculinidade”. Não é exagero, é a realidade.

Morei fora do Brasil duas vezes, mas foi em 2018 que o Universo alinhou suas forças e pude sonhar, planejar e realizar minha travessia até o outro lado do hemisfério. Bem aqui aonde estou finalmente ando de lá pra cá sem medo.

Aqui comecei a perceber quantas vezes sinto medo por dia e quais temas me despertam esse sentimento. Sinto muito pelo que vou dizer, mas meu único medo hoje é de precisar voltar e com isso perder a sensibilidade que conquistei, de ter que abrir mão da qualidade de vida que encontrei aqui. Apesar de todas as dificuldades que qualquer mudança de país traz, me sinto muito mais feliz que quando possuía todo tipo de “segurança” no meu país (profissional, financeira, social, afetiva). O respeito que vejo as pessoas terem umas pelas outras aqui sei que só em muitas décadas poderia ver com frequência no Brasil.

Muitos podem achar minha visão do Brasil muito pessimista. Reafirmo: é senso de realidade. Quer ver como eu tenho razão?

Sem pensar muito, responda a seguinte pergunta: você deixaria seu filho voltar pra casa de ônibus sozinho sem sentir medo?

Repensar o medo e seus conceitos de segurança não vai custar caro, eu prometo.

Minimalismo: um estilo de vida que faz bem ao bolso e ao coração.

O documentário “Minimalismo” (Minimalism em inglês) surgiu a partir do livro The Minimalists, de Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus. Ryan inicia o documentário falando que tinha êxito na vida, que era reconhecido pelo sucesso alcançado MAS era infeliz: “Na verdade tentava preencher um vazio na minha vida, assim como fazem muitas pessoas: com um monte de COISAS.” Ao contar que gastava mais do que ganhava e que trabalhava para comprar as coisas que  preencheriam seu vazio, afirma que isso não era viver de verdade.  Quantas e que coisas preenchem seus vazios?

Jesse Jacobs dá o exemplo do hábito de trocar de carro. GERALMENTE o primeiro carro gera a sensação de incrível satisfação pela utilidade, pelo sentido de crescimento financeiro, pela conquista de uma liberdade maior. O segundo carro surge porque o primeiro já não nos parece mais interessante. É mais um vício que uma real necessidade. Quantas vezes você já ouviu de um amigo (ou você mesmo ja disse) que precisava vender seu iphone 7 pra comprar o 8? O aparelho está em perfeitas condições, mas o vazio dentro de nós precisa ser preenchido com a nova versão de qualquer coisa. Já pensou em investir numa versão melhor de você mesmo?

O documentário reúne profissionais que de alguma forma estão relacionados com a indústria do consumo e relatam de que forma o minimalismo afetou suas escolhas pessoais e profissionais. Um deles é Graham Hill, fundador do LifeEdited, uma consultoria para projetar espaços inteligentes com qualidade, eficiência e custo justo. Ele começou a transformar seu pequeno apartamento num espaço aonde pudesse morar e trabalhar, ficar só ou receber 10 pessoas. Graham fala da ideia de ser feliz com menos tendo em vista o custo, estresse e espaço necessários pra armazenar coisas. Aqui você pode assisti-lo num TEDTalk falando da quantidade de espaço que geralmente temos em casa e qual o espaço que realmente habitamos nela. E você, já usou todas as roupas e sapatos que ocupam um terço do seu quarto?

Um tema importante abordado nessa obra é a influência que a propaganda tem na vida das pessoas. Além de transformar as pessoas em puppets, a propaganda dita padrões totalmente forjados. A ilusão de como a vida deve ser está presente em todas as formas de mídia: seja pela publicidade, pelo Instagram ou pela TV. O neurocientista Sam Harris comenta que é natural ousar a vida das outras pessoas, mesmo vidas imaginárias, como referências para nossas vidas. É completamente comum que hoje em dia as pessoas tenham como projeto de vida se tornar tão bem sucedidas como Fulano, magras como Ciclana, divertidas e bem relacionadas como Beltrano. Quantas vezes a gente comprar uma peça de roupa porque vimos alguém no Instagram usando? Não temos coragem de assumir nas nossas redes sociais que odiamos nosso trabalho, que nosso casamento acabou ou que não estamos satisfeitos com o que nossos amigos tem feito conosco. Você pode até argumentar que a vida já é dura demais pra compartilhar tristeza, mas desde quando é saudável publicar mentiras?

Minimalismo trata dessa invenção de necessidade material (que na verdade é um escape pra constante busca de sentido e satisfação naturais do ser humano) e de como vamos acumulando coisas e necessidades que se postas à prova, não fazem a menor diferença na vida das pessoas. O que a obra propõe é que as pessoas prestem atenção em quais são seus reais desejos e necessidades, que assim descubram outras alternativas para preencher seus vazios que não sejam o consumismo ou satisfação material. Um deles inclusive alerta para uma atenção ao que realmente tem valor para cada pessoa: seus melhores momentos ou suas melhores coisas.

Espero que seja vantajoso pra você assistir a esse documentário. Permita-se refletir sobre o que de fato você precisa pra viver, até aonde vai sua necessidade de compra e armazenamento e qual importância você tem dado pra esse vazio que não diminui nem para de aumentar.

  • Você também poderá conferir uma reportagem sobre o documentário feita pelo canal Repórter Eco aqui.
  • Trailer oficial do documentário aqui. Você pode assistir no Netflix.
  • Website que deu origem ao livro The Minimalists aqui.

“É o sonho de toda garota”: as mentiras que as mulheres contam

Nunca gostei de concursos de beleza. Sempre achei injusto comparar (só pelo corpo) uma mulher com outra e não me vejo aplaudindo essa natureza de competições. Soube que ontem uma amazonense ganhou o concurso de Miss Brasil e esse título vinha sendo muito esperado nas últimas décadas. Confesso, estou chocada com a comoção pública por conta dessa conquista. É isso mesmo, podem me julgar, mas eu esperava mais de vocês, mulheres.

Com todo o respeito do mundo, tenho mil razões pra discordar de quem gosta e se dedica a de concursos de beleza. Sendo uma mulher do séc 21 consciente de todos os problemas que inúmeras mulheres ao meu redor enfrentam e mesmo assim tendo escolhido um estilo de vida impossível pra minha avó na juventude dela, faço questão de expressar minha profunda decepção com nossa última “conquista”.

  1. Um concurso de beleza avalia sua capacidade de se adequar a padrões de beleza. Não sei como era no passado, mas é completamente injusta e insensata uma competição em que pessoas com cirurgias estéticas competem com pessoas sem cirurgias. Ou seja, a menina que mais se adequar ao padrão estético do momento ganha (independente de ser toda modificada ou não).
  2. Um concurso que avalia o corpo de uma mulher num momento em que se discute o amor próprio feminino, a liberdade desse corpo e inúmeros crimes de estupro, abuso sexual infantil e assédio sexual no ambiente profissional com certeza está de olhos fechados pro que realmente é importante ser discutido, avaliado e premiado a nível nacional. Não tenho estômago pra ver 15 meninas em vestido de festa competirem entre si pra ver quem é mais bonita enquanto outras 15 mil são violentadas, assassinadas e tem a juventude roubada. Com todo o respeito, não consigo. Perdão, sociedade. Sei que muitas das participantes até tem esse tipo de preocupação, mas precisam focar na dieta e no cronograma de eventos, estar sempre LINDA e mostrar o melhor sorriso nas fotos. Não importa o que elas pensam, importa se são fotogênicas ou não.
  3. Qual a relevância social dessa natureza de concurso? De que forma isso impacta na vida de mulheres que não têm acesso educação, por exemplo? Quantos homens deixam de agredir mulheres depois que a miss do seu Estado vence a competição nacional? Por favor, me ajudem a encontrar uma razão relevante pro desenvolvimento humano e eu com certeza não me oponho mais aos 6 meses de preparo pra por uma coroa, uma faixa e sentir orgulho de … nada. Ok, de ser a linda que representa seu país no meio de outras lindas. O que mais??? Acabou?
  4. Anorexia. Bulimia. Compulsão alimentar. Todo anúncio de beleza tem um objetivo, qual é o do Miss Brasil? Ser linda, perfeita. Se vocês homens soubessem do que uma mulher é capaz de fazer pra ser linda e perfeita, ficariam chocados. Nós temos um histórico de adequação a padrões de beleza e não é de hoje que vivemos nessa prisão caladas. Aquelas meninas tem saúde? Conseguem passar pelos meses de preparação sem tomar remédios ou parar tudo na vida pra conseguir manter o foco? Respeito todas elas, mas também tenho muita pena.
  5. O mundo que sonho pros meus filhos tem aplausos pra amazonenses descobrindo a cura de alguma doença grave, tem jovens sendo premiados por envolvimento social com projetos do 3o setor, tem homens repreendendo os amigos que fazem um comentário maldoso de uma mulher pra se sentirem mais machos do que realmente são. O futuro que eu quero tem ruas desertas com homens que vão me abordar pra perguntar as horas e só, tem campanhas publicitárias da nike com gordura aparecendo e garotas se sentindo lindas como realmente são. Mas infelizmente o mundo em que vivemos está repleto de mulheres LINDAS se transformando em bonecos, em mentiras e ensinando as outras aonde ir pra ser uma mentira ambulante também.

Pronto, desabafei. Aceito todas as pedras e palmas, pois estou ciente de que opinião é algo individual. Só peço pra não ouvir comentários como “ela é mal amada, por isso tá criticando a mulherada bonita”, “isso aí é falta de sexo”, “isso aí é inveja”, “se fosse bonita não tava defendendo as feias” e o campeão “só pode ser sapatão”.

Caríssimos, não é o sonho desta garota que vos fala e de muitas outras ser perfeita, melhor que outras e se adequar a padrão nenhum. Quando ouvirem alguém justificar seu desejo de ser miss dizendo que “é o sonho de toda garota”, saibam que é uma grande mentira.

I don’t know when I’ll be back again

Os recentes acontecimentos do Brasil e principalmente a greve de caminhoneiros têm me assustado um pouco. Longe de casa é que a gente se dá conta da necessidade de pertencimento e confesso não saber se morro de saudades do Brasil ou agradeço ao Universo pela chance de ter saído dele. Antes de dormir assisti num vídeo que o oxigênio do Hospial de Tatuapé, em SP, só tinha mais DUAS horas de oxigênio. Pensei em todas as pessoas internadas, nas famílias dessas pessoas e lembrei do sufoco que passei em dezembro do ano passado ao levar minha mãe pro hospital pra receber oxigênio. Já foi difícil acreditar que ela sobreviveria, mas seria mais difícil ainda ve-la morrer por falta de oxigênio no hospital . Gente, oxigênio, uma coisa essencial pro ser humano, mais que água!!! Dormi com o coração partido.

Não me sinto informada e qualificada o suficiente pra tomar partido ou opinar. Só consigo perceber quão sensível estou aos problemas gravíssimos que nosso país tem enfrentado e sentir muito por todos familiares e amigos que estão insensíveis ou conformados com essa situação. Eu sei agora o motivo de nós brasileiros sermos tão brincalhões e bem-humorados: se não fosse pelo nosso espírito alegre, resiliente e forte não suportariamos todas as calamidades que enfrentamos todos os dias. É preciso se tornar um pouco insensível pra não morrer de dor, não é mesmo?

Como hoje é dia de música, compartilho com vocês uma canção que me marcou muito numa das minhas viagens de longo prazo. Não fui a passeio e não queria ir. Dormia e acordava pensando em voltar, mas não dependia da minha vontade. Escutava essa canção todos os dias e chorava escondido.

A letra fala despedida, da dificuldade que é dizer adeus e ter que partir contra a própria vontade. Dessa vez eu parti porque eu quis, mas a canção ainda faz muito sentido no que diz respeito à despedidas. Estou no paraíso, mas meu coração fica do tamanho de uma cabeça de alfinete de saudade das pessoas que amo. Mas a vida é isso, pra cada escolha, uma renúncia!

Bom sábado!

Leaving on a jet plain (tradução aqui)

 

Quando os espelhos dão conselhos: a idade chega para todos

“A mulher quando é moça e bonita nunca acredita poder tropeçar. Quando os espelhos lhes dão conselhos é que procuram em quê se agarrar.” Castigo – Lupicínio Rodrigues 

Mais da metade das vezes que alguma mulher de mais idade me falou que a beleza acaba não entendi a motivação do conselho e o que de fato ele abarcava com conceitos de beleza e juventude. Ainda não me considero tão experiente quanto aquelas senhoras, mas acho que comecei a entender o que elas queriam dizer com “Beleza acaba, menina”.

Beleza é um conceito muito amplo e gosto de pensar que está presente em várias fases da vida, inclusive na juventude. Mas pele de pêssego e corpinho no lugar passam num estalar de dedos, vão embora de foguete se você não se ligar. Por juventude podemos entender tudo aquilo que existe numa proporção característica daquele momento, por um propósito específico. Queridos, não faz sentido nenhum pra Natureza qualquer ser vivo ser jovem pra sempre. É agora que começa o texto de hoje.

Beleza e juventude passam. Ainda bem!!!

Nem vou começar a criticar as imposições e gaiolas douradas que nos cercam desde a mais tenra idade. Padrões em geral tornam a vida mais difícil e castram qualquer natureza selvagem, o que é muito bom pra organizar uma sociedade e péssimo pro desenvolvimento de indivíduos (pessoas diferentes, autênticas, unicas). Com o advento da tecnologia a humanidade vem adotando novas referências e reformulando padrões, o que pode ser bom ou ruim. Se há 100 anos uma mulher farta era sinônimo de saúde e beleza, hoje é motivo de preocupação e horas de academia. Ficou clara a relatividade e mudança de padrão?

Pois o objeto juventude (e com ela a beleza) de hoje parece-me um bem de consumo. Temos cada vez mais medo de perde-la, gastamos cada vez mais com sua manutenção e não nos sentimos bem quando nossos esforços para mante-la não são reconhecidos (e dizem que parecemos mais velhos ou que estamos “meio acabadinhos”). É um terrorismo essa propaganda do Forever Young, minha gente!

Sem hipocrisia alguma, adoro a ideia de parecer mais jovem ou conservar uma beleza juvenil, pago botox se me der vontade sim! A pergunta importante que deve ser feita aqui é: A partir de que momento esse desejo de esconder uma linha de expressão me liberta do desconforto de te-la e me escraviza a um padrão que eu nem sei se realmente serve pra mim? POR QUE essa linha de expressão me incomoda, por que eu preciso esconde-la de mim mesma pra continuar me sentindo bem comigo mesma?

Que bom que a juventude passa, ainda bem que passamos por mudanças: elas nos possibitam novas sinapses, corpos mais adaptados, menos sofrimento pelas coisas desimportantes, mais tempo investido nas coisas certas. Envelhecer é uma atitude, vai acontecer diferente pra cada pessoa e trás os resultados do plantio feito na juventude. Então, ao olhar-se no espelho, não é só um corpo que está jovem e bonito ou não que vemos. É o reflexo de quem nos tornamos e de quem poderíamos ter sido que os espelhos revelam.

Acredito estar em 45% do meu trajeto por essa vida. Com a minha juventude tive e ainda tenho grandes conquistas e aprendizados inesquecíveis. É maravilhoso sertir mais segurança e autonomia inclusive sobre si mesma! Dos conselhos que meu espelho tem me dado, ou seja, dos resultados das minhas vivências, posso citar os mais signiticativos pra mim:

  1. Pra me qualificar não preciso desqualificar ninguém.
  2. Se está tudo bem, ótimo. Se não está, posso tentar resolver. Se não conseguir, paciência.
  3. Tudo passa, tudo muda. Não há motivos pra se fixar a qualquer coisa que provavelmente vá passar também.
  4. O apego só vale a pena se você for bom em desapegar.
  5. Comer é muito bom, mas andar rápido, subir escadas e não precisar de comida pra se sentir bem é ainda melhor.
  6. Não existe vilão nem mocinho. Todo mundo já fez mal pra alguém um dia.
  7. Relacionamento não precisa ser uma meta, mas um meio. Relacionamento é um dos meios pra se ter uma vida bacana. Há outros também!!! Ninguém precisa de alguém pra ser feliz.
  8. É melhor decidir no dia seguinte. Se puder ter uma noite de sono pra resetar o cérebro e organizar as emoções, permite-se.
  9. Tudo vai fazer sentindo em algum momento, não precisa se desesperar. Opção “a” não deu certo? Pois gora você tem todas as outras letras do alfabeto.
  10. Conhecimento não se adquire por osmose. São necessárias muitas horas com a bunda na cadeira pra se pensar em dar uma opinião sensata, interessante e relevante. Do contrário, o silêncio sempre será o pretinho básico (vai bem em qualquer ocasião).
  11. Todo dia temos a chance de aprender alguma coisa. Não existe verdade absoluta. Todo mundo tem sua razão. O seu espaço começa aonde o meu termina e discutir ideias sempre será mais interessante que falar da vida de alguém.

E você, gosta da juventude que tem/teve? O que aprendeu até hoje?

 

O preço da Liberdade

Imagem de mosaicotidiano

Já nascemos morrendo, e mesmo sabendo que isso é um fato, temos a liberdade de escolher como viver. Nascemos com a chance de aproveitar o tempo que nos foi dado, o crédito da Vida. A ânsia pela liberdade é uma constante, a decisão de consegui-la é um marco. A conquista da liberdade é… ainda não sei.

 

Aceitei o desafio de escrever sobre o preço da liberdade. Esse tema me dá arrepios, pois sei bem quão cara ela pode custar. Pra não me perder pelas palavras, formas de liberdade surgirão em tópicos. Talvez eu esqueça de algo ou de muita coisa. Paciência, escrevo como se estjvesse numa conversa, tudo surge naturalmente.

Tentando lembrar das minhas libertações encontro nos primeiros capítulos uma silenciosa desbravadora escolhendo os livros como caminho pra uma liberdade que imaginava existir, mas não tinha ideia de como era e de quanto custaria.

  1. Essa liberdade de pensamento que tanta gente criticou no passado hoje é oferta de 1,99 na palma da mão. Mas ela precisa de senhas, fórmulas, palavras-chave que a mente mergulhada no senso comum não consegue facilmente. É triste, mas de um total de pessoas com acesso aos fatos, menos da metade sabe o que é um fato e menos ainda chegará nele. Motivos? Outras prisões. Quem vai procurar pelos fatos quando a vida pessoal dos artistas é mais interessante? Mais preocupante é que algumas de nossas opiniões são na verdade fruto da falta de opinião própria (seja por falta de oportunidade de desenvolve-la ou  preguiça de pensar mesmo). Tenho horror a isso, nem consigo continuar o parágrafo.
  2. Nossas crenças nos libertam ou nos aprisionam. Às vezes as duas coisas. Seja produto do que for, aquilo que você tem certeza ‘absoluta’ que está certo te distancia do que está errado (do seu ponto de vista) e… os anos sempre ensinam que ter certeza demais não é nada sábio. Sempre há algo a se descobrir, a ser melhor entendido, mais adequadamente elaborado. Isso se aplica aos sentimentos, acredito eu. Libertar -se dos nossos monstros infantis, dogmas religiosos e amarras ideológicas nunca é fácil, pode custar até uma vida. Aliás, até que ponto os seus sonhos te impedem de viver o aqui-agora?
  3. E dos desejos, quem tem coragem de falar? A palavra dieta, por exemplo, faz minha boca doer toda vez que pronuncio. Dieta fala de padrões, de autoestima, de autodestruição. Libertar -se dos desejos é tão difícil que quase todos nós passamos a vida inteira lutando contra algum vício, seja o de trancar a porta duas vezes ou de comer doces. Há quem consiga pagar, há quem arranje desculpas pra viver com juros. E por desejos leia-se todo tipo de desejo. Até que ponto algo te dá prazer sem te escravizar?
  4. Passado, lembranças, lutos. Nossas memórias nos identificam, dizem muito de nós. Abrir mão daquilo que também nos formou não é facil. Viver num calabouço preso a memórias que magoam mais que alegram pode ser um fardo pra uns, mas livrar-se dele pode ser a própria morte pra outros. Não podemos julgar, mas há quem precise sofrer pra viver. Não sei dizer o que sai mais caro pra essas pessoas, a eterna goteira ou o recomeço e seus desafios.
  5. Liberdade financeira queremos ter desde que descobrimos as funcionalidades do dinheiro. Tem que o atribua ao poder, há quem prefira a segurança e quem só queira qualidade de vida. Mas pra qualquer tipo de vida, aprendemos que precisamos de dinheiro. Trabalhar cedo, tirar vantagem dos ingênuos, abrir mão de tudo pra trabalhar e ganhar mais, até de comer ervilha no Ano Novo pra ganhar rios de dinheiro somos capazes tão grande é nosso desespero pela sonhada tranquilidade financeira. Mas alerto você pra uma prisão que se configura aqui: até que ponto precisamos de tudo isso? Quando é que deixa de ser o sonho da casa própria e passa a ser uma escravidão, uma submissão? Pense nisso antes de achar normal ganhar mais pra comprar o carro do ano. Pense nisso antes de vender sua alma e deixar a vida passar pelos seus olhos e não poder abraça-la.
  6. Tem uma liberdade mais sutil que não  sei explicar. Definiria como “libertar-se de si mesmo”. Você se motiva e se sabota (faz escolhas incoerentes). Se respeita e se destrói (põe uma roupa nova pra se sentir bonito mas se alimenta do que faz mal).  Se ama e se odeia. Se aceita e se rejeita. Até que ponto somos livres das nossas próprias contradições? Quando é que criticar a si mesmo deixa de ser um exercício de crescimento e vira baixa auto-estima?

O que me sinto capacitada pra dizer é que não é fácil libertar-se de estigmas, de problemas familiares, traumas juvenis, amores mal resolvidos, relações abusivas, círculos viciosos, muito menos de si mesmo. Às vezes pra conquistar a liberdade a gente tem que se entregar e confiar. Soltar. Fechar os olhos, apertar o botão. Ir embora sem olhar pra trás. Escrever e enviar, decidir e agir.

Finalizo com algo do Bukowiski que sempre me fez bem e mal. Fala da gaiola que você tem na cabeça, na essência… no coração. Obrigada por ter chegado até aqui, um abraço!

 

Segunda-feira tem dica de leitura (larga um pouco o celular)

Segunda-feira é o dia mundial do recomeço (para quem trabalha e faz tudo certo de seg-sex mas deixa tudo pra lá no final de semana). Também é o dia em que prometemos começar um hábito ou continuar aquele projeto que precisa ser finalizado. Não é à toa que seja um dia tão hostilizado! 

Aproveitando a onda de promessas e overdose de determinação, quero indicar um livro toda segunda-feira aqui no Travessias. Lê quem quiser e tiver tempo, quem não gostar apenas segue em frente. Se você tiver algum livro pra me indicar também, fique à vontade!

Hoje vou falar de um livro que estou terminando de ler. É uma espécie de transcrição da conversa entre os autores Leandro Karnal e Monja Cohen. A leitura é muito fácil, saborosa e nos convida a uma reflexão que não dói, mas que nos desperta. Tópicos como Cultura de Violência e Medo, Disciplina libertadora, Coerção e Consenso, Tolerância e Limite são abordados pelos autores, dois grandes estudiosos sobre a história da humanidade em suas áreas de atuação.

O título “O Inferno somos nós”  brinca com a icônica e irônica frase de Jean Paul Sartre ‘O inferno são os outros’ (para conhecer um pouco esse filósofo clique aqui). A obra versa sobre a possibilidade de se produzir uma atitude menos agressiva e mais acolhedora a partir do momento em que o conhecimento de si e do outro substituem a cultura do medo e do preconceito.

Duas potências abordando a possível travessia do ódio à cultura de paz, Leandro é historiador e Monja Cohen é fundadora da comunidade Zen-budista do Brasil. Você não precisa ser budista ou professor de História pra se aventurar nessa obra, ela dá a impressão de que foi feita justamente pra quem não é especialista nesses temas. Aliás tanto Karnal quanto Monja Cohen se tornaram populares pela linguagem acessível e versátil que adotam em suas palestras e obras. Boa leitura!

Amor em tempos de gaiolas douradas

Hoje vamos falar de amor. Durante o dia-a-dia falamos de política, dinheiro, violência, religião, futebol e outros temas que impactam diretamente em nossas vidas. Discutimos, até desfazemos amizade quando não somos capazes de respeitar os limites da dialética. Mas não falamos de amor, talvez porque nossos amores falem mais de nós que o que dizemos de nós mesmos.

Falar de amor dá uma enciclopédia. Escolhi falar de amor e de uma máquina do tempo que já desejei ter em alguns momentos da minha vida.

ALERTA SPOILER. Se você assistiu Interestellar deve lembrar de quão impactante é a obra. A primeira referência que faço ao filme está na cena em que equipe de astronautas já está com pouco combustível e precisam tomar decisões importantes. Amélia ama um dos integrantes que morreram durante a expedição e ao ser questionada por sua motivação para estar ali, ela fala desse amor.

Por muitos anos me perguntei se o que sentia era mesmo amor. A explicação mais sábia que recebi sobre como saber se era mesmo foi “Você vai saber”. Então, se eu precisava me perguntar a resposta era negativa. Hoje eu diria pra quem me fizesse essa pergunta que é amor quando o tempo passa, as pessoas mudam e mesmo assim ele não muda. É amor quando você não quer/consegue se livrar do amor (mesmo com esforço e distanciamento da pessoa/causa que te desperta esse sentimento). A definição que a personagem de Anne Hathaway dá ao amor é muito interessante. O amor é algo que ainda não conseguimos compreender e talvez seja uma evidência de uma dimensão maior que ainda não está disponível pra nossa inteligência. E é um sentimento que por mais que não consigamos descrever com exatidão, seguimos sentindo através do tempo e do espaço…

Outro momento que me tocou fortemente foi a cena do ‘fantasma’. Matthew McConaughey vê o passado e pede desesperadamente pra que sua filha Murphy o impeça de partir pra missão espacial. É aí que o sapato aperta, leitor. Quantas vezes a gente olhou pra trás e se perguntou “AONDE APERTA PRA VOLTAR?”

É simples: não existe esse botão. Sua inexistência faz com que a partir de determinado ponto de nossas vidas passemos a valorizar mais cada segundo à nossa frente. E quando o segundo é de amor, queridos, esqueçam tudo e agarrem esse momento como se fosse a própria vida. Porque no futuro pode ser essa a lembrança mais significativa da sua vida.

Falo isso porque temos a ilusão de que o tempo não existe, pois não somos doutrinados ou mesmo incentivados a refletir sobre sua importância. Crescemos acreditando que segurança financeira, colocação social, padrão estético e outras gaiolas douradas são temas que merecem nossa atenção, dedicação e tempo. O tempo passa e com ele vamos nos tornando quem realmente somos. É nessa travessia entre quem você “tem que ser” e quem você realmente é que vem a oportunidade de viver conforme sua intuição/razão/coração fala. Nesse exato momento em que você lê o que escrevo, quem é você? Que valores orientam sua vida? Que desejos SEUS você já realizou até hoje? E, tocando na ferida, você conseguiu encontrar e ficar com seu grande amor? Você olha pro passado e fala pra si mesmo que deveria ter agido diferente, que gostaria de uma chance pra tentar fazer aquela história dar certo? Não estou te julgando, mas acho importante que você julgue a si mesmo e encare as consequências da vida que você tem escolhido todos os dias continuar vivendo. Não tenha medo da escuridão da sua intimidade.

ALERTA SPOILER. Agora trago outra referência que fala de um comportamento muito mais saudável ainda que perigoso em relação ao amor. Em A Forma da Água a jovem Elisa  vive um conto de fadas em tempos desastrosos, tempos em que os seres humanos precisam refletir e decidir diariamente sobre como se comportar diante das diferenças. Quando Elisa decide arriscar a própria vida (quando ela decide isso, já riscou do caderno todas as gaiolas douradas) para salvar seu grande amor, ela consegue provar algo que a gente é forçado a acreditar que nunca vai acontecer se tomarmos decisões contrárias aos padrões sociais, convenções e normas de convivência “tradicional”. Elisa consegue o apoio das pessoas mais próximas e até de quem não é de seu círculo mais íntimo. E você, eu, todo mundo aqui do lado de fora do cinema continuamos com medo de decidir o que fazer: o que vai agradar todo mundo, ficar com aquela pessoa que a família gosta e que os amigos não vão criticar, continuar com a relação ou solidão que nos convém (pra nos proteger de grandes desafios).

Leitores, com todo respeito, pelo menos uma vez na vida somos ou incentivamos uns aos outros à covardia. O amor, depois de diagnosticado, é para os fortes. E ser forte muitas vezes é ser fraco também e simplesmente se entregar, passando por algumas tempestades e mesmo assim seguir amando.

Pra finalizar, deixo aqui o texto que li ontem e que me fez pensar em tudo isso. O autor chama-se Bruno Fontes e já tem um livro publicado. Pra você que assim como eu tem um lugar no passado pra onde volta de vez em quando ou que não sabe que decisão tomar hoje pra não ter que pagar caro no bilhete da saudade, aqui vai essa bomba que o Bruno apertou o botão e explodiu na minha cabeça: “O amor mora nos nossos sonhos uma vida inteira”. Um domingo cheio de saudade pra vocês.

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Aumenta o som (cuidado com a poeira)!


Sábado é dia de “sentir aquele cheirinho de amaciante de roupas pela casa misturado com o cheiro de café quentinho e comer uma tapioca com tucumã e queijo” segundo uma amiga minha. Pois acrescentarei uma trilha sonora a essa experiência.

Pra fazer algo diferente e nada maçante minha proposta é te levar ao passado justamente nesse dia da semana em que você está disponível pra isso mentalmente.

Então chega de falar e aqui vai nossa canção de inauguração do nosso Sábado com Poeira!

Sábado – Xuxa

(preste atenção na letra!)

Um sábado cheio de faxina, almoço em família, filme com o amorzinho e brinde com os amigos a todos vocês!